
Balanço Geral e Vencedores do Festival Cine-PE 2026
Envolto a uma tragédia pessoal e intransferível, a edição de 30 anos do Festival do Audiovisual, que acontece em Recife, sai de escombros inimagináveis no meio de sua festa mais esperada bradando seu lugar entre os festivais de grande porte
Por Francisco Carbone
Envolto a uma tragédia pessoal e intransferível, o Cine-PE 2026 sai de escombros inimagináveis no meio de sua festa mais esperada bradando seu lugar entre os festivais de grande porte, e mostrando garra suficiente para muito mais. No futuro, admiradores do festival, imprensa, cinéfilos e amigos, se perguntarão: onde você estava no dia 4 de junho de 2026? Durante os merecidos festejos de suas festas de 30 anos, chega a notícia que não gostaríamos de receber: Alfredo Bertini, criador, diretor e chanceler desse evento, já não estava entre nós. O choque, o susto e a certeza do sopro da vida só durou o suficiente para que as devidas reflexões fossem feitas, acerca da brevidade do sonho. Mas, entendedor da alma artística como acabou se tornando nas últimas décadas, Bertini melhor que ninguém sabia que o espetáculo não poderia parar. E não parou.
Entra em cena então, a leoa que conhecíamos. Seu nome é Sandra Bertini, mas podem chamá-la de Fortaleza. Por não ser de ferro, vimos a companheira de sonho bambear, se emocionar (e nos emocionar – muito), mas, ainda que nesse momento talvez esteja se sentindo num estado de solidão maior, se mostrou gigantesca. A tempestade ainda estava em curso, e Sandra se manteve com poucos escorregões no comando de um leme que ela agora passa a dividir com o filho deles, Vitor. Sendo eles uma das mais amorosas e carismáticas família do audiovisual do país, não será em clima de desafio que estaremos no Recife em 2027, mas para ter a prova do que já temos certeza: nada irá abalar o Cine PE, e é sempre delicioso testemunhar a vitória de quem merece vencer.
Como é o caso de Douglas Henrique, que chegou a premiação de curtas metragens com a carga de favorito, e provou o que todos já sabíamos: melhor filme, roteiro e montagem para “Os Arcos Dourados de Olinda“, uma das obras mais criativas de 2026. Se houve alguma pedra em seu sapato, ela atendeu pelo nome de “Mercado Central“, da diretora Tássia Dhur, vencedora do júri popular, além de fotografia e direção de arte e do prêmio ABRACCINE. Um dos melhores filmes do Cine-PE 2026, “O Véu“ de Gabriel Motta, levou apenas melhor som, enquanto outro grande filme, “Um Certo Cinema Brasileiro”, de Fábio Rogério, saiu sem nada. O prêmio de melhor atriz foi para a magnética Gleide Firmino, de “Via Sacra”.
Entre os candidatos pernambucanos, talvez a maior unanimidade do festival: “Os Ursos e Nós”, de Maria Acselrad, mostrou a força que vinha crescendo e não deu brecha para a desconfiança: melhor filme, direção, trilha sonora e som. Talvez o segundo filme mais forte dessa seção, “Velha Roupa Colorida“ levou os prêmios de roteiro e ator, para o emocionante Beto Aragão. O prêmio do público foi para o instigante “Magritte“, de Tom Nogueira, e o júri teve a coragem de proclamar que não houve um trabalho de atriz a ser premiado esse ano, e assim o fez. Ou não fez.
Por fim, algo parecido com uma divisão de júri deve ter acontecido no grupo de longas, porque ninguém esperava que o prêmio de melhor filme fosse para “Resta Um“, nem durante o desenrolar da premiação isso foi se definindo. Vencedor de três prêmios, esses sim que pareciam seguros desde a sua exibição, o filme de Fernando Ceylão é definitivamente um bom filme merecedor dos troféus de roteiro, ator coadjuvante e atriz coadjuvante (não percam Perla Carvalho de vista; nasce uma estrela), mas sua vitória foi com certeza a mais inesperada da noite. Ceylão fez um filme político, de discurso inflamado e bastante ambicioso em seu debate até, mas que foi visto por um viés pop; do qual particularmente, não tenho nada contra, mas não é o que se imagina na ponta de lança de festivais.
O filme que aparentava favoritismo, “A Fabulosa Máquina do Tempo“, fez jus à imagem: melhor direção, trilha sonora, um bonito prêmio coletivo de melhor atriz ao seu elenco de jovens atrizes e o prêmio da crítica. Eliza Capai fez belos discursos e voltou a mostrar porque é um dos nomes mais quentes da atualidade. Mas Rafael Lobo não ficou para trás, e seu “Mapas“ ganhou melhor filme pelo júri popular, som, fotografia, montagem e melhor ator, para Caíque Copque. Foram sim os três filmes que dividiram corações e mentes dessa semana de festival, mas ao menos algum prêmio poderia ter sido dado ao singelíssimo “Buenosaires“, delicioso documentário de Tuca Siqueira.
O Cine-PE 2026 foi uma avalanche de emoções e sai de cena com a certeza de que enfrentaremos multidões sempre que houver amor, empatia, compreensão e uma coletividade sem igual. Foi isso que Bertini ensinou nos 10 anos que o conheci e é exatamente esse um dos mandamentos que Sandra sempre comungou, e será assim que o barco será tocado, sob a luz e a bênção de seu criador.
CONFIRA A SEGUIR A LISTA COMPLETA DOS VENCEDORES DO FESTIVAL CINE-PE 2026

LONGAS METRAGENS
Melhor Filme do Cine-PE 2026: “Resta Um”, De Fernando Ceylão de Goiás e Rio de janeiro
Prêmio Especial do Público: “Mapas”, de Rafael Lobo.
Melhor Diretor: Eliza Capai, pelo filme “A Fabulosa Máquina do Tempo” do Rio de Janeiro
Melhor Roteiro: Fernando Ceylão, pelo filme “Resta Um” de Goiás e Rio de Janeiro
Melhor Fotografia: Emília Silberstein, pelo filme “Mapas” do Distrito Federal
Melhor Montagem: Rafael Lobo e Tainá Menezes, pelo filme “Mapas” do Distrito Federal
Melhor Edição de Som: Olivia Hernandez, pelo filme “Mapas” do Distrito Federal
Melhor Direção de Arte: Débora Padial e Laís Vieira, pelo filme “Doutor Monstro” do Paraná e São Paulo
Melhor Trilha Sonora: Décio 7, pelo filme “A Fabulosa Máquina do Tempo” do Rio de Janeiro
Melhor Ator: Caíque Copque, pelo filme “Mapas” do Distrito Federal
Melhor Atriz: O coletivo de atrizes do filme “A Fabulosa Máquina do Tempo” do Rio de Janeiro
Melhor Ator Coadjuvante: Ítalo Martins, pelo filme “Resta Um” de Goiás e do Rio de Janeiro
Melhor Atriz Coadjuvante: Perla Carvalho, pelo filme “Resta Um” de Goiás e do Rio de Janeiro

MOSTRA PERNAMBUCO
Filme: “Os Ursos e Nós”, de Maria Acselrad
Prêmio Especial do Público: “Magritte”, de Tom Nogueira
Direção: Maria Acselrad, pelo filme “Os Ursos e Nós”
Roteiro: Eduardo Santiago, pelo filme “Velha Roupa Colorida”
Fotografia: Willian Tenório, pelo filme “Salam”
Montagem: Rafaela Albuquerque e Williian Tenório, pelo filme “Salam”
Edição de Som: Felipe Peixoto, pelo filme “Os Ursos e Nós”
Direção de Arte: Andrew Gladson e Eduardo Padrão, pelo filme “Medo Monstro”
Trilha Sonora: Sérgio Godoy, pelo filme “Os Ursos e Nós”
Ator: Beto Aragão pelo filme “Velha Roupa Colorida”
Atriz: o júri da mostra de curta-metragens pernambucanos decidiu declarar deserta a categoria de melhor atriz.

MOSTRA NACIONAL
Filme: “Os Arcos Dourados de Olinda”, de Douglas Henrique, de Pernambuco
Prêmio Especial do Público: “Mercado Central”, de Tássia Dhur.
Direção: Daniel Jaber e Lu Damasceno, pelo filme “João-de-Barro” de Minas Gerais
Roteiro: Arnon Hochman e Douglas Henrique, pelo filme “Os Arcos Dourados de Olinda” de Pernambuco
Fotografia: Danilo Rosa, pelo filme “Mercado Central” do Maranhão
Montagem: Douglas Henrique, pelo filme “Os Arcos Dourados de Olinda” de Pernambuco
Edição de Som: Jonts Ferreira, pelo filme “O véu” do Rio Grande do Sul
Direção de Arte: Neila Albertina, pelo filme “Mercado Central” do Maranhão
Trilha Sonora: Heitor Martins Oliveira, pelo filme “Da Aldeia à Universidade” do Tocantins
Ator: Daniel Jaber, pelo filme “João-de-Barro” de Minas Gerais
Atriz: Gleide Firmino, pelo filme “Via Sacra” do Distrito Federal

PRÊMIO ABRACCINE
Melhor Longa-Metragem: “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, do Rio de Janeiro
Melhor Curta-Metragem: “Mercado Central”, de Tássia Dhur, do Maranhão




