Velha Roupa Colorida
Laços futuros
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival Cine-PE 2026
Não é costumeiro que vejamos filmes centrados na sexualidade de pessoas da terceira idade. Não é todo dia que assistimos filmes cujas pessoas da terceira idade sejam sujeitos “queer”. Definitivamente não é sempre que um filme aborde o encontro entre personagens de sexualidade diversa em contraste etário, e isso seja um realce para construção de novas formas de afeto. “Velha Roupa Colorida”, novo filme de Pedro Fillipe, estreou na competição do Cine PE 2026 com credenciais oriundas de sua vontade de desbravar novas possibilidades de personagens e emoções. No meio do caminho, o autor revela mais do que sua mola sensível no trato dos elementos, mas principalmente as costuras cheias de bem-vindas arestas nessa relação.
Nada precisa ser aparado em “Velha Roupa Colorida”, porque Fillipe enche seu filme de um lastro de verdade, que a edição de aparência brusca de João Maria, acaba por florescer nessa atmosfera de inicial aridez. Essa tensão primeira que existe na proximidade entre Gabriel e Beto é proposital: ambos estão em extremos da vivência LGBTQIAPN+, e em um momento de transição que ainda não foi identificado por ambos. O primeiro é um jovem que anseia pelo voo inaugural de sua identidade; o segundo, não entendeu que seu voo final ainda não chegou. A partir do momento desse encontro, o filme revela o que nós, sujeitos ‘queer’ já sabemos de outros tempos: uma amizade entre homens gays não precisa ter conotação sexual.
O que existe em tela prescinde de possíveis definições taxativas que normatizam as relações entre homossexuais masculinos como fruto exclusivo de interesse romântico-sexual, principalmente no audiovisual. Aqui, o roteiro de Eduardo Santiago a partir de um argumento de Fillipe transformam dois protagonistas em marcos de um momento sem violência dentro do cinema brasileiro. O que existe não é apenas a vontade de nascer, como a necessidade de permanecer vivo, em um mundo que mata ou abandona os grupos ditos minoritários. Então, não há muito mais a fazer cuja resposta não seja a união integral entre todos os que merecem e terão voz.
Contra todas as normas não-tácitas, Gabriel e Beto não só se aproximam, como essa ação não é permeada por outro desejo, que não seja o de angariar camadas de representatividade, e afeto. “Velha Roupa Colorida” não levanta bandeiras da maneira tradicional, porque ele prefere vender seus pactos de afeto e tolerância. E quando as cito, tenho mais propósito na relação entre homens mais jovens com outros mais velhos, afastando qualquer mínimo olhar etarista. O filme evoca suas forças através de uma roupagem empática dentro mesmo do movimento “queer”, que sabemos não ser o mais inclusivo com suas particularidades. Independente disso, Fillipe banca sua narrativa pelo viés do entendimento mútuo, que não é suplantado por um estranhamento antiquado.
Os atores estão equilibrados em suas funções, e é através de suas interpretações que o espectador se conecta ao que está assistindo, porque o carisma de ambos, e a química que eles estabelecem é verdadeira. Lucas Carvalho representa essa lufada de juventude que a narrativa precisa, enquanto Beto Aragão é compenetrado em seus movimentos, quase demarcados milimetricamente. O encontro de ambos em “Velha Roupa Colorida” é uma demonstração de equiparidade cênica no qual o cinema nem sempre está em equilíbrio, sem pesar para qualquer dos lados. Mas a direção de atores também se mostra um acerto, levando em consideração suas presenças.
Além de tudo, “Velha Roupa Colorida” é mais um avanço diante da categorização tradicional do filme LGBTQIAPN+, no que diz respeito ao seu tom. Apesar de uma certa melancolia que existe para emoldurar essa relação em seu surgimento, o que vemos aqui é uma ode à energia vital dos encontros. Em como surge de onde menos esperamos uma porção de novidade que nos carrega para o alto, e mostra como o futuro tem tudo para ser positivo. Não à toa o encerramento do filme se dá por uma estrada que precisa ser percorrida, rumo ao imediato: ser feliz é uma ordem.




