A Sagrada Caminhada de Tatatxi Ywareté
Correndo em círculos
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival de Cinema de Vitória 2026
A filmografia mundial (e em particular a brasileira) foi formada pela visão dos povos originários sendo filtrada pelos colonizadores, com ou sem aspas. Ainda que munidos de bom senso e com muita nobreza na luta por uma causa, os cineastas que filmaram indígenas e seus hábitos, que tentavam reproduzir ficção a partir daqueles corpos e que ministraram a favor de vozes comumente invisibilizadas, não eram exatamente seus autores. De uns tempos para cá, a autoria dessas imagens está sendo devolvida a quem pode falar sobre elas, refletir sobre o que é mostrado e eventualmente debatido. Wera Djukupe é uma dessas figuras que hoje está na linha de frente dessa semana, com a estreia no Festival de Vitória de “A Sagrada Caminhada de Tatatxi Ywareté”.
A investigação que veremos tem a ver com a personagem do título, bisavó do autor e que caminhou por 35 anos em busca de encontrar um lugar melhor para viver junto a seu povo. Pelo caminho, conferimos histórias dessa peregrinação, vemos suas imagens em fotografias, e ouvimos inúmeras vozes em off que pretendem dar conta dessa existência mítica. Djukupe não tenta arrancar da personagem essa tal reverberação, pelo contrário: o espaço é celebratório naquele lugar. A maneira como gradativamente o filme se desenrola, tanto narrativa quanto esteticamente, é que nos coloca nesse lugar que não pode ser visto de maneira estática.
Assim como grande parte da cinematografia hoje, nacional ou não, documental ou não, o drone é uma realidade enquanto saída facilitada para resolução de algumas cenas. Alguns filmes gastaram todas as possibilidades de repetição no formato e hoje a utilização do drone é apenas uma repetição em si, tirando das produções qualquer rastro de personalidade. “A Sagrada Caminhada de Tatatxi Ywareté” está nesse caso, quando já não conseguimos perceber a diferença entre o material pensado artisticamente e um facilitador vazio que somente replica planos sem tirar dessa utilização uma mecanização vazia; são imagens reproduzidas de maneira automática.
Além desse facilitador estético, que no resumo dos eventos só retira do filme seus traços pessoais, ainda temos o desenvolvimento narrativo, que fica aquém de suas possibilidades. Ora vejam, temos essa personagem título, Tatatxi Ywareté, com uma história de vida e de responsabilidade social para com os seus, invejável. O filme tenta alcançar a importância de seu legado através dos passos que ela deu ao longo desses 35 anos, mas esbarra na tentativa de Djukupe de também tornar-se didático em relação à atividade indígena milenar. O filme interrompe parte de sua narrativa para resolver platitudes que o roteiro coloca para si, como determinadas práticas e costumes dos povos originários que são básicos, tais como a utilização do arco e flecha.
Ainda que o pensamento fosse trazer para novas gerações hábitos que foram perdidos na discussão de uma ideia indigenista, “A Sagrada Caminhada de Tatatxi Ywareté” perde parte de seus predicados ao contextualizar de maneira didática ao extremo tal debate. Com isso, perdemos o registro histórico da personagem que encontra-se no título do filme, sem ganhar para tal informação relevante em troca. O que resta da experiência são os voos dos drones e o material fotográfico de excelente utilização pela montagem da produção, em que o espectador tenta se encontrar sem perceber que o filme se fechou para outras hipóteses.
Wera Djukupe é um habilidoso contador de histórias, tanto que encontrou na própria família uma raiz de debate para contextualizar os alicerces do povo guarani. Mas acabou caindo nas armadilhas que os cineastas brancos têm se utilizado para desenvolver seu olhar para os mesmos crivos. Fica a vontade de conhecer mais de sua personagem-base, uma mulher a que fomos apresentados e criamos natural empatia por tudo que representa até hoje.




