Mirrors No. 3

Um Barco no Oceano

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2025

Mirrors No. 3

Mirrors No. 3”, o longa de Christian Petzold de 2025, é uma obra refinada, precisa e minimalista – mas também um filme de mistério, quase um conto de fadas para adultos. Nele Petzold investe em uma obsessão conhecida, uma hauntologia (conceito criado por Jacques Derrida) que descreve a persistência de elementos do passado que continuam a assombrar o presente, mesmo que já tenham acabado ou não existam mais fisicamente. Milimetricamente dirigido e montado, o filme embaça a linha entre retornos literais dos mortos e ciclos metafóricos de ressentimento.

Mirrors No. 3” faz referência à suíte para piano Miroirs do compositor francês Maurice Ravel, especificamente ao terceiro movimento da obra, intitulado Une barque sur l’océan (Um barco no oceano). A suíte foi inspirada por uma citação de Shakespeare, o olho não vê a si mesmo, mas por reflexo, por meio de outras coisas. É uma frase dita por Brutus a Cássio na peça “Júlio César” – as pessoas não conseguem ver ou compreender plenamente seu próprio caráter, valor oculto ou defeitos sem a perspectiva de outros atuando como um espelho.

Paula Beer, atriz frequente nos filmes de Petzold, interpreta Laura, uma pianista que estuda música em Berlim e se encontra visivelmente fragilizada e deprimida. Paula está presa em um relacionamento infeliz com Jakob (Philip Froissant), que, em uma tarde tensa, perde o controle de seu carro conversível e morre, no ato. Laura, arremessada para fora do banco do passageiro, sobrevive milagrosamente com apenas um arranhão.

Pouco antes do acidente, Laura trocou um breve olhar com uma mulher de olhar intenso, parada à beira da estrada enquanto o carro passava em alta velocidade. A mulher a encarava, talvez até com um ar de luto, como se tivesse previsto o desastre iminente. A mulher é Betty, interpretada por Barbara Auer. Betty oferece abrigo a Laura, que está bastante abalada. Ela mora sozinha, oferece roupas do tamanho de Laura – calças jeans e camisetas de uma jovem – e a incentiva a tocar piano que, que ela mesma não toca.

Mirrors No. 3” constrói esse cenário rural como um espaço liminar clássico — isolado do mundo exterior, funcionando sob uma lógica silenciosa e onírica. A transição da sobrevivência física para o acerto de contas emocional forma o núcleo do suspense existencial da história. Sem usar recursos óbvios dos filmes de terror, Petzold sugere que a paisagem da família e os recorrentes acidentes de carro são governados por espíritos ou pelo peso de um luto não expresso. Uma espécie de “estado de choque” se instala na audiência, transformando um elegante psicodrama em uma sutil história de fantasmas.

Pouco a pouco, uma tensão silenciosa, organizada por meio de diálogos sutis, interações humanas e elipses precisas, permeia o ambiente. A Materialização do Luto: fiel ao estilo de Petzold, o metafísico está ancorado em ambientes realistas do dia a dia. Betty parece estar meio afastada do marido, Richard (Matthias Brandt), e do filho adulto, Max (Enno Trebs), que administram uma oficina mecânica de práticas duvidosas – e também não tocam piano. Betty chega a chamar sua nova hóspede de “Yelena” por engano, antes de corrigir para “Laura”, um ato falho revelador, dela e de “Mirrors No. 3”. A oficina serve como metáfora física e política do próprio filme: o trabalho árduo e cotidiano de reparação psicológica e social, enquanto o trabalho de reparação emocional é feito a poucas centenas de metros dali, na casa de Betty.

Em um mundo hiperconectado onde tudo é rastreado, mapeado e exposto, a oficina funciona como um lugar que cria deliberadamente pontos cegos. Isso de certa forma autoriza que os personagens — e os fantasmas de seus passados — tenham a privacidade e o anonimato necessários para existir em um estado transitório e não monitorado. Um detalhe específico dos serviços prestados envolve desligar manualmente os sistemas de rastreamento GPS dos carros. Max, solitário e reservado, é o operador, e a princípio adota uma desconfiança de Laura – com o tempo, começam a se aproximar, quase um flerte. Em um desses momentos, ela pergunta, numa dicção, digamos, brechtiana: Vocês são criminosos?

A sobrevivência fortuita de Laura ao acidente de carro fatal a coloca em um estado que remete ao conceito filosófico de aevum. Sua presença em um refúgio idílico no campo e o uso da música de Maurice Ravel estabelecem uma ponte entre sua atemporalidade interior e a realidade mortal da família que a acolhe. O termo aevum é uma ficção criada pelos escolásticos medievais para atribuir um modo temporal atribuído a anjos — eles não mudam como os mortais no tempo, mas também não possuem a imutabilidade absoluta divina, a eternidade.

Embora de carne e osso, Laura, pela forma como é filmada e com o impacto que causa na família que a acolhe, surge como anjo metafórico naquela localidade perto de Berlim. O diretor observou que Laura caminha no filme “como em um conto de fadas”, e comparou a situação ao seu filme anterior, “Yella”, onde uma mulher sobrevive a um acidente e entra em uma realidade paralela, onírica, adjacente ao real. Laura flutua pela casa como um espírito gentil e sobrenatural, em vez de uma hóspede comum.

Embora seja uma mulher mortal lidando com sofrimentos humanos reais, a personagem funciona como um anjo – ou fantasma secular – que passa pela vida de uma família. A relação de Betty com ela é profundamente complexa, oscilando entre devoção maternal, projeção psicológica e uma forma silenciosa de consumo espiritual.

Se Laura é o anjo que existe em um estado suspenso de graça imaculada, Betty lida com esse “anjo” por meio de uma fascinante mistura de reverência e remodelação: emprestando roupas, incluindo-a na mesa de jantar e compartilhando atividades. Laura para ela é uma mensageira divina enviada para preencher um vazio, uma presença imaculada que apaga o trauma antigo de sua família e a crise conjugal.

A composição de Ravel, o ápice de “Mirrors No. 3”, imita o movimento fluido e ondulante das ondas do oceano. Petzold utiliza essa estrutura fluida para espelhar a forma como a mágoa se transforma, sugerindo que aqueles que perdemos não desaparecem — simplesmente permanecem fora do nosso campo de visão.

5Nota do Crítico51

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