Yella

Teatro de Marionetes

Por João Lanari Bo

Mubi

“Porquê, pensei, as abóbadas não desmoronam, já que não tem apoio? Resistem, respondi, porque todas as pedras querem desmoronar ao mesmo tempo”. A citação é de Heinrich von Kleist, poeta e escritor alemão que viveu na virada do século 18 para o 19. Christian Petzold, o diretor de “Yella”, gosta de citá-la como uma espécie de metáfora da sociedade: é assim que funcionamos? todos nós desejamos cair? Esse tipo de pensamento, circular e alimentado por uma rigorosa poética, constitui o legado cinematográfico desse cineasta atento à transitoriedade de espaços e tempos, de seres animados e inanimados. Poética: discurso que se forma justamente na flexibilização da realidade no exercício da flexibilização da linguagem, dizem os linguistas. A poética de Petzold alimenta-se de demônios que surgem na diversidade de referências, e seus personagens parecem se encontrar em situações nas quais se sentem compelidos, conscientemente ou não, a esconder alguma verdade sobre si mesmos. Yella, magnificamente vivida por Nina Hoss, trafega nesse limiar de mundos, um fantasma de carne e osso.

O filme começa no trem – lugar de transição, por definição – com Yella retornando à sua cidade, Wittenberge, no estado de Brandemburgo. O rio Elba – ponto de divisão entre leste e oeste, divisor das antigas Alemanha Ocidental e Oriental – contorna delicadamente a pequena aglomeração urbana. Yella separou-se do seu instável marido, Ben, e aceita um emprego como contadora em Hanover, a duas horas de trem de Wittenberge, na parte ocidental (e capitalista) do país: a fatalidade foi aceitar, a contragosto, carona de Ben até a estação. No trajeto, ele se exaspera com a total falta de reciprocidade dela diante dos seus anseios de reconciliação. A sequência inevitável é a cena-fetiche de Petzold, extraída de seu filme-referência, o sinistro “Carnival of Souls”, de 1962: “Yella”, o longa de 2007, reconstitui a cena primária do original americano quando o ex-marido ressentido vira abruptamente o volante do seu Land Rover e mergulha, com a ex-mulher, no Elba. Tal como em “Carnival…”, nossa heroína milagrosamente sobrevive, pega seus pertences e chega a tempo … de pegar o trem. Com esse transpassar de mundos, abre-se uma fresta na realidade, e somos convidados a ingressar em um espaço dramático realista e fantasmagórico, pulsional e contido – porquê, afinal, as abóbadas não desmoronam?

Bem-vindo ao obscuro universo de fusões, aquisições e capitalismo de risco, lugar de trapaças e ambições da economia neoliberal da Alemanha moderna. Yella tem um encontro casual com o free-lancer Philip, o predatório e imprevisível – mas também doce e solidário – negociante de patentes e acordos escusos com empresas à beira da falência. Sua adesão é irresistível: logo é ela quem se destaca nas tratativas, despojada de escrúpulos e senso ético, disposta a um contrato de vida, amor e trabalho com Philip. Mesmo um Ben ameaçador que retorna como recalque inconsciente não parece perturbá-la: “Yella” nessa altura é um filme romântico pós-moderno, uma entropia de sentimentos que aponta para uma felicidade amorosa idealizada.

Kleist escreveu em 1810 um texto curto e célebre, “Sobre o Teatro de Marionetes”, em que dizia: “pode haver mais graça numa articulação mecânica do que no corpo humano… cada movimento tem um centro de gravidade próprio, e basta dirigi-lo no interior, dentro da figura; os membros não passam de pêndulos, não é preciso tocar-lhes pois atuam por si, de forma totalmente mecânica”. Os personagens de Petzold parecem inspirar-se nessa parábola kleistiniana, em particular no momento em que cruzam a fronteira dos mundos espiritual e material: marionetes que se deparam com dúvidas, que se tornam acontecimentos, cheio de esperanças, que acabam em calamidades. A dureza do real – o real é o impossível, aquilo que não pode ser simbolizado e que permanece impenetrável no sujeito, dizem os psicanalistas lacanianos – se impõe. Como se impôs para Heinrich von Kleist, um precursor de Kafka, que – falido, angustiado e desesperançado – fez um pacto de duplo suicídio com a jovem amante, doente terminal. Como no filme de Petzold, em 21 de novembro de 1811, o par romântico se afogou no lago Wannsee, parte de um conjunto de canais no município de Berlim. O lugar, assim como o rio Elba, é carregado: à beira de um dos canais encontra-se a Vila Wannsee, conhecida por ter sido o local onde se reuniu a liderança nazista em 1942, quando foi decidida a exterminação total do povo judeu.

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