Gonzaguinha – Da Maior Liberdade

Os quintais de Susanna Lira

Por Fabricio Duque

Festival de Cinema de Gramado 2026

Gonzaguinha – Da Maior Liberdade

Antes de tudo, é preciso dizer que Susanna Lira é uma cineasta muito perigosa, porque nos incita ao questionamento, provocando nossas emoções comportamental-políticas pela memória afetiva. Susanna planta a semente chacoalhada da revolução ao nos confrontar com a história contada, que acontece pela própria trama, ao evocar personagens “vetadas”, e à margem, de nossa cultura brasileira. Em seu mais recente longa-metragem, “Gonzaguinha – Da Maior Liberdade”, vencedor de Melhor Documentário no Festival de Cinema de Gramado 2026, a sua condução não poderia ser diferente. Ela acha de novo os perdidos, permite-se adentrar em novos quintais e aceita a aventura da estrada. Susanna não tem medo. Quer o caos da discórdia, como em uma consciente comissão da verdade. Também quer nos rasgar de forma inquietante e passional sobre existências sociais que não se calaram, quebraram a bolha e escancararam essa hipocrisia na cara da sociedade.

“Gonzaguinha – Da Maior Liberdade” cria, acima de tudo, uma sensação. Uma nostalgia presente. Naturalista e coloquial. De poesia barroca e popular, em que até a música (a verdadeira roteirista e protagonista) atravessa a conversa e seus vieses. Para Susanna, tudo o que vemos é por (e para ser) sentido, por uma narrativa de imagens de arquivo, sendo intercaladas com o hoje do agora (imagens contemplativas do cotidiano), funcionando junto com a mensagem letrada da música, como “somos apenas palhaços e pessoas; somos gente; estrelas sem fim; somos vozes de um só coração”. Isso tudo cria a metáfora e o simbolismo de um querer maior ao pertencimento, ora utópico, ora sobrevivente. Sim, uma das perfeições deste filme é sua montagem cirúrgica de Ítalo rocha (que também assina o desenho de som), com assistência de Rê Ferreira e Mateus Teixeira, porque todo esse tempo corrido é equalizado na frequência do lembrar e do (re)olhar. Não há urgência, apenas um convite (incisivo) a reviver uma suspensão perceptiva nos fatores dessa existência alheia transmitida.

“Gonzaguinha – Da Maior Liberdade” é também um filme híbrido. A parte ficcional, com o ator André Dale, que é praticamente possuído pelo artista documentado, fornece a construção cênica de falas, cartas, músicas e do Pasquim. O filme é contado pelo próprio filho (“um bom elemento”, um poeta coloquial e “gênio contraditório”) de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, em tom permissivo e autobiográfico, que inclusive descreve os lugares pessoais que o artista resolveu expor. Sim, Susanna, que entende a alma da personagem e do consequente mundo ao redor, busca fielmente imprimir nesta narrativa o ambiente mais confortável, possível, livre e perfeito. Há uma impaciência rasgada; uma criatividade passional; um desejo pulsante. Mas  há acima de tudo a empatia humanizada. Em “Fernanda Young: Foge-me ao Controle” e “Torre das Donzelas”, por exemplo, cada processo seguiu um caminho e foi totalmente particular. Aqui, no ponto de evocação incorpórea e intangível, Suzanna projeta uma fotografia (de Rafael Mazza) saturada à lembrança vívida e a uma saudade pertencente, de algo, para muitos, não vivido, enquanto músicas cantadas viram videoclipes totalmente estéticos dentro da narrativa desenhada. Como disse, há uma sinestesia etérea envolvente, desafiadora e contaminante, que (des)veta os nãos estruturais. “Quem tá na rua se vira; quem tá na rua sabe o que faz”, diz-se, esperando “a cara boa das pessoas”.

Talvez a maior qualidade de Susanna Lira (que faz obras para encontrar respostas do tempo sombrio da Ditadura), essencialmente documentarista, ainda que busque se aventurar na ficção, seja mesmo se apropriar de um que mais orgânico (esteticamente caseiro), que traduz o dia-a-dia da vida como ela é, em que suas personagens vivem “seguindo”, visto que “lutar é preciso”, entre o “raiz” e o “fruto”. Susanna quer estender a percepção, uma observação quase em forma de laboratório, em que essas suas personagens se tornam cobaias de um estudo antropológico, a fim de representar um propósito maior. Pela forma do documentário, esta diretora carioca, também inquieta, viciada em contar histórias, que internaliza a máxima vontade de trabalhar, que adora um bom cachorro-quente e que não se “livra” da missão de servir os “desviados”, consegue achar a liberdade necessária para explorar, no melhor sentido, as possibilidades, limitações, paradoxos, contradições, idiossincrasias, tristezas e alegrias desses atores reais, de Clara Nunes a Casão, passando por Mussum, de Os Trapalhões, e de outros completamente anônimos, como Marli, de “Porque Temos Esperança“. Não satisfeita, quer aprofundar também polêmicas, dificuldades e sucessos, sendo digna e respeitosa o suficiente, para emitir o certificado-epitáfio, definitivo e final. Sim, digo que o melhor filme de Susanna Lira é sempre o próximo.

Pois é, assim como Gonzaguinha, Suzana também não consegue separar o romantismo emocionado da criação mais pragmática. Não dá mesmo “para segurar”, “explode coração”. Este filme também não é “maduro, porque não apodrece em pé”.   “Gonzaguinha – Da Maior Liberdade” é também um filme-protesto e um documento-manifesto político, pelas intermitentes provocações, “mascaradas” com a presença da música, altamente “colérica” e inflamável, desde a “infância terrivelmente feliz”. O artista daqui morreu atravessado numa pista, e até isso  gerou referência-metáfora à música “Construção” de Chico Buarque: “morreu na contramão, atrapalhando o tráfego”. Depois de mais um documentário de Susanna Lira, não temos mais dúvidas de sua inquietude apaixonada por redescobrir histórias de pessoas marcantes, históricas e icônicas de nossa pátria chamada Brasil.

5Nota do Crítico51

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