Nosso Segredo

De afeto e de sombras 

Por Francisco Carbone

Festival de Cinema de Gramado 2026

Nosso Segredo

Sequência inicial. Um motorista de aplicativo carrega um passageiro e trava com ele um diálogo de aparência banal; coisas da vida, do tempo. Ao final, o passageiro questiona: “o que te fez parar na faixa?”. Assim, fora do contexto, essa é uma pergunta ligada exclusivamente ao contexto do trânsito; em “Nosso Segredo”, isso reverbera em Gilson. Ele leva essa pergunta para dentro de si, para junto de Geraldo Azevedo e sua “Caravana” – “corra, não pare, não pense demais, repare essas velas no cais, que a vida é cigana…”. Imediatamente, Grace Passô nos carrega para dentro não apenas de seu filme, mas para a casa onde vivem Gilson e seus irmãos Grazieli e Guto, sua mãe Suely, sua tia Anamélia e o caçula, Tutu. Esse é o microcosmo da dor da ausência, mas não uma dor urrada como nos melodramas – nada está ali, e por isso mesmo tudo está ali.

“Nosso Segredo” é protagonizado, então, por esses laços de afeto que tentam se fazer sobressair à essa dor tão lancinante que lhe falte o verbo. Não há descrição para o que é sentido, porque tudo está na pele dos personagens e nas pequenas perdas que circundam esse sentido maior. Nesse sentido, não apenas tratar-se de um núcleo mineiro como também de uma família preta, justifique muito do tratado que Passô estabelece em sua estreia como realizadora. A tessitura do que se perde em cena não está apenas no tratado dos fatos, mas no caráter histórico do que se esvaiu. Como a excepcional dramaturga e escritora que é, Passô carrega para suas imagens um tanto da força do texto próprio que lhe serviu de base, e no título original, uma porta já é escancarada: amores surdos. Não são?

Não é como se aquela família não se escutasse, mas o luto pelo qual estão passando os interiorizou tanto que seus integrantes se apartaram em uma dor tão particular. Além disso, essas mesmas dores estão agora refletindo também os fantasmas internos de cada um, que estão se unificando em uma presença física em comum. “Nosso Segredo” não versa sobre o individualismo, mas sobre como a falta de comunicação pode nos traduzir erroneamente, e em como a mesma possa se transformar em matéria do horror – ou do fantástico. Traduzido para a linguagem de um cinema brasileiro que pretende fugir da zona do naturalismo fácil, o filme é um passo na intenção do simbólico.

A condução de Passô é um daqueles casos onde a clareza da proposta estético-narrativa é evidente a ponto de empalidecer os pares. Enquanto o grosso do que é produzido no mundo não se preocupa em elaborar forma e/ou conteúdo, essa é uma estreia em longas que se sobressai porque percebemos esse tráfego de sua autora em um processo autoral, coadunando tudo que ela já fez enquanto artista. Seja como dramaturga, atriz de teatro ou cinema ou pensadora contemporânea, Grace Passô conseguiu conjurar tudo o que fez numa unidade espantosa. ‘“Nosso Segredo” é um retrato sem concessões emocionais a respeito de uma construção histórica de negritude, que precisou ao longo dos séculos fraudar o que sentiu, primeiro pela estrutura escravocrata do mundo, e depois pelo racismo oriundo de sua gênese. Isso se costura de maneira indelével com o que ela quer dizer, e se traduz na maneira como efetivamente diz.

As escolhas de Wilssa Esser, fotógrafa multipremiada (incluindo já aqui), correm na frequência que o filme aponta, como quando desnuda a vida de Guto, ou quando avança pelo segundo andar da casa. São possibilidades de sonho de liberdade, em paralelo a um conceito de enclausuramento fornecido pela escuridão e pelo medo, que acabam por revelar as curvas que assolam essas pessoas ao longo da História que venho antes delas ajudarem a construir. Existe uma pressão criada pela lente que aprisiona aqueles indivíduos em um espaço cada vez mais exíguo, mas que deveria significar conforto: a casa, em “Nosso Segredo”, significa confronto com algo que está submerso. A corporificação de como ser historicamente perseguido é o contraponto de um olhar que está prestes a revelar o que ninguém quer enfrentar.

Nesse grupo de imagens de tensão, um plano explode na tela: Nanego Lira pela na janela do carro de Robert Frank, e essa (quase) única aparição do ator acaba por tornar imagético esse estado de coisas. A partir desse sopro de vida, que se coloca como mais uma dose de ambiguidade do filme (é o seu momento mais solar, mas também é seu foco reconhecível de dor), “Nosso Segredo” calibra tais corpos em seu lugar despadronizado. Como podemos ser o que temos poder de ser, sem confrontamento, sem entender nossa auto imagem como oriunda de uma beleza libertária? Grace Passô não se coloca à mercê de uma resposta tradicional ao reconhecível naturalismo do cinema, e cria portais graduais que ora assumem, ora se escondem do cinema de gênero. Em sua estreia em longas, como já dito, a autora costura um cinema dos questionamentos, como em “República” e “Vaga Carne“, sem deixar de se apossar das certezas do horror ancestral.

Acima de tudo, “Nosso Segredo” convence em sua procurada organicidade. Talvez o elenco seja o principal exemplo dessa afirmação, tendo em vista que não há brilho individual – a proposta é que seus elementos potencializem uns aos outros, e assim o é. Em meio a enxurrada de delicadeza, Passô pretende ler da maneira menos óbvia possível uma família preta contemporânea. Isso significa tratar o afeto de maneira aplacada, mas sem deixar de montar um painel de constante renovação da descoberta. Um filme raríssimo, como não poderia deixar de ser em se tratando de alguém tão focado quanto Grace Passô.

5Nota do Crítico51

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