Ponto Sem Retorno

Quem se importa?

Por Francisco Carbone

Ponto Sem Retorno

os 54 anos, Ridley Scott não precisava mais provar nada para ninguém. Sua carreira como cineasta tinha começado 15 anos antes e ele já tinha no currículo “Os Duelistas”, “Alien, o 8o. Passageiro” e “Blade Runner”; naquele ano, tinha sua primeira (e a mais merecida) indicação ao Oscar, pelo sucesso “Thelma & Louise”. Nove anos depois, veria seu “Gladiador” se tornar uma das maiores bilheterias do ano e vencer o Oscar de melhor filme. Dali pra frente, entre altos e baixos, sua carreira passou a trilhar caminhos cada vez menos festejados; dos últimos 18 em 25 anos, apenas 4 (“Os Vigaristas”, “O Gangster”, “Perdido em Marte” e “O Último Duelo”) soam como grandes filmes. Os outros 14 variam entre o ‘desnecessário’ e o ‘meu Deus, como permitiram?’, e esse fim de semana estreia mais um dos títulos menos louváveis dele, “Ponto Sem Retorno”; me pego pensando, na verdade, se esse não é dos seus 5 piores filmes.

Falta propósito a tudo que vemos ser desenvolvido aqui em “Ponto Sem Retorno”, até porque temos a clara impressão de que nada, absolutamente nada, do que é mostrado, seja imageticamente ou narrativamente falando, tem relevância, alguma novidade ou um gatilho sequer para que o filme se consolide como uma experiência não-vazia. A mensagem é clara e visa comunicar-se com os tempos de pandemia que acabamos de viver, colocando nosso estado da época em uma situação aguda extrema, onde a humanidade não apenas foi quase exterminada por uma mutação viral, como deixou um rastro de violência entre sobreviventes e bárbaros. Mas os ecos do hoje não apagam a inspiração no cinema de ontem, já que esse é o tipo de ameaça que a arte antecipa há décadas. Logo, um filme qualquer (literalmente) não daria conta do tamanho de horror que vivemos na pele.

O filme é uma adaptação de um romance best-seller, em um daqueles momentos onde provavelmente a obra original provavelmente apresente consistência real diante do que foi traduzido dela. O cinema estadunidense pouco realiza o que se mostra possível em “Ponto Sem Retorno”, que é o descarte de sequências; no filme de Scott, no entanto, essa impressão está clara. Porque a montagem da premiada Claire Simpson não consegue dar forma ao que estamos assistindo; onde estão bem costuradas as sequências que se apresentam? Nada é uma decisão acertada, e as cenas se empilham sem contexto, apenas se avolumam sem criar elo de conexão entre o que foi visto antes, ou depois. A aleatoriedade incomoda a partir de determinado momento, já que isso nos afasta de personagens do qual deveríamos criar empatia.

Em um filme essencialmente sobre labuta, onde o que é laboral toma conta de boa parte do tempo, “Ponto Sem Retorno” não define também o que seriam diretrizes de sua condução. Ao dedicar-se a esse aspecto de realizar ação para produzir efeito de temporalidade que justifique personagens e cenário, o filme abdica (o que não teria qualquer problema, pelo contrário) de um contato humanizado com o que descreve. Mas o filme não consegue estabelecer uma relação entre o que pretende mostrar e a forma que isso é apresentado; em resumo, esse é um filme da 20th Century (ex-Fox) que não define sua abordagem, e quando eu cito a distribuidora, é porque o filme não consegue fechar sua precisão.

Algumas ideias de realização trafegam entre a diversão pop e alguma discussão menos óbvia, que proponha um estudo estético-narrativo aprofundado. “Ponto Sem Retorno” em nenhum momento entende os lugares que pode ocupar e com isso sua aproximação fica prejudicada. Temos uma abordagem rasa demais para se ocupar de um olhar humanista sobre o que é filmado ou sua forma, e para o espectador de shopping sobra uma chegada menos imediata, o que trunca seus resultados. Não há coerência entre o que esse filme poderia ser, caso fosse dirigido por alguém empenhado, e o que efetivamente ele tem capacidade para ser.

Outro aspecto que impressiona, ao longo da projeção de “Ponto Sem Retorno”, é a ausência de carisma do produto. Nada ali tem a importância que deveria, porque não nos importamos com nada ou com ninguém em cena. O personagem de Josh Brolin, por exemplo, sua jornada poderia ter o fim que tivesse, porque nada ali é muito saboroso para acompanhar ou tornar-se relevante; no fim das contas, tal fim é destinado a ele, e se fosse ao contrário, não faria qualquer diferença. Assim como o romance que surge para Jacob Elordi em determinado momento; quem se importa com aquilo? Personagens sem vida, desprovidos de substância ou que apresentem alguma curva ascendente (ou decrescente) em cena – nada muda, e a sequência final, sem clímax ou timing, nos deixa com a sensação máxima que o filme conseguiu provocar. Vazio, tédio, desconforto, e a certeza do tempo perdido.

1Nota do Crítico51

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