Luta Pela Liberdade

À beira do abismo

Por João Lanari Bo

Luta Pela Liberdade

Luta Pela Liberdade”, longa de 2021 de Zhang Yimou, é mais um título em que a versão do distribuidor brasileiro procurou extrair um significado extra do original – que seria “sobre o abismo”. Em inglês, ficou como “Cliff Walkers”, andarilhos do abismo. A história gira em torno de quatro agentes secretos do Partido Comunista em ação no estado-fantoche de Manchukuo, no nordeste da China, região conhecida como Manchúria, durante os anos de 1930. Traições sobre traições povoam a trama, a equipe se vê rodeada de ameaças de todos os lados.

É um filme de ação, cheio de reviravoltas que por vezes desorientam o espectador, em cima de um microcosmo pouco visitado nas narrativas sobre a Segunda Guerra Mundial. Embora os personagens sejam fictícios, o background é real – e sinistro.

Criado pelo Japão em 1931, Manchukuo um projeto de dominação do Japão Imperial que durou até 1945. Para dar ao estado uma aparência de legitimidade, o Japão instalou Puyi, o último imperador da dinastia Qing da China, como governante nominal, sem poder. Os japoneses controlavam o governo, e chineses “colaboracionistas” exerciam funções do dia a dia, inclusive policiais. Foi uma ditadura militar fascista, montada para explorar os vastos recursos naturais da região para alimentar a crescente máquina de guerra do Japão.

Nesse contexto, milhões de residentes chineses, coreanos e mongóis enfrentaram trabalho forçado, censura extrema, prisões arbitrárias e vigilância rigorosa. E a parte mais macabra: operando sob o nome de fachada de “Departamento de Prevenção de Epidemias e Abastecimento de Água do Exército de Kwantung”, foi estabelecida perto da cidade de Harbin a temível Unidade 731, instalação secreta de pesquisa biológica e química, comandada pelo General Shirō Ishii, médico militar fanático – conhecido como “Mengele do Oriente”.

A missão dos agentes chineses era garantir a fuga de um cidadão retido para servir de experimento do Sr. Ishii, de modo a divulgar ao mundo as atrocidades cometidas. Uma breve consulta à Wikipedia lista alguma delas:

– Vivissecções: Abrir pacientes vivos e conscientes para estudar a progressão bruta da doença.

– Injeção de Doenças: Infectar intencionalmente indivíduos com patógenos letais como antraz, cólera e peste bubônica.

– Teste de Armas: Amarrar vítimas a estacas para testar o raio de explosão e bombas de gás químico.

– Exposição Ambiental: Congelar intencionalmente membros de prisioneiros para estudar os limites do tratamento de congelamento.

Luta Pela Liberdade” se passa no inverno de 1934-35, quando os dois casais de agentes são enviados de paraquedas para resgatar a testemunha Wang Ziyang, que conseguiu escapar do campo de concentração Beiyinhe. O propósito da missão só surge por volta da meia hora de filme; até então, e em grande parte depois disso, o roteiro está mais interessado na logística da traição, enquanto o grupo de agentes viaja para Harbin, sem saber que sua missão já foi traída.

O grupo – quatro agentes, dois casais – se separa e passam a encarar as mais diversas e complexas dificuldades. Nem sempre fica claro exatamente o que está acontecendo, mas – talvez esse o mérito do filme –, o que sobressai na narrativa é a atmosfera opaca e absolutamente imprevisível de combate surdo em que chineses e japoneses operavam.

Os filmes convencionais do gênero espionagem lidam, como é sabido, com operações encobertas, identidades falsas, segredos de Estado e jogos de poder geopolítico, onde o protagonista transita entre perigos, blefes e investigações discretas para desarmar uma ameaça oculta. A construção dos personagens e o desenvolvimento da história seguem premissas lógicas que permitem ao espectador a apreensão do que se passa, seja como “true event”, seja como farsa. “Luta pela liberdade” procura de certa maneira embaralhar essas premissas, a fim de colocar em primeiro plano a luta histórica pela libertação do jugo imperialista dos japoneses.

A produção bem cuidada de “Luta Pela Liberdade” logrou exalar um clima de nostalgia palpável e intensa, apesar das sombrias maquinações da trama. Para os cinéfilos, a surpresa é o clássico de Chaplin, “Em Busca do Ouro”, exibido em uma sala de cinema que desempenha um papel crucial nos jogos de traição da trama.

O filme de Zhang Yimou foi lançado em 2021 na China, tornando-se a segunda maior bilheteria da carreira de Zhang até então – e a maior bilheteria considerando apenas a receita da China continental.

4Nota do Crítico51

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