Digger

Verdade neles!

Por Fabricio Duque

Digger

Há muito um filme não me bagunça tanto, no melhor sentido da palavra, fazendo que com eu mergulhasse em milhares de camadas alusivas a uma existência totalmente co-dependente de nossa sociedade. E tudo isso por uma cinematográfica fábula circense, que encontra a metalinguagem teatral do absurdo junto com o surrealismo estético do exagero crítico, propositadamente de tom potencializado, para assim talvez criar a lente do aumento do quão ridículo e cafona é o ser humano. Se analisarmos o mundo em que vivemos hoje, com o mínimo de discernimento e racionalidade, podemos perceber que, cada vez que o tempo passa, estamos mais perdidos, mais estrangeiros de nós mesmos, mais submissos aos algoritmos da felicidade, mais descompassados (e zuados) com o que realmente devemos fazer e com o que queremos mostrar a nosso próximo (e atender às demandas do outro. Todo esse preâmbulo é para falar de “Digger”, novo longa-metragem do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu.

“Digger” é acima de tudo uma viagem estranha. Uma experiência sensorial que usa a organicidade do coloquial amador para criar a ficção (só que por um exercício de linguagem, que evoca de forma desconstruída, ao mesmo tempo, “O Show de Truman” com “Birdman”, este último obra do próprio diretor em questão aqui, e toda uma atmosfera de Yorgos Lanthimos com Wes Anderson – mas mesmo assim não parece cópia e sim bem inventivo e único). Sim, tudo ali apresentado tem duplo sentido. Tudo ali quer levantar a sensação do sem sentido sobre a “inesperada virtude da ignorância” do “Blah, Blah, Blah”. Tudo ali quer espelhar a própria realidade pela metafísica satírica. Tudo ali é sobre o poder incondicional, que não encontra resistência nem mesmo na verdade nua e crua e que não interfere em nada nas consequências de discursos assumidos e politicamente incorretos (e extremos).

Este longa-metragem pode até ser considerado mais que um filme. Não por causa da entrega absoluta (desprovida de qualquer vaidade superficial) de um irreconhecível Tom Cruise, que me atrevo a dizer que este é o melhor papel de sua carreira), que encarna um “grotesco” e “patético” Donald Trump (e sua obsessão em dominar a Groenlândia), num que de cenário-estúdio que remete a Versalhes mais desestruturado, tampouco por trazer as máximas da “farsa dos fósseis”, que busca respaldo no científico, mas sim pela potência aprofundada de uma análise bem visceral, catártica e fisiologicamente psicanalista do comportamento dos indivíduos que sofrem uma patológica incapacidade de se comunicarem neste momento do agora.

“Digger” é assim: uma vertigem em forma de uma expansão perceptiva do cérebro que se utiliza de uma narrativa fantástica, numa mise-en-scène de ficção científica, em um tempo suspenso à visão mais à moda entretenimento. Há aqui um humor idiossincrático da vida como ela é, só que bem mais em close, que expõe uma comédia maior, de constrangimento superexpositivo ao caricato e ao excêntrico, propositadamente, como por exemplo uma gata mais “estranha” com olho de vidro e já em “decomposição” (sem esquecer do “termômetro no ânus”. E/ou a linguagem de dominação “Celsius” versus “Fahrenheit” Sim, guarde isso. Como disse, tudo aqui quer apresentar um outro sentido crítico. Às vezes sutil, em outros instantes bem mais explícitos, como os alertas-rachaduras sociais pela “fenda no gelo” (os “danos ambientais” da superaquecimento global), em que esses “líderes” (pela ganância em nível sociopata) que tomam decisões aleatórias e incompetentes até “dar ruim”. “E o petróleo?”.

“Digger” é também uma experiência metalinguagem. É um ensaio sobre uma peça para uma peça em tempo real. Calma! É confuso? Sim. Por isso é tão necessário desvincular a mente de uma resposta mais racional e se deixar sentir, ainda que não conseguimos entender. Por exemplo, uma das críticas aborda a imigração. Os estrangeiros são empregados serviçais. Tudo aqui é uma estrutural fábula-estudo político-social, que “debocha mulheres”, que escancara o machismo e a xenofobia, quase uma “comissão da verdade”, invertida e de dentro. Chega uma hora que perguntamos o que é real? Assim, com esse atravessamento de realidades paralelas, entre reuniões de crises, cultos evangélicos e bastidores intercalados, tudo o que se quer passar é a mensagem do “controle da narrativa” pela “esperança” – “mude a história”, que se você souber, muda tudo. Sim,

“Digger” é absurdo, decadente, cafona, contraditório, congelado, hipócrita e oportunista demais, porque nos damos conta que o nosso universo ao redor, ao ser personificado, é quase impossível de aceitar, num que de “Cidadão Kane” (com look texano), entre um cartaz de “Noite de Estreia” (1977), de John Cassavetes. Para continuar, eles dramatizam as “nações conquistadas”, mas se desconcertam na não definição no caos criativo do ato final e seus ângulos. Sim, “verdade neles”, visto que quem reclama “viaja” e usa “Iphone”. As mentiras, incompatíveis, são enraizadas até virarem normais e “continuarem macetando”. Sim, então, qual é a verdade? Será que a catástrofe é o próprio ser humano? E que todo essa fantasia pós-apocalíptica (de comoção à revolta) faz a principal pergunta: “Será a vida sem sentido, mas que acontece?”. É, parece que cada dia nesta nova vida é um ensaio e o ensinamento vem deste filme: “Amanhã a gente faz certo”.

PS: para finalizar, preciso falar sobre a qualidade da cabine de imprensa no Imax do UCI do New York City Center na Barra da Tijuca. Se a péssima exibição, totalmente desfocada, parecendo que faltava os óculos 3D, que já vem apresentando isso desde “A Odisseia”, não atrapalhou a imersão, imagine assistir em uma sala com uma projeção decente e que respeita o público?

5Nota do Crítico51

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