Assalto à Brasileira
Na tela da tv, no meio desse povo
Por Francisco Carbone
Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2025
Talvez José Eduardo Belmonte seja realmente o mais prolífico cineasta brasileiro da atualidade. O que carrega seu diferencial, é não apenas sua capacidade de estar sempre com algum (ou alguns) novos projetos prontos e/ou engatilhados, como também o fato de que seus filmes não se repetem, narrativa ou estilisticamente. Vejamos suas três últimas estreias: “Quase Deserto”, um thriller sobre três personagens envolvidos com a imigração; “Aurora”, terror recheado de estrelas confinadas em uma casa que está sendo atacada pelo desconhecido; e a estreia dessa semana, “Assalto à Brasileira”, um filme de golpe baseado em história real que consegue fazer dar certo muito mais do que poderíamos fazer.
Dentre todas as coisas ainda não feitas pelo cineasta, o ‘filme de assalto’ é mais um atestado da versatilidade de um diretor que, sim, não acerta todas as vezes, mas que quando o faz (como aqui), os resultados surpreendem cada vez mais. Em “Assalto à Brasileira”, as camadas de recheio da narrativa incluem um número tão variado de possibilidades, que em determinado momento ficamos na expectativa de uma grande catástrofe seguir o rumo dos acontecimentos. O resultado, no entanto, é um filme coeso com o que está tratando, e em como na maior parte do tempo, as transições de um gênero para outro soem como naturais. Estamos falando de uma produção que, além dos eventos reais, ainda agrega comédia ao combinado e as tintas políticas abertas para falar de um país à beira de um colapso em 1987.
Nesse exato ano, um grupo desesperado invade um banco em Londrina, no Paraná, e anuncia um assalto. Dentro dessa mesma agência, um jornalista estava para receber a rescisão de uma demissão que acabara de acontecer. Da mistura dessas duas linhas de roteiro nasce a história assinada por L. G. Bayão, profissional que, assim como Belmonte, trabalha ininterruptamente; diferente do diretor, a frequência de acertos do roteirista não é tão frequente, mas dele saíram alguns belos acertos, como “Aumenta que é Rock’n’Roll“, “4×100” e “Ponte Aérea”. Aqui, em “Assalto à Brasileira”, Bayão consegue desenhar um número elevado de personagens e torná-los críveis através de uma integração feliz com a direção de elenco e também a Belmonte.
Contando com um grupo que é facilmente o melhor da safra de 2026, o trabalho de Luciano Baldan no casting precisa de atenção. “Assalto à Brasileira” conta com muitos nomes conhecidos no elenco, tais como Murilo Benício, Paulo Miklos, Christian Malheiros, Augusto Madeira, Robson Nunes, Fernanda de Freitas, Débora Duboc, mas o grupo coletivo engloba mais de 30 créditos, e todos eles de alguma forma se destacam. Tô falando de profissionais como Maíra Kodama e Fernando Mais, que estão no grupo de reféns e mostram a que veio porque o roteiro fornece elementos para que eles saiam do lugar, e também porque eles mesmos estavam atrás de uma chance que os fizesse jus. A coordenação é necessária para que tudo soa orgânico, e é Belmonte quem carrega essa missão com resultado espetacular.
O trabalho de Bernardo Pimenta na edição é o complemento ideal ao todo, porque fecha o grupo de atenção que um filme como esse é exigido. Responsável por um dos filmes brasileiros mais subestimados da década passada (“Entre Abelhas“), aqui Pimenta tem suas capacidades amplificadas. Se funciona no geral o que é apresentado, o filme ganharia ainda mais predicados se abdicasse do teor de ideias grandiloquentes quando o personagem Moreno precisa declamar, e o filme talvez curve um pouco mais na direção da relevância. Tirando momentos focais, “Assalto à Brasileira”, em grupo, consegue conjurar thriller, comédia, política, algum drama e força estética, em homenagens a Brian DePalma e Alan J. Pakula.
Belmonte vem se colocando não apenas à disposição de um cinema mais direto, mas de não perder sua essência de confronto, ainda que diante das métricas de um mercado que pretende rotular seus autores. O diretor que surgiu submerso em experimentações na capital do país, reescreve sua filmografia, filme a filme, tirando do espectador as certezas que poderia encontrar sobre si. No lugar, monta, entre outras coisas, um painel histórico sobre um Brasil que não desapareceu; que ainda não vê lugar para suas minorias, nem percebe que costura retrocessos. A dinâmica de Belmonte não é exclusivamente sociológico, mas altamente cinematográfica; reside no seu olhar o respeito pelo que foi criado nos anos 60 e 70, em obras como “Z” e “Um Dia de Cão”.
Filmando bem tanto a solidão de seus protagonistas, ilhados em necessidades que extrapolam o campo, quanto os coletivos de atores que se amalgamam de maneira tão orgânica, Belmonte não nos permite respiro. Ora ele está fixado nas decisões de Benício, em como esse ator se movimenta, em como interagir com as muitas impossibilidades que se amontoam, ora “Assalto à Brasileira” invade seu ‘coro’ para ouvir o que não deveríamos. O noivado de um refém, o desejo por um certo tipo de justiça da turba animada, o depoimento de uma mulher libertada ao final, uma fuga que se confunde com a escuridão da noite – um sem número de capturas do tempo em que o espectador pode encontrar seres humanos no meio dos fatos com F maiúsculo. Porque, entende bem Belmonte, serão os humanos que escreverão os eventos, e não vice-versa.




