Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira

A busca de uma mancha

Por Fabricio Duque

Assistido presencialmente durante o Festival do Rio 2026

Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira

Dois diretores. Ainda que casados e colaboradores entre si em praticamente todos os trabalhos que fizeram, cada um construiu uma forma de fazer cinema totalmente diferente do outro. Um, Gustavo Galvão, nascido em Brasília, aborda um cinema mais visceral, violento, orgânico e catártico na explosão, até meio cru, à moda de Charles Bukowski, por exemplo. A outra, Cristiane Oliveira, nascida em Porto Alegre, cria uma narrativa de existencialismo mais intimista, mais sutil no aprofundamento dos dramas familiares, desenvolvendo o objetivo da mensagem pela observação mais naturalista das relações humanas, enquanto seres pertencentes, transeuntes e de números populacionais. Mas os dois sempre tiveram algo em comum: o de provocar questionamentos e incômodos sobre os temas político-universo-individuais que vivemos no coletivo nosso de cada dia. E agora, esses realizadores brasileiros juntaram forças, olhares e propósitos para apresentar, juntos, na direção e no roteiro original, o novo longa-metragem “Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira”, na mostra competitiva da Première Brasil do Festival do Rio 2026, e que inclusive venceu como Melhor Montagem, que Cristiane editou ao lado de Tula Anagnostopoulos.

“Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira” é acima de tudo uma experiência metafísica de imersão emocional por pensamentos (na maioria em espanhol), que ganham exposição ao serem verbalizados e “atropelados”, entre medos, fusões e casas alugadas por temporadas, ora abstratas, ora oxigenadas. Não a clichê que cria o mais básico do sentimental, não. A escolha busca a narrativa em fluxo, narrado, subjetivo, de dependência da próxima fala, livre na evocação da memória afetiva e quase todo por fragmentos cotidianos em detalhes de um arquivo pessoal, em que tudo é contado e reconstituído por imagens, muitas etéreas e de poesia que suspende o tempo para contemplar o instante da história. Por duas atrizes, Verónica Perrotta e Maria Galant. Essa narração nos contextualiza todo um passado ambientado em palavras, tom de voz e reações entre o sôfrego, o dramático e o humor ácido em doses espirituosas. Aos poucos, o que recebemos, de um terapêutico estudo de caso pessoal, nos faz perceber que é esse conto representa a verdade de uma pessoa. Que sofreu um dos momentos mais cruéis da História: a ditadura “apropriadora” e a Operação Condor, esta que sequestrava crianças de pais “comunistas” e os “doava” a outras famílias.

O longa-metragem também aconteceu praticamente no timing perfeito: durante as eleições de primeiro turno no Brasil, numa sociedade totalmente polarizada entre esquerda, direita e extrema direita, em ânimos totalmente inflamados. “Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira” quer trazer à tona questões ainda muito presentes e traumáticas de um passado não muito distante, que, hoje, vive sob o fantasma do retorno de um fascismo e da internalização dos preconceitos comportamentais dos “diferentes”. “O que é um pouco de tinta para paredes manchadas de sangue”. É também um filme de processo. De arquitetar quase-encontros. De conversas sem conversas. De silêncios. De constrangimentos. De ensaio sobre a própria política do ser enquanto indivíduo, que foi levada a “uma vida sem espaço para perguntas”. A uma existência sem possibilidade de questionamentos. Aqui, nós somos conduzidos por idiossincrasias, percepções sensoriais, opiniões de construção de ideologias e/ou de crítica consciência sobre o estar classista, egoísta, elitista, racista e todos os istas complementares.

Como disse, “Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira” acontece na suspensão do tempo, assim o que assistimos representa a pausa. O entre. Onde reside a essência do tema em discussão. Tudo aqui também pode ser visto como uma grande metáfora. Uma busca de acerto de contas com o passado. De encontrar a verdade para substituir o vazio e a falta que impede a reconstrução do próprio futuro. De uma mãe “perdida”. De um Uruguai utópico que precisa ser real. De um “país” que não cuida, mas “estupra”. Este é um filme em que as personagens e os ambientes vivem em fronteiras, talvez outra alusão aos cinemas de Cristiane e Gustavo. Sempre nas linhas pertencentes dos atravessamentos dos quase-encontros. Há uma margem, mais direta em um e mais estética em outra. Mas os dois aceitam o desafio de “naturalizar essas divisões”, sendo psicodélico, experimental, argumentativo nas contradições e altamente subversivo nas sementes plantadas. Este também é um filme de terror social. Um vida forjada no horror de ações criminosas. Que da violência junta os pedaços de um “eu”, que por sua vez é a voz de tantos outros “eus” ainda sem respostas e verdades.

Assim, esse diário-desabafo “Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira” é a solução para encontrar alento contra a farsa de toda uma vida, fora de tempo e espaço. E no final, a esperança de um mundo normal. E de se preocupar apenas com as banalidades e não mais com manchas.

4Nota do Crítico51