Um Fantasma na Batalha
Paroles, Paroles
Por João Lanari Bo
Festival de San Sebastian 2025
“Um Fantasma na Batalha”, longa de 2025 dirigido por Agustín Díaz Yanes, é mais um filme a revisitar um passado recente traumático na Espanha – no caso, a trajetória do grupo separatista basco ETA (Euskadi Ta Askatasuna — Pátria Basca e Liberdade) que se estendeu por quase 60 anos, marcando profundamente a história contemporânea da Espanha. Separatista, pelo menos no começo, em 1959, quando surgiu para combater a opressão da ditadura franquista sobre a cultura e o idioma basco. E com forte viés político – o grupo uniu o nacionalismo basco radical com a ideologia marxista-leninista de libertação nacional, inspirados por movimentos revolucionários da época (como a Revolução Cubana e a Guerra da Argélia).
A trama de “Um Fantasma na Batalha” acompanha Amaia (Susana Abaitua), uma jovem agente da Guarda Civil que passa anos infiltrada no ETA (durante as décadas de 1990 e 2000) no sul da França, para ajudar a localizar esconderijos e desarticular a organização. Nessa altura, o ETA havia se tornado um grupo francamente terrorista – se o objetivo inicial era criar um Estado basco independente e socialista, abrangendo territórios na Espanha e no sul da França, o saldo final foi devastador, mais de 800 assassinatos, incontáveis feridos e dezenas de milhares de pessoas ameaçadas ou extorquidas. Isso entre 1968, data do primeiro atentado mortal, até 2011, quando o ETA anunciou o cessar-fogo definitivo e o fim de sua atividade armada.
Um dos méritos do filme é entrelaçar com habilidade realidade e a ficção. O objetivo não é tanto ilustrar fatos — embora isso também ocorra —, mas sim fazer com que os dilemas morais da protagonista sejam percebidos da forma mais direta possível pelo espectador. Contribui para essa percepção um tratamento seco e quase burocrático dos acontecimentos e seus desdobramentos – Amaia atuava sobretudo como motorista e portadora de mensagens, tarefas que implicavam em constante despistamentos, troca de carros, pouco ou nenhum contato com os demais membros, em suma isolamento, físico e psicológico.
O ETA, naturalmente, sabia que a polícia tentava infiltrar agentes, por isso criava dinâmicas sufocantes para testar os novatos. Umas das poucas cenas de “Um Fantasma na Batalha” onde a violência emerge acontece quando Amaia é colocada em uma missão para testar sua lealdade (envolvendo um ataque a um suposto policial). Se o infiltrado hesitasse ou tentasse alertar as autoridades, sua identidade seria revelada. Pouco a pouco, Amaia conquista a confiança de Begoña, personagem magnificamente interpretada por Iraia Elias, que lhe abrirá as portas para o âmago da organização.
Tudo muda em um dia de janeiro de 1995, quando Gregorio Ordóñez é assassinado. Ordóñez tinha 36 anos, era deputado do Parlamento Basco e vice-prefeito de San Sebastián pelo Partido Popular (PP). Ele foi baleado na cabeça por um terrorista encapuzado enquanto almoçava com colegas no restaurante La Cepa, na parte antiga da cidade. Amaia se conscientiza de sua participação no crime, e hesita. A vida dupla que leva cobra seu preço, ela de alguma maneira consegue se afastar de ambos, Polícia e ETA.
Com o tempo, retorna à linha de frente. Uma virada difícil, do ponto de vista do roteiro, mas convincente. A personagem Amaia, explica o diretor, é fictícia, mas fortemente inspirada em situações reais. É um amálgama de experiências psicológicas, afastamentos sociais e dúvidas morais de várias mulheres e homens que operaram sob identidades falsas naquele contexto. O filme não é uma biografia literal de uma única pessoa, mas sim um mosaico de fatos reais. Fatos que permanecem em segundo plano, na memória trágica coletiva. Os dois ritmos – a solidão profunda de Amaia, expressa no seu olhar, e a devastação à sua volta – dão o tom da narrativa, a um tempo internalizada e externalizada.
E assim foi, até que a Guarda Civil espanhola conseguiu desmantelar os esconderijos do grupo na “Operação Santuário”, em 2004 — um evento que, segundo consenso geral, marcou o início do fim do ETA. Essa foi a maior operação conjunta entre a Espanha e a França na história do combate ao grupo separatista, e culminou com a localização e desmantelamento dos chamados “zulos” — esconderijos secretos subterrâneos onde o ETA armazenava toneladas de armas e explosivos no sul da França.
Um dos códigos para a polícia comunicar-se com Amaia era a canção “Paroles, Paroles” – Dalida e Alain Delon como recurso de sobrevivência, o último toque de realidade de “Um Fantasma na Batalha”.




