A Longa Estrada
Tentativa de sobreviver
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026
Todas as saídas apontam para a aposentadoria de Carol Jane, vulgo CJ. Ela é caminhoneira há mais de 30 anos, e sente que sua geração é abandonada por profissionais mais novos, pela morte ao seu redor, por um novo jeito de fazer as coisas que ela tanto aprendeu – e ensinou. Os tempos mudaram, e “A Longa Estrada” acompanha essa veterana se encontrando com novas programações de ideias, sem qualquer paciência para o futuro e sendo pressionada a tomar decisões em relação ao presente. Aos poucos, esse estudo de personagem nos apresenta as idiossincrasias de uma personagem no limite da exaustão, embalada por anos de estagnação.
“A Longa Estrada” é a singela e rápida estreia na direção de David Drake, um cineasta jovem que parece entender mais da passagem dos anos, da sensação incômoda de perda da novidade coletiva, de uma vontade intrínseca de descobrir um mundo que não existe mais. CJ está a bordo de um outro tempo, mas os sinais já se mostraram para a percepção de que o amanhã se aproximou o suficiente para mostrar que é preciso ressignificar os laços e transformar a realidade. O passo precisa ser dado para o futuro, mas… onde está esse tal de futuro? A sensibilidade do diretor está interessada em desvendar essa mulher e as camadas escondidas.
Sabendo do que está por trás dos sentimentos reinantes na personagem, Drake resolve filtrar tudo isso para os outros elementos da produção, e acerta quando decide não pesar a mão nas imagens. “A Longa Estrada” é um filme, apesar de tudo, repleto de vida e de uma tentativa rara de transformação. É como se a energia da personagem não conseguisse ultrapassar uma barreira, e a produção mantivesse ainda uma textura solar para abrigar as nuvens que a protagonista abraça. Também é importante que o filme não deixe se submeter pelos arroubos de CJ, sempre disposta a manter sua rotina, ainda que todos os sinais mostrem que é chegado o momento de fazer algo por si.
Um filme onde a melancolia quase é um personagem concreto, “A Longa Estrada” não promete algo que não pode cumprir. O que está em cena é a concepção de um tempo passado confrontado com uma mudança que se percebe necessária, e isso se faz presente através da lembrança de um pior momento. É o passado que não queremos escutar se fazendo presente da maneira mais incisiva; um crime cuja justiça foi feita, cuja dor não pode ser cessada. CJ é irascível, e aos poucos a proximidade desse passado que está prestes a saltar em seu colo extrai de sua personalidade os motivos pelo qual se tornou essa mulher difícil e amargurada.
O trabalho de Margo Martindale é essencial para que nos coloquemos no espaço que ela ocupa, nos sentimentos que transbordam de seu corpo e olho, que movem a projeção rumo a uma gama de sensações que transbordam até o espectador. A atriz, conhecida por grandes interpretações em “Menina de Ouro” e “Álbum de Família” nunca teve a oportunidade de capitanear uma produção antes; Drake mostra que isso foi um erro crasso. Sua performance em “A Longa Estrada” seria facilmente reconhecível para premiações caso o filme tivesse um escopo maior, mas não estar no centro das atenções de Hollywood não tira dela seus méritos por nos carregar para dentro de um universo vasto de ausências.
Rodeada ainda por um elenco excelente (Cole Sprouse e Stephen Root estão especiais, e é incrível rever a Yalitza Aparício de “Roma“), Martindale transforma o que poderia ser um espetáculo mais triste do que deveria em uma tentativa de sobrevivência explícita. “A Longa Estrada” carrega essa dualidade entre o desejo de permanecer imóvel e um suave pedido por entusiasmo que é visto pelas frestas da narrativa. No clímax, quando CJ finalmente despeja todos os sentimentos em relação ao namorado de sua falecida filha, entendemos porque ela demorou tanto para continuar com a existência. Nem sempre é fácil reerguer-se do luto, mas sempre é possível observar a força de revoada de pássaros.




