Homem ao Mar
Cada vez mais submerso
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026; Festival de Veneza 2026
Gael Garcia Bernal é conhecido no mundo todo desde “Amores Brutos“, quando sua imagem como o jovem criador de cachorros para rinhas correu por todos os lados após a indicação ao Oscar do filme. De lá pra cá, ele virou uma estrela global, ganhou prêmios por muitos trabalhos, e acabou enveredando para a direção cinematográfica em algum momento. Esse ano, seu novo filme é mais leve do que poderíamos imaginar, e essa é uma das questões que ajudam a “Homem ao Mar” não ser visto com seriedade. Outros motivos também contribuem para isso, mas se tem algo que não podemos falar é que Bernal não tem coragem; o que talvez lhe falte, como a tantos profissionais de estrelato imenso, é de amigos que apontem quando o caminho vacilar.
A saída é interessante. Temos um homem rico e poderoso salvo de um afogamento por um profissional salva-vidas, que em retribuição o nomeia braço direito em suas empresas. O jovem se apaixona pela filha do padrinho, eles se casam e formam uma família, mas a felicidade não vem. Porque, como costuma ser na moral desse tipo de história, pessoas poderosas se interessam pelo oposto delas apenas por uma fração de segundo, para rapidamente colocá-las em seu devido lugar. Com uma trama que poderia estar em qualquer telenovela, o pulo do gato (ou o filme acha que é), é “Homem ao Mar” reconhecer isso tão fortemente que possua ele mesmo sua própria telenovela, “A Liberdade” – que, pasmem, conta a história da vida de Luís Inácio Lula da Silva!
Mas o filme não consegue fugir da burocracia, tanto na construção de seu roteiro quanto na criação imagética. E acabamos por ter uma espécie de hibridismo que não contempla ninguém, um filme que não se sustenta enquanto parábola séria ou como deboche aberto, e que tenta homenagear as novelas tornando-se uma. São muitos desdobramentos que surgem pelo caminho e não conseguem sustentar as ideias iniciais. O exemplo mais claro é o surgimento de um homem que invade a casa do protagonista todas as noites e se relaciona com uma das personagens, mas o tipo é apenas um elemento avulso que não conversa com mais nada em cena. Infelizmente essa não é uma característica unitária de “Homem ao Mar”, já que são muitas pontas que não se conectam com nada, e só arregimentam tempo de duração ao filme.
Bernal não parece ter conseguido empregar suas capacidades em tantas funções diferentes, principalmente na formatação de um roteiro que ao mesmo tempo é bastante ambicioso pelas múltiplas possibilidades narrativas, mas também mostra que uma quantidade acima da média de situações não se justificam, ou se assemelham a situações perdidas, cuja exclusão seria o melhor caminho. Ao invés disso, “Homem ao Mar” se camufla de muitos clichês acumulados, que não movem a produção para lugar algum. Pelo contrário, tais situações mostram como não conduzir um filme se não for para dar atenção absoluta para o que você conduz.
O elenco de “Homem ao Mar” é confuso, mas não dá pra culpabilizar ninguém pelas coisas que não dão certo aqui – a não ser o protagonista, afinal ele também é o diretor e roteirista. De qualquer maneira, é a função que Bernal ocupa melhor no filme, parecendo bem à vontade dentro desse personagem perdido. Esmeralda Pimentel, que faz sua esposa, precisa acreditar em um tipo tomado de rompantes e muito infantilizado em seus desejos. Jorge Salinas é o sogro cuja personalidade muda por completo, o que obriga o ator a andar em corda bamba. As participações de Débora Nascimento e Ricky Martin (!!!) não dizem a que veio, um pedaço de acessório que o filme não sustenta.
Diante de um quadro muito desastrado, onde cachorros, bebês e amantes são abandonados pelo roteiro e não precisam justificar seus sumiços. Óbvio, o que fica na superfície é um filme onde quase nada funciona, o que em linhas gerais também tem a ver com Bernal. Ele é o principal vetor de seus problemas, pela falta de compreensão geral da produção, mas também transborda carisma onde a cena pede. É uma pena que “Homem ao Mar” não corresponda ao que o próprio desejo do autor pretendia mover.




