Junk
Little Death
Por João Lanari Bo
Festival de Sundance 2024
Não é todo dia que um filme é massacrado no Festival de Sundance, em 2024, e consegue retornar ao mercado, no streaming. É o caso de “Junk”, dirigido por Jack Begert e produzido pelo visionário Darren Aronofsky: em Sundance passou com o título “Little Death”, e boa parte do filme utilizava intensamente animações geradas por IA. Isso gerou uma forte onda de rejeição entre críticos e o público do festival, que criticaram duramente o longa pelo uso da tecnologia. Begert passou dois anos remontando e filmando, chegando a um resultado que pode ser caracterizado como tecnologia reversa.
Em uma época onde a expectativa do impacto da IA no cinema é atordoante, para dizer o mínimo, o caso de “Junk” desperta interesse. Na versão original a primeira metade focava em Martin (David Schwimmer), um roteirista viciado em remédios. Suas crises de ansiedade e sequências de sonhos psicodélicos eram retratadas por animações totalmente geradas por IA. Na edição final, toda essa animação em IA foi deletada e refeita do zero utilizando técnicas tradicionais de efeitos visuais (VFX) e animação em stop-motion.
Como o filme é dividido em duas partes distintas — a primeira focada no roteirista de meia-idade, Martin (David Schwimmer) e a segunda focada em dois jovens viciados (Dominic Fike e Talia Ryder) correndo atrás de uma mochila verde— a reedição buscou amarrar melhor a transição abrupta entre essas duas realidades. O filme ficou dez minutos mais curto e mudou de nome, de “Little Death” para “Junk”, sendo lançado pelo MUBI em outubro de 2026.
O termo “Little Death” fazia alusão à expressão francesa la petite mort (uma metáfora para o orgasmo e também para crises existenciais rápidas). Já o título novo, “Junk” (Lixo), se conecta diretamente com a trama focada em dependência química e na odisseia caótica dos personagens em busca de pertences perdidos por Los Angeles.
Trata-se, enfim, do registro de um cineasta, Jack Begert, lutando com recursos de expressão audiovisual, recuando do uso abusivo de IA e retornando a um instrumental, digamos, mais analógico. Na primeira cena, em um restaurante sofisticado de Los Angeles, quatro pessoas, dois casais, entregam-se ao ritual de praxe: discutir os roteiros em que estão trabalhando. Martin, criador de uma sitcom de sucesso comercial, quer dirigir seu primeiro longa, autoral e independente. O que seria um clássico exercício de egocentrismo típico da indústria – enfatizado por um enquadramento fechado no rosto suado de Martin, enquanto ele tenta, de maneira desajeitada, sustentar uma farsa – torna-se uma fonte de angústia para o roteirista, aguçada por uma crise de relacionamento com Jess (Jena Malone) e o hábito crescente de tomar barbitúricos receitados pelo seu psiquiatra.
Schwimmer é ultra conhecido por interpretar um personagem de sitcom, e, de forma cômica, exasperado – foi assim nas longas temporadas de “Friends”. No filme, ele também faz uma narração off de tom moralista, criticando sobre como os “jovens da Geração Z, atordoados pelas drogas”, “não têm nenhum respeito pelo aspecto comunitário do cinema”. Seu universo é radicalmente distinto do ambiente onde circulam AJ (Dominic Fike) e Karla (Talia Ryder) são histórias paralelas ambientadas em Los Angeles, reunir mundos e personagens bastante distintos.
Um único elo os aproxima: um cachorrinho chihuahua. AJ e Karla formam um par inusitado (Karla é a irmã mais nova da ex-namorada de AJ) e realizam trabalhos arriscados para conseguir dinheiro para sustentar o vício. Ao atuarem como motoristas de fuga em um assalto a uma residência, acabam sendo passados para trás pelos criminosos: são roubados, perdendo seus celulares, pertences e até o carro. Os ladrões levam a mochila verde de AJ, que estava no carro de Karla.
Dentro dela, está o projeto de DJ, de abrir um autêntico food truck de tacos em de Nova York. Dominic Fike faz um papel um tanto semelhante ao que desempenhou em “Euphoria”, série da HBO. Talia Ryder dá vida a uma personagem em deriva permanente, afetada por um resto de ternura adolescente. Nessa dinâmica, os diálogos dos dois soam autênticos.
Jack Begert, profícuo realizador de vídeo clips, logrou um feito, finalizar um projeto difícil – um híbrido de narrativas em princípio incompatíveis – após ser escanteado pela crítica pelo excesso de IA. O processo de produção da reformulação estética acaba sendo ele mesmo parte integrante do produto final – um exercício de metalinguagem, simbolizado pelo roteirista agoniado brigando com os produtores.




