Mulher Desconhecida

Erros impossíveis 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026; Festival de Veneza 2026

Mulher Desconhecida

Existem tempos onde o medo se alastra de maneira tão descontrolada por nós e pela sociedade, que qualquer caça às bruxas nascerá primeiro da colocação do indivíduo. “Mulher Desconhecida” venceu o Leão de Ouro do Festival de Veneza 2026 deste ano após uma quantidade de polêmicas que precisa ser sanada na própria constituição do evento, já que nos últimos três anos tem enfrentado mais do que o necessário para corresponder a visibilidade que se tem. Com esse vencedor, primeiro atacado e depois celebrado, o festival parece voltar aos anos meritórios, mas que também enxerga no mundo atual um vetor de debate sociológico e que isso não deve ser apartado da discussão cinematográfica.

Dirigido por May El-Toukhy (do injustamente celebrado “Rainha de Copas“), “Mulher Desconhecida” não se furta em ser porta-voz de uma bandeira temática só, sem jamais realizar algo de proselitismo em seu discurso. A partir de seu título, já entendemos que um deles será de caráter de gênero, mas que o cinema de gênero também se infiltra entre os códigos da produção, já que estamos falando do período paranóico do pós-Segunda Guerra Mundial (mas cujo recorte contemporâneo cabe à perfeição). A partir desse olhar sem paternalismo a respeito dos erros que jamais serão esquecidos – e que eventualmente voltam a bater na nossa porta – o filme lê as regras de um jogo onde só existem perdedores com afinco certeiro em sua protagonista, Marie.

Sobrevivente dos horrores da Segunda Guerra Mundial, não é procurado pelo filme o que Marie fez em seu passado, mas ela é assombrada por ele. E a narrativa deixa cada vez mais claro que existe uma culpabilidade que lhe será atribuída caso tais eventos venham à tona. A construção dessa personagem é então feita a partir da imagem refletida nesse passado ‘condenável’ no seu presente em vias de tornar-se respeitável. “Mulher Desconhecida” abusa com elegância desse mergulho em uma via crúcis que nem se imaginava mais possível, e com isso descortina uma série de horrores que são feitos pelos indivíduos visando sair ilesos do pesadelo.

A construção da tensão em “Mulher Desconhecida” é um dos seus pontos a serem levantados, porque elas saem de um lugar sociológico (que o cinema envereda com frequência cada vez mais maior, vejam duas Palmas de Ouro recentes, “Triângulo da Tristeza” e a última, “Fjord”) para apontar referências imagéticas. Por exemplo, é difícil olhar para essa estrutura de gênero do qual El-Toukhy embrenha-se e não lembrar do Polanski de “O Inquilino”, que filma os corredores de um prédio e os vidros que escondem mostrando. Com o acréscimo de uma trilha certeira, o filme nos arrasta para além do drama da protagonista, e sim próximo a um crescendo de horror que atravessa cada cena de maneira rocambolesca, sem deixar muita peça de pé.

Para isso, El-Toukhy cria um trabalho de composição de planos que consegue combinar beleza e desespero a um só tempo. Do olhar da qual se tenta fugir no bonde, até as portas que se fecham diante da ameaça – e que voltam com sabor de pavor diante de um novo capítulo da mesma ameaça – passando por uma cena na companhia de um ginecologista que é da ordem da angústia, ao mesmo tempo em que tudo nessa passagem é desenvolvido com o brilho próprio da surpresa. Em tempo do que poderia ser um filme de matéria-prima já reconhecida por outras obras marcantes, “Mulher Desconhecida” desafia as convenções de criação de plano para propor novos olhares para a violência contra a mulher, e que gera um acúmulo de novas doenças difundidas entre pessoas verdadeiramente de bem.

Com um trabalho de elenco impressionante, onde cada elemento em cena propõe o melhor para o avanço de seus personagens e da narrativa, o comando do quadro é de Mathilde Arcel, que enumera tantos predicados, a ponto de nos deixar incrédulos quanto ao futuro de suas possibilidades em cena. O filme a desafia, e ela responde dobrando a aposta anterior, e mostrando novas nuances de uma composição fina, sem obviedades. Além disso, o filme mira acertadamente em uma discussão forte a respeito da diferença entre supostos crimes femininos e masculinos; porque um homem tem mais direitos de errar que uma mulher? Diante do que poderíamos de uma narrativa calçada em um universo já cheio de códigos apreendidos, “Mulher Desconhecida” é um raro oásis da qual vez por outra o clássico narrativo reinventa-se para poder explorar novas capacidades de desenhar o Cinema.

4Nota do Crítico51

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