Amor Possível
Em busca da individualidade
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026
Lee Chang-Dong demorou quase 10 anos para nos entregar um filme novo, depois do colosso chamado “Em Chamas“. Uma filmografia irretocável, cujos aspectos políticos se inserem com facilidade no contexto social de seus personagens, mais uma vez ele apronta das suas em “Amor Possível”, filme que saiu do Festival de Veneza 2026 com a espécie de segundo lugar, o Grande Prêmio do Júri – e creio, merecidamente. Não há decréscimo em uma filmografia muito enxuta, que preza a qualidade à quantidade, e que traça suas linhas de coerência por esses caminhos onde as relações pessoais mediadas pela lente, são intrinsecamente ligadas pelo viés social macro. Nada do que vemos consegue se desvencilhar do que está posto na mesa pelas discussões agora públicas relacionadas aos seus propósitos.
Em cena, dois casais de classes sociais distintas (e realidades econômicas que os apartam ainda mais, e precisamente no momento agora do filme) se encontram por uma curva ascendente, vejam só. Um personagem acaba de recuperar o posto de empregado depois de dois anos sem sucesso; por conta desse revés positivo, uma jovem cineasta de documentários o encontra nessa transição, e resolve torná-lo protagonista de sua nova obra, que descreve o desemprego e a crise econômica na Coreia do Sul de hoje. Assim sendo, tanto o seu marido quanto a esposa dele se amalgamam nessa narrativa que pretende, com a sutileza da imperceptibilidade, traçar uma espécie de parábola moral sobre o nosso tempo, as nossas tentações, as nossas responsabilidades e o que resta depois de confrontar demônios, internos e externos.
Os paralelos visuais e principalmente narrativos que Chang-Dong enfileira para “Amor Possível” não são excluídos de outras narrativas recentes, mas a proposta do cineasta aqui é desenvolver com parcimônia e através de entrelinhas, essa sua visão contemporânea. É uma observação sem sarcasmo de dois universos cuja sinceridade mútua em filmar e em exibir tais verdades não tira de seus tipos um processo de culpabilização que será atribuído pelos próprios senhores. Essa é uma das principais características do cinema desse sul coreano, não há julgamento da obra para com os personagens, não um cuja proposta não esteja conectada entre os mesmos, ou seja, de dentro pra fora e não de fora pra dentro.
O foco maior está nas personagens femininas, enquanto os masculinos um tem aparência testemunhal para suas contrapartes, e o outro se insere de maneira menos direta no jogo cênico – ao menos, até determinado momento. Desse jeito, o debruçamento de “Amor Possível” acaba recaindo mais sobre a personagem vivida pela grande atriz Jeon Do-Yeon, já premiada em Cannes por “Sol Secreto”, também dirigido por Chang-Dong. A personagem que ela desenvolve aqui tem arco muito difícil de articular, porque passa por uma gama de situações muito agudas e discrepantes, até afogar-se na consumição do pouco admirável mundo novo que lhe é apresentado. Com o comprometimento já visto antes em outros trabalhos, a atriz não se deixa levar por tal dificuldade, tirando do papel uma mulher que nasce do histrionismo emocional para chegar até uma introspecção reflexiva que provoca o ritmo do filme, e antecipa um desfecho.
É a partir das curvas dessa personagem que todo o quadro geral narrativo de “Amor Possível” é concebido, quando suas possibilidades vão sendo amplificadas pelo contato com o exterior do qual ela não se estruturava. Estão em cena os outros três protagonistas, que se curvam aos movimentos que ela propõe. Não estamos diante de um estudo de personagem, necessariamente, mas são suas as saídas que o filme procura, para contrapor os outros ao seu corpo. Ainda que sejam os três autônomos ao que é desenhado em cena, é a sua devolutiva que provoca seus companheiros de narrativa. Esse jogo enriquece ainda mais um filme que não quer fazer proselitismo, e com isso transforma o processo de desumanização dos processos trabalhistas ainda mais particulares e universais, ao mesmo tempo.
Além de tudo, a mise-en-scène de Chang-Dong faz a diferença para um projeto que poderia ser encarado de uma maneira menor dentro de sua filmografia e mesmo no que o cinema sul-coreano apresenta de moderno há mais de 20 anos. Ele observa esses personagens sempre na busca por um reflexo que não acontece, seja em matrizes espelhadas ou umas nas outras. Isso demanda personalidade aos quatro personagens centrais, e também mostra que “Amor Possível”, através de seu diretor, compreende que o mundo avançou e que ninguém mais precisa ser visto como massa, e sim como indivíduos que até refletem uma classe, mas cujas decisões particulares definem um rumo diferente, sempre. Isso está impresso no que o filme sugestiona para tais pessoas, que não é o esperado mas também não é fantástico; é a vida, com suas dores e seus perdões.




