O Último Batedor de Carteiras

Joia bruta 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026; Festival de Berlim 2026

O Último Batedor de Carteiras

Não sou saudosista com o cinema, definitivamente, mas assistir a “O Último Batedor de Carteiras” nos acena para o óbvio, que é declarar “já não fazem mais filmes como esse”, e imediatamente se virar para o passado. Talvez porque toda a abordagem da produção apresente uma tendência que se conecte não apenas com o passado de seus personagens, como uma produção que realmente se conecte a uma mise-en-scene de outro tempo. A conexão que arremata essa abertura engloba o personagem título, e como esse batismo sugere, trata-se de um homem no início do que seria um crepúsculo da existência. Ainda que esses relatos sejam de uma obra que não se relacione, mas seu protagonista talvez seja a síntese.

Estamos diante de um tempo outro que não encontra reverberação no hoje. O cúmulo da contradição, “O Último Batedor de Carteiras” se passa no presente, mas o seu ritmo, os seus personagens, as suas emoções, a sua nostalgia, o seu invólucro, no geral, aponta uma realidade do passado. Seja no tratamento entre modernidade e saudade, na discrepância entre personagens maduros e uma juventude afoita (e com achismos muito concretos a partir da própria esperteza, no caso inexistente), entre uma condução mais cadenciada e uma velocidade que não cabe na teoria. Na teoria e na prática, estamos diante de um título que arremessa o espectador para outra abordagem, e questiona o que está por vir enquanto atestado qualitativo.

Uma das coisas que mais seduzem no filme de Noah Segan é o fato de que essa propalada nostalgia ela não tem sabor de aposentadoria, muito pelo contrário. Harry é um cara que já passou da faixa dos 60, mas não vislumbra cansaço ou sonha com aposentadoria; ele sonha com paz, com perdão e com saúde, mas o filme não vende a ideia de que ele quer deixar de fazer o que faz. Mesmo que isso possa significar mais tempo ao lado da esposa adoecida, ou mesmo a segurança após anos de “batalha”. Ou seja, não há em “O Último Batedor de Carteiras” esse viés tradicional de tentativa de apagamento da identidade profissional de alguém comum em filmes que mostram a chegada da terceira idade, por mais que a atividade em questão seja criminosa.

A construção narrativa, ou seja, a trama propriamente dita, o que faz o universo apresentado avançar, ela também é similar a de títulos noventistas e oitentistas, ainda que naquela época essas produções fossem acessadas por ainda mais ação e não somente tensão, como aqui. O que mostra como a própria indústria mudou, ao preterir esforço narrativo por entrega imediata. Um filme como “O Último Batedor de Carteiras”, nos anos 90, seria encarado como mais um produto a estrear nos cinemas em um fim de semana qualquer. Hoje, esse mesmo filme é um produto ligado ao circuito independente e “de arte” das salas comerciais, quando seu ritmo, exatamente do jeito que está, é um prato cheio para a adesão popular.

Obviamente que tudo isso tem contribuição em um elenco formidável de veteranos que não apenas tornam o produto mais atraente, como também engrandecem o filme de momentos especiais em suas participações tanto afetivas quanto efetivas. Giancarlo Esposito e Steve Buscemi receberam grandes momentos em 2026 (“Em Busca da Justiça” e “Cavalo Selvagem Nove”, respectivamente), mas ambos estão aqui em momentos especiais apontando para o protagonista uma saída que é uma opção desejada por ele. Assim como o encontro final com Jamie Lee Curtis dá ao projeto uma projeção coletiva, de ter em todas as suas áreas um olhar maduro sobre as coisas.

Mas todos sabem que “O Último Batedor de Carteiras” só se completa a partir do que é feito por John Turturro. Ator de imensas qualidades, tendo clássicos em seu currículo e interpretações de quilate inestimável, como “Barton Fink” e “O Grande Lebowski” para chamar de seus, Turturro é uma instituição do cinema americano, que o filme realça como ainda não reconhecida apropriadamente. Seu envolvimento físico e emocional com esse homem, que emociona, canta, dança, faz rir, e nos carrega para dentro de um manancial de carisma sem fim, é a mola de registro de uma experiência onde podemos reacessar um outro processo de cinema, daqueles que não estão domados pela indústria, e que precisam estar disponíveis a uma ideia de cinema que se recusa a morrer. Ainda bem.

4Nota do Crítico51

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