Balanço Geral e Vencedores da Mostra de Cinema de São Paulo 2026

Balanço Geral e Vencedores da Mostra de Cinema de São Paulo 2026

Em 14 dias, de 15 a 29 de outubro, com repescagem até 04 de novembro, o maior e tradicional evento paulistano completou 50 anos com quase 400 filmes ofertados a seu público

Por Francisco Carbone

Definitivamente essa não foi uma Mostra Internacional de Cinema de São Paulo como as outras. Não se trata apenas da efeméride dos 50 anos, porque essa sensação escapou por outras frestas para se fazer perceber. Talvez as eleições justifiquem tal nervosismo que envolveu os frequentadores e cinéfilos durante as duas últimas semanas, mas a festa de quase 400 títulos disponíveis foi enorme, como sempre. Foram inúmeros encontros com cinematografias de países diversos, com profissionais premiados pelo mundo, com sabores distintos e uma variedade de opções que incluíram documentários vindos de lugares inóspitos, filmes brasileiros cujas promessas foram justificadas (e outros, não), filme consagrados pela crítica e pelos maiores festivais do planeta – e que não necessariamente eram os melhores.

A excitação de correr pelas ruas da Avenida Paulista, cruzando cinemas para uma próxima sessão, continua a mesma. Talvez o ritmo e a intensidade com que isso aconteça, hoje, já não corresponda a uma realidade do passado; a preguiça e a idade nos fazem concentrar as escolhas. Mas ainda são 14 dias onde sabemos que estaremos diante das produções que serão o principal assunto dos próximos meses em mesas de bar, discussões de podcasts e premiações douradas. Essa experiência de estar na dianteira dos temas das próximas semanas e ainda conseguir vencer a ansiedade e as regras dos aplicativos de nota também são matéria desse combo.

Além disso tudo, os encontros com amigos de estados múltiplos que se deslocam para São Paulo com as mesmas implicações e desejos que nós, e que tantos desses encontros não passarão de esbarrões em filas, em acenos de fileiras, em gargalhadas ouvidas dentro de uma sessão. Mais de uma vez, ouvi (e ouço): “nós só nos encontramos uma vez por ano, aqui na correria”, e isso infelizmente é verdade. Mas isso também realça os valores que a Mostra SP agrega, sendo um polo de afetos que a magnitude da cidade permite conectar, pelo espaço de um bom diálogo ou mandando um beijo enquanto se come uma coxinha numa fila.

Mostra internacional de Cinema de São Paulo 2026

Quanto a premiação, o júri da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo geralmente tem a tarefa inglória de escolher entre filmes estreantes de cineastas que foram os mais votados entre votos populares. Isso não significa que eles terão de assistir 15 filmes não-bons, mas geralmente não estamos falando de títulos que estarão entre os mais debatidos, que geralmente se concentram em filmes mais acessíveis, de muitos aspectos. É tradicional perceber nessa lista de 15 possibilidades entre os mais votados, filmes que muitos cinéfilos não assistiram, e alguns que só serão descobertos depois da divulgação da lista. Nesse sentido, a lista de premiação que é julgada por esse júri profissional, geralmente é defasada dos debates de corredor da Mostra, que ficam geralmente entre filmes maiores e com maior visibilidade – não necessariamente melhores, como diria a Palma de Ouro desse ano (“Fjord”, de Cristian Mungiu, um filme bastante divisivo).

Entre o grupo de filmes vencedores, quase todos os filmes brasileiros premiados tem temática LGBTQIAPN+: “London“, “A Paixão Segundo GHB“, “Feito Pipa”, “Pequenas Tragédias“, “A Professora de Francês“, mostrando como esse é o momento do cinema queer, que está carregando o melhor da filmografia nacional e, talvez com isso, debatendo os lugares de manutenção da homofobia no país.

Entre os internacionais premiados, só assisti a “Chicas Tristes” e “O Sentido da Vida” (que também deveria ter ganho o prêmio de pior título em português, quiçá da década), dois belos exemplares de cinema e ao menos o primeiro deles, das mais interessantes surpresas da edição. Existiu também entre as duas últimas semanas a certeza de que somente a Mostra SP apresenta ao espectador um sem número de produções que acabam conquistando os espectadores, ainda que não fossem conhecidos antes da edição. São as tradicionais descobertas da Mostra, que nos faz ansiar já profundamente pela próxima edição; em momentos de desesperos por Palmas, Leões e Ursos, é refrescante encontrar um filme mexicano que contemple nossas expectativas de outra forma.

Na reta final da repescagem, ainda há muita coisa a ser descoberta. Quase todos esses filmes abaixo estão na programação, e de alguma forma, eles valem a pena, ainda que para tirarmos a prova dos 9 do que a Mostra SP nos entregou esse ano. A melhor certeza é saber que daqui a 330 dias essa ansiedade começa a ser aplacada mais uma vez.

CONFIRA A SEGUIR A LISTA COMPLETA DOS VENCEDORES DA MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO 2026

Prêmio do Júri | Melhor Ficção

CINCO ANOS, QUATRO MESES, de Esteban Hoyos García, Juan Miguel Gelacio

Prêmio do Júri | Melhor Documentário

O BEIJA-FLOR PINTA CANÇÕES PERFUMADAS, de Matteo Norzi, Èlia Gasull Balada

Prêmio do Júri | Melhor Direção

Fernanda Tovar, por CHICAS TRISTES

Prêmio Especial do Júri

EDWARD SAID: ENTRE MUNDOS, de Maiken Baird

Prêmio do Público | Melhor Documentário Brasileiro

FERNANDA, de Pedro Waddington

Prêmio do Público | Melhor Filme de Ficção Brasileiro

FEITO PIPA, de Allan Deberton

100 DIAS, de Carlos Saldanha

Prêmio do Público | Melhor Documentário Internacional

O BEIJA-FLOR PINTA CANÇÕES PERFUMADAS, de Matteo Norzi, Èlia Gasull Balada

Prêmio do Público | Melhor Filme de Ficção Internacional

O SENTIDO DA VIDA, de Ryūsuke Hamaguchi

Prêmio da Crítica | Melhor Filme Internacional

CHICAS TRISTES, de Fernanda Tovar

Prêmio da Crítica | Melhor Filme Brasileiro

PEQUENAS TRAGÉDIAS, de Daniel Nolasco

Prêmio Brada | Melhor Direção de Arte

O JULGAMENTO DE HEIM, de Kai Stänicke

Prêmio Netflix

TALISMÃ, de Thais Fujinaga

Prêmio Paradiso

A PROFESSORA DE FRANCÊS, de Ricardo Alves Jr.

Prêmio Prisma Queer | Melhor Filme Internacional

EU PLANTO MINHA MÃO NO JARDIM, de Boris Hadžija, Hoda Taher

Prêmio Prisma Queer | Especial do Júri

A PAIXÃO SEGUNDO G.H.B., de Gustavo Vinagre, Viva Couto

Prêmio Prisma Queer | Melhor Filme Brasileiro

LONDON, de Victor Di Marco, Márcio Picoli