A Paixão Segundo GHB
Vale tudo?
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival Olhar de Cinema 2026
O cinema brasileiro precisava assistir a Clarice Lispector inspirar Gustavo Vinagre a continuar empunhando seu jorro de criatividade na direção da caretice vigente. Conversando com colegas durante o Olhar de Cinema 2026, era quase uma unanimidade de entender que o diretor de “Nova Dubai” é uma voz que derruba qualquer caretice, real ou pensada, a respeito da filmografia atual. Fomos o país da pornochanchada e hoje o sexo é visto como uma alegoria fetichista, sendo cortado de qualquer intenção mais forte. Então, títulos como “Parque de Diversões“, “Vento Seco” e “Labirinto dos Garotos Perdidos” acabam pairando no ar de maneira mais efetiva. Olhando para a evolução sempre, Vinagre lança “A Paixão Segundo GHB” ao lado de Vinicius Couto e apresenta uma nova face de sua cinematografia, essa quase surpreendente.
Vinagre sempre me pareceu um cineasta muito independente, e isso não tem nada a ver com o fato de que seus filmes sempre custam pouquíssimo, ou são feitos de maneira colaborativa (ou seja, ainda menos que pouquíssimo). Independência no sentido de refletir valores de pensamento livres de julgamento, sem pensar no que poderiam significar o desagrado de pessoas mais conservadoras, um cinema que literalmente não é feito, em sua linha mestra, por nenhuma outra pessoa – no Brasil e talvez até no mundo. “A Paixão Segundo GHB” é igualmente corajoso, aberto a disrupção narrativa, um filme coral de intenções e provocações, que mais uma vez mistura texturas ficcionais e documentais até literalmente os créditos finais, e uma forte ligação com o cinema marginal produzido por mestres como Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach, ao passo que também investiga continuamente caminhos inéditos – ou quase.
Sua ligação com essa inspiração em Lispector, ainda que também de maneira provocativa e apenas saborizada, coloca Vinagre como um observador para além do que víamos sua palheta. Um terceiro ato compreendido e ocupado sob a égide da própria G. H. matriz é repleto de uma sagacidade e de um entendimento da própria obra, e também da escritora, e isso literalmente já nos envolve por um autor renovado em sua argamassa, embora intacto em sua composição intencional. Vive dentro de “A Paixão Segundo GHB” um Gustavo Vinagre repleto de expressões rejuvenescidas artisticamente, que ainda arde em chamas exatamente da forma como o conheci, há mais de 15 anos, mas que está mais ousado por conectar seu desbunde à literatura, por exemplo, quando ninguém associaria a ele. Ele apenas foi lá e fez.
Só que dessa vez, além da liberdade sexual que normalmente encontramos em sua obra, como o próprio Gustavo disse, era necessário também um contraponto a algo que o filme também discorre. Está explícito no título que seus personagens lidam com alguns vícios que vão além do álcool, mais precisamente praticam chemsex, que é o uso de estimulantes ilícitos durante o ato sexual, ou trocando em miúdos, transam sob o efeito de drogas. Couto, que também protagoniza o longa, vive esse cara de férias no Brasil que passa uma tarde recebendo um cara após o outro, todos com a mesma intenção: um pouco de conversa, um pouco de desejo, um pouco de alucinógeno, um pouco de sexo. A cada novo encontro, um relato e um recorte específico que os atores dividem com o espectador de maneira verídica.
A relação entre Vinagre e Couto, e o que eles promovem, é não apenas curiosa, como absolutamente decorosa. No sexo, vemos de tudo (ou quase tudo), em relações muito abertas. Já dentro do campo da experimentação do material, o filme cria uma barreira entre o que propaga ou não; não há ação factível dos atores com os produtos, porque tudo é encenado a partir do vazio. Além disso, Igor Mo mostra sua capacidade desde a entrada com uma interpretação curiosa e muito atenta, e responsável por um momento quase trágico após tantas desventuras; sua presença é sempre marcante, e a maneira como ele lida com as descobertas do que está ocorrendo, e em como seu corpo reage a catarse de uma possível overdose nos impressiona. Ou seja, “A Paixão Segundo GHB” já apontava um novo modelo de reflexão, sem perder a nova contundência e a energia de sempre.
Mas então entre Jessé em cena, e o campo muda de tom. Jessé, um sobrevivente real a tudo que é encenado no filme, por sua história do espectador. Me pergunto se tudo o que descrito, já não passava uma imagem nova a respeito da educação com as drogas. Jessé se expõe durante um tempo considerável, e com isso “A Paixão Segundo GHB” ganha um contorno de denúncia, mas sem nunca perder a essência de um de seus autores – transformar o sexo em algo banal, sem motivo além da vontade. É uma curva que demonstra coragem da parte do filme, até criando uma personagem final para justificar os laços com esse título. Isso transforma Vinagre em um cineasta com ainda mais predicados.




