Folclórica
Basta sonhar
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival de Cinema de Vitória 2026
Poucas coisas poderiam ser mais curiosas do que Rodrigo Aragão realizar um filme infanto-juvenil. Quando de fato conhecemos – e mais do que isso, reconhecemos – as bases de um cinema altamente folclórico como o do realizador de “Mata Negra“, fica mais fácil compreender um projeto como “Folclórica”. Trata-se de mais uma fábula do diretor, e nesse sentido, o filme não poderia ter um autor mais impregnado de sua matéria-prima. Acima de tudo, Aragão é um diretor de cinema brasileiro e falo isso com o ufanismo necessário a suas convicções narrativas, e seu discurso enquanto artista. Essa é a porta de entrada até muito óbvia para compreender seus mecanismos como homem de cinema.
Sua ligação com a cultura da pátria, com o positivo bairrismo de linguagem, que além de não querer se comunicar com o estrangeiro, ainda abraça o Brasil em todas as suas tradições, é uma resposta inicial que explica “Folclórica”. No gerúndio, está o folclore, algo do qual Aragão tem a carreira entranhada, e que de muitas maneiras apareceu em diferentes versões a cada nova obra. Existe uma trajetória de pesquisa com o gênero, um cuidado com o que vai para dentro de suas narrativas, porque precisam responder a uma métrica popular, encontrar respostas no que já existe e fazem parte de nossa formação, e também montem um painel particular sobre o que é aplicado em sua filmografia.
Em “Folclórica”, acompanhamos a trajetória de Pequi, um saci que nasceu com sua única perna sendo a esquerda, e não a direita. Isso faz com que ele acredite ser azarado. Para tentar resolver esse problema, ele precisa fazer uma longa jornada por dentro da floresta do título ao lado do seu melhor amigo, Teobaldo, e de uma incansável curupira, Ingá. A “moral da história” fica clara muito rapidamente, e ela nunca é dispensável, a respeito da aceitação das diferenças. E isso entre os menores valei do que é importante, e sim crucial para a formação de adultos com carga de preconceito cada vez menores. Se a garantia não existe, é bonito ver a preocupação de Aragão para um mundo menos preconceituoso.
Como era de se imaginar, “Folclórica” é integralmente feito através de bonecos e cenários manuais. Toda a confecção dos bonecos ficou a cargo de Aragão, que também manipula alguns, mas que conta com uma equipe forte de profissionais da área. O filme acaba tendo um visual exótico que era o desejo real do autor, que deixa o espectador entregue a um exotismo de cores fortes e formas onde as convenções não tem vez. O artesanato envolvendo a criação dos bonecos é ainda mais fascinante para os adultos que para as crianças, que podem se deixar levar pela magia do ambiente. Os adultos ficarão intrigados com a qualidade do material, que reproduz um universo criado especialmente para a produção.
Em contrapartida ao que Aragão apresenta tecnicamente, como as caminhadas e corridas dos personagens pela floresta (que hipnotizam), “Folclórica” se assemelha muito a um piloto de projeto. Seja uma série, um grupo de desenhos animados, um piloto de programa educativo ou mesmo uma primeira experimentação para cinema, a verdade é que podemos enxergar um projeto maior por trás da produção. E essa sensação soa como artificial em diversos momentos, já que estamos diante de algo com dimensões não especificadas na tela. O desfecho do filme crava essa ideia de maneira mais forte, onde o filme em si parece preso dentro de uma obrigatoriedade.
A arte desse diretor é incontornável, no entanto. Acompanhar o que ele apresenta como matéria-prima técnica de “Folclórica”, todo o seu trabalho de artesão, seu cuidado em defender suas ideias através das imagens, é como assistir a algo de ainda maior valor pq o que Aragão faz não é usual, nem reproduzido por uma dúzia. E se os exemplos não foram o suficiente nas últimas décadas, seu filme novo, e a versatilidade que ele representa em seu portfólio, é um ponto que precisa ser exaltado de todas as maneiras.




