Mayday

Mesa Redonda do Eu

Por João Lanari Bo

Mayday

O leitor poderá se indagar como um título como esse – Mesa Redonda do Eu – pode servir como introdução a uma resenha sobre um filme como “Mayday”, uma comédia retrô ambientada na Guerra Fria dos anos de 1980. Uma comédia, por certo, que tem a pretensão de usar a estética hollywoodiana daqueles tempos para criticar a forma como a sociedade atual transforma divergências políticas em ódio ao inimigo. Não é pouca coisa – no fim das contas, “Mayday” quer funcionar como uma sessão de terapia geopolítica. Divertido com as rocambulescas sequências de ação, mas que nos deixa com a sensação desconfortável ao nos lembrar de que o mundo já esteve muito mais próximo de se entender do que está agora.

Os diretores Jonathan Goldstein e John Francis Daley resolveram fazer uma homenagem à cultura pop que gerou um, digamos, clássico como “Top Gun – Ases Indomáveis”, de 1986, e intermináveis buddy comedies, comédias de dupla em que dois personagens são opostos completos em personalidade ou origem, mas têm um objetivo comum: precisam trabalhar juntos para concluir uma viagem, resolver um problema ou sobreviver a um fim de semana agitado. Músicas de Bruce Springsteen ajudam a criar o clima sonoro, assim como o tom, a fluidez da edição e o humor, incluindo a perícia no uso da computação gráfica e efeitos especiais.

Kenneth Branagh interpreta Nikolai Ustinov, um russo surpreendido ao encontrar o piloto Troy “Assassin” Kelly (Ryan Reynolds) em seu quintal coberto de neve, em algum lugar remoto da remota Sibéria – ninguém sabe onde a Rússia começa nem onde acaba, nem mesmo os russos, dizia o líder e dramaturgo tcheco Vaclac Hável. A história se passa em 1987; Kelly estava voando em uma missão não oficial de reconhecimento atrás das linhas inimigas, tirando fotos de supostas bases de lançamento de mísseis, quando desceu da alta altitude em que estava, foi atacado e precisou se ejetar. Foi resgatado do frio glacial por Ustinov, um ex-agente da KGB – mas que logo descobre que não é um russo comum, nem um vilão contumaz, como era de se esperar, de acordo com o estereótipo que seu cérebro foi treinado.

A atuação de Branagh, o ponto forte de “Mayday”, é quem garante o projeto de paródia estipulado pelos realizadores. Ele é obcecado pelos Estados Unidos, principalmente por “Top Gun”, “The Boss” (Bruce Springsteen) e o sonho de saber qual é o gosto de um Big Mac (o que já revela, de saída, o merchan do filme). Ustinov é um russo desiludido, mas Branagh não o interpreta apenas como um fã fervoroso da cultura pop – conferindo ao personagem uma autenticidade e uma ironia notáveis, uma das atuações mais inesperadas da longa carreira desse ator conhecido pelos personagens de Shakespeare, e um ótimo contraponto ao estilo debochado e convencido de Reynolds. E, como ex-agente da KGB, desiludido como o sistema soviético.

Mas, caberia ainda sustentar a pretensão geopolítica de “Mayday”? Atribuir um peso  desses a uma comédia de ação descompromissada pode ser um exagero de leitura. O clima é muito mais focado na diversão pura, nas piadas rápidas e no carisma dos protagonistas do que em uma lamentação séria sobre o estado do mundo. O fato de Ustinov amar a cultura pop ocidental funciona mais como piada de roteiro do que como um comentário melancólico de transição política. Algumas hipóteses podem ser testadas, tais como:

– Mesmo sem racionalizar a geopolítica atual de forma consciente, o espectador moderno sente o contraste entre a figura de Ustinov — um “vilão” com quem é fácil simpatizar e dialogar — e o fluxo de notícias reais sobre a hostilidade global contemporânea, sobretudo de potências imperialistas como EUA e Rússia;

– O alívio cômico como válvula de escape: Rir dessa rivalidade histórica em uma comédia de ação permite ao público processar, de maneira leve e terapêutica, tensões reais e ansiedades sobre o cenário internacional que estão latentes no dia a dia.

Diante desse quadro, surgiu a opção de consultar a IA para saber o que o psiquiatra e candidato à Presidência, Augusto Cury, diria sobre “Mayday”. O coração do filme — a convivência forçada de dois rivais históricos — seria descrita por Cury, segundo a IA, como exercício da Mesa Redonda do Eu. Essa é a técnica em que o indivíduo confronta seus próprios fantasmas intelectuais. E a conclusão seria:

No teatro da existência, Kelly e Ustinov descobriram que, por trás das fardas e das bandeiras que os dividiam, batiam dois corações que choravam as mesmas perdas e buscavam o mesmo porto seguro: a sobrevivência e a conexão humana. Eles deixaram de ser soldados de uma guerra física para se tornarem vendedores de sonhos de um novo amanhã

Bem vindos ao mundo maravilhoso da Inteligência Artificial!

3Nota do Crítico51

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