Gorbachev, Iéltsin, Putin, Cinema e o Império que quer virar Nação

Por João Lanari Bo

Império ou nação? Os historiadores da epopeia russa se debruçam sobre esse impasse: em 1917 caiu o Czar Nicolau II e a dinastia Romanov, quatro séculos de autarquia imperial sobre o maior país do mundo em extensão territorial; em 1991 cai o império soviético, a experiência mais ousada, para o bem e para o mal, de governabilidade comunista, em um território ainda maior que o império czarista, rodeado por um entorno de repúblicas soviéticas vassalas e subservientes. Só a partir de 1991 é que a Rússia iria experimentar as prerrogativas do que se convenciona chamar de nação no vocabulário ocidental: descentralização política, estado de Direito, liberdades democráticas e econômicas, direito de ir e vir. O cinema, antes e depois do colapso da URSS, é um palco privilegiado onde se expõem as negociações em torno dessa procura pela identidade nacional moderna. Depois de mais de 20 anos sob o comando de Vladimir Putin, pontuado por medidas autoritárias e aquecido por atritos com o país vizinho, Ucrânia, a dúvida continua: nação ou império pós-soviético?

Mikhail Gorbachev

Em 19 de Agosto de 1991, Moscou, um grupo de apparatchiks – funcionários em tempo integral do Partido Comunista da União Soviética, incluindo militares e KGB – perdem a paciência e resolvem detonar Mikhail Gorbachev e suas reformas no império soviético. A parada durou dois dias: dissolveu-se como um sorvete, diria mais tarde Boris Iéltsin, que colocou seu terno e gravata e saiu às ruas, liderando a massa no cerco ao prédio da Duma, o Parlamento soviético – e interpondo um verdadeiro escudo humano que impediu o bombardeio por tanques e canhões. Os apparatchiks estavam furiosos: naquela manhã a população acordou e foi informada de que um comitê de emergência tinha sido criado para governar o país, já que Gorbachev, de férias em sua dacha na Crimeia, estava “doente e incapacitado”. Após o anúncio inicial, as notícias foram suspensas, com o rádio transmitindo sem interrupções “Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky. Em Leningrado (atual São Petersburgo), oito cinegrafistas saem às ruas para captar a vibração democrática: à medida que a multidão cresce, ansiosa por informações reais, aumenta a adrenalina, afinal eram setenta e poucos anos de comunismo à beira do abismo. Sergei Loznitsa montou essas imagens – verdadeiro empoderamento popular – e lançou “O Evento” em 2016, em mais um experimento documental sem narração e exclusivamente com material de arquivo (até Putin, à época assessor do Prefeito, é flagrado entrando num carro). Em 1991, menos de quatro meses depois do golpe frustrado, a União Soviética não existia mais.

Gorbachev e Iéltsin viviam às turras: o ponto de discórdia era a velocidade das reformas, Iéltsin queria acabar com o monopólio do Partido Comunista, liberar as repúblicas soviéticas do controle de Moscou e introduzir de vez o capitalismo na Rússia. Gorbachev pregava uma transição gradual e uma conclusão do tipo “socialismo democrático”. Em 1985 Gorbatchov apontou Iéltsin como o primeiro-secretário do Partido Comunista em Moscou, cargo equivalente a Prefeito: dois anos depois, Iéltsin renunciou e saiu atirando para todos os lados, sobretudo para a “linha dura” do Partido. Populista e emocional – em 1987 chegou a ser internado por conta de uma possível tentativa de suicídio, com lesões profundas no peito – Iéltsin recebeu em troca ataque cerrado da imprensa oficial, taxado de bêbado e excêntrico. Sua popularidade só fazia aumentar. Entretanto, o recente documentário “Gorbachev. Céu”, de Vitaly Manskiy, exibido no “É Tudo Verdade” 2021, é arrasador: qualificado de “idiota” e “maluco” pelo entrevistado, sobra pouco coisa para Iéltsin, rejeitado e excluído da história. O choque entre os dois líderes-trágicos, Gorbachev e Iéltsin, parece duradouro: nessa fricção bipolar se esconde uma profunda fenda histórica, a queda do império soviético, comparável apenas à queda do império czarista em 1917.

Boris Iéltsin

Em junho de 1991, Iéltsin havia vencido as (primeiras) eleições para presidente da Rússia com 57% dos votos, derrotando o candidato apoiado por Mikhail Gorbatchov, que conseguiu apenas 16%. No golpe que se seguiu em agosto, estava indiscutivelmente em posição de força. Sua presidência, entretanto, foi um roller coast de tirar o fôlego: empreendeu reformas econômicas radicais, privatizações generalizadas que favoreceram espertalhões e ex-apparatchiks, gerando inflação, falências e corrupção; exibiu impulsos autoritários e impopulares, como o fechamento da Duma em 1993, ordenando aos tanques disparar sobre o mesmo prédio que defendera em 1991; e deflagrou a primeira (e desastrosa) guerra da Chechênia, iniciada em 1994 e encerrada em 1996, ano da segunda eleição presidencial da Rússia. A lua de mel com o eleitorado evaporou-se: Iéltsin amargava parcos 8% de aprovação no começo do ano, 1996: no segundo turno, em julho, ganhou com quase 55% dos votos (Gorbachev, que disputava como independente, teve apenas 0,8% no primeiro turno). A história da incrível virada e vitória está parcialmente contada em uma comédia com sabor de política produzida nos EUA, em 2003, “Spinning Boris” (“O Pião Boris”). Três consultores americanos viajam a Moscou para alavancar a candidatura, lidando com mafiosos e a filha de Iéltsin, Tatiana, a única pessoa com acesso ao Presidente. Como nas antigas fitas de Hollywood sobre temas bíblicos, que nunca mostravam o rosto divino, Iéltsin permanece relegado a uma esfera invisível: mesmo assim, os consultores conseguem influenciar seu comportamento diante das câmeras, estimulando sorrisos e espontaneidade. A história é verdadeira, os americanos estavam lá: a vitória de Iéltsin, porém, é creditada por observadores à aliança do grupo presidencial com os poderosos oligarcas que dominavam as principais redes de televisão nos anos 90. A cobertura praticamente ignorou os opositores, em um contexto onde o público mal emergia de um ambiente controlado e censório da imprensa. Gorbachev, por exemplo, foi deletado na TV.

Na Rússia, o único filme sobre sua ascensão ao poder – um biopic sofrível, “Iéltsin: Três dias em agosto” – foi lançado em 2011, para comemorar o vigésimo aniversário dos eventos de 1991. Segundo seu biógrafo, um filme como esse não poderia aparecer “nos anos 2000, após a histeria anti-Iéltsin e um ódio total da maldita década de 1990…era preciso pelo menos 20 anos para ver as coisas com objetividade”. O Presidente (o primeiro da história russa) é apresentado como um homem corajoso que goza do apoio popular, alto e forte, lutador inflexível que salva a Rússia de um golpe infame e reacionário. Na vida real, a surpresa veio no dia 31 de dezembro de 1999: “Tomei uma decisão. Pensei por um longo tempo e com muita dor. Hoje, no último dia do século que termina, renuncio. (…) Entendi que eu precisava fazer isso. A Rússia deve entrar no novo milênio com novos políticos, com novos rostos”, disse Iéltsin, no discurso de fim de ano transmitido em cadeia nacional. “Quero lhes pedir desculpas”, prosseguiu, “porque muitos dos meus e dos seus sonhos não se realizaram. E o que parecia simples acabou sendo dolorosamente difícil. Peço desculpas por não ter tornado realidade algumas das esperanças dos que acreditavam que nós, em uma arrancada, de uma só vez, poderíamos pular de um passado totalitário, cinzento e estagnado, para um futuro brilhante, rico e civilizado. Eu próprio acreditei nisso. Parecia que, com uma arrancada superaríamos tudo. Com uma arrancada não deu certo”.

Vladimir Putin

Ninguém esperava a abrupta renúncia – seu mandato ia até março de 2000. Mais uma surpresa: Iéltsin designou como sucessor o então Primeiro-Ministro Vladimir Putin, um burocrata oriundo da KGB, nomeado em agosto de 1999 e desconhecido do público. “Testemunhas de Putin”, documentário de Vitaly Manskiy, começa no apartamento do diretor, a TV ligada no discurso de Iéltsin, filhas e a mulher, que profetiza: “Vladimir Putin se tornará um ditador” (Vitaly confessou em entrevista, quando lançou o filme em 2018, que “nem sempre ouvimos o que nossas esposas têm a dizer”). Seu filme é um registro íntimo e precioso desse momento agudo de transição na Rússia, na virada do milênio. Em 1999 as forças políticas ainda se agrupavam em torno dos famosos oligarcas, biliardários que se aproveitaram da derrocada do comunismo e adquiriram ativos valiosíssimos, petróleo e minerais, fundaram bancos e controlaram a mídia. O grande feito de Putin tinha sido encarar, no mês seguinte (setembro de 1999) à sua posse como Primeiro-Ministro, a terrível onda de ataques terroristas que explodiu prédios residenciais em três cidades, inclusive Moscou, matando mais de 300 pessoas, ferindo outras 1.000 e espalhando uma onda de medo pelo país. Putin afirmou que os terroristas na Chechênia eram os culpados, ordenou uma campanha aérea maciça na região do norte do Cáucaso, e bradou: “Desculpem-me por dizer isso: vamos pegá-los até no banheiro. Vamos eliminá-los na latrina da casinha”. Há, contudo, quem afirme que esses “ataques” foram plantados por agentes da FSB, a sucessora da KGB.

O tratamento linha dura da crise aumentou sua popularidade e o ajudou a alcançar a presidência nas eleições de março de 2000. A ascensão de Putin nas pesquisas foi uma arrancada meteórica e irresistível: em poucos meses passou de 2 a 50% de aprovação. Vitaly, que era diretor da televisão estatal à época, teve um acesso inacreditável a interiores e cerimônias, não apenas de Putin, mas também de Iéltsin – junto com a família, acompanhando os resultados da eleição de Putin – e até de Gorbachev, confraternizando com amigos no dia do voto (Putin chamou a queda da URSS, sob o comando de Gorbachev, de “o maior colapso geopolítico da história”). Em 2001, Vitaly exibiu na TV o filme “oficial”, aprovado pelo Presidente, mas guardou cuidadosamente o material gravado para um futuro trabalho, afinal lançado em 2018: por prudência, mudou-se para Riga, capital da Letônia. Com a consolidação do poder por Putin, passou a prevalecer no maior país do mundo um (curioso) oximoro – “democracia administrada” – isto é: existem críticas e oposição, vocalizadas principalmente pela internet, algumas manifestações públicas mais ou menos reprimidas, mas a televisão e grandes meios de imprensa são controlados pelo governo; a chance de uma alternativa real de poder a Putin é pequena. Em contrapartida, a chance de um opositor ser assassinado ou preso é alta. O documentário de Vitaly pode incomodar os admiradores fanáticos de Putin, admitiu o realizador em entrevista: basta lembrar a famosa jornalista e ativista de direitos humanos, Anna Politkovskaia, ferrenha crítica de Putin e da guerra da Chechênia, assassinada em 2006 exatamente no dia do aniversário de Putin – ou seja, um “presente” ao líder.

Em fevereiro de 2008, coincidindo com o dia dos namorados na Rússia e às vésperas das eleições presidenciais daquele ano – vencidas pelo “sucessor” de Putin, Dmitri Medvedev – foi lançada a produção local “Um Beijo – Não para a Imprensa”, conto de fadas romântico e pueril com nomes trocados sobre a vida e o casamento de Vladimir Putin. Claro, com situações inventadas e licenças dramáticas – mas ninguém duvidou um minuto que a história era sobre Putin e a ex-esposa: jovem aeromoça de Kaliningrado conhece modesto passageiro em voo para Leningrado e engata um romance à distância por 2 anos, terminando em casamento. Ele, formado na Faculdade de Direito da Universidade de Leningrado, fala alemão e trabalha na “Sociedade de Amizade Soviético-Alemã”; acaba candidatando-se à Presidência, e ganhando. Uma dúvida interior persistia: “não sei se quero tudo isso” – confessa. Em uma conferência de imprensa em Berlim, se atrasa e a própria esposa responde a perguntas sobre dívida externa russa, corrupção e liberdade de expressão. Suas respostas provocam uma ovação estrondosa: ele chega e junta-se aos aplausos, beijando-a em público e pronunciando as palavras que se tornaram o título do filme.

A crítica, em sua grande maioria, massacrou o filme. O melhor que se disse foi que a história era contada de um ponto de vista feminino e romântico, algo esquecido na Rússia contemporânea. Como a imagem de Putin é radicalmente distinta desse tipo de leitura, não deve ter colado. Um crítico concluiu que não se tratava de filme de encomenda ou propaganda oficial, mas uma “iniciativa pessoal, uma forma de simbiose com o poder”. E o impasse persiste: império ou nação?

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