Entre o Sucesso e a Lama
Flores de lótus
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival de Cinema de Vitória 2026
Para encerrar a competição do Festival de Vitória 2026, a curadoria selecionou mais uma vez a emoção, como na abertura (“A Fabulosa Máquina do Tempo“). Mas sai a doçura do longa de Eliza Capai, e entram os personagens periféricos de muitas ordens de Cristiano Burlan, em “Entre o Sucesso e a Lama”, o longa mais nervoso do diretor em muito tempo. E dessa atmosfera imprevisível com o qual o cineasta encampa seu filme, conseguimos perceber que é dessa matéria-prima que nasce o melhor que Burlan tem a oferecer. Passeando sempre entre um eixo de experimentalismo da ficção e a urgência do documentário, a segunda opção tem rendido suas mais acertadas obras. Aqui, isso não apenas se mantém, como o filme nos carrega de queixo caído o tempo inteiro.
Quando Sócrates começa seu depoimento, percebemos que algo perpassa esse caos que seus personagens se atrevem a evocar em cena. Sua entrada carrega uma história de profundo auto conhecimento e aceitação mediante quem se é; nesse momento, Burlan galga alguns andares além dos que já eram vistos em sua obra anteriormente. Ele modela seu ritmo para caber não apenas um relato, mas um sopro de verdade emocional em cena; em um universo onde tudo é trabalho, onde a busca pelo perfeccionismo é uma base sólida (e natural dentro do campo artístico, sem paternalismo), Sócrates expõe tudo o que podia – e talvez até o que não precisava. A montagem que une o passeio no balanço e a interpretação mais crua de ‘Non, je ne regrette rien” já filmada, clarifica “Entre o Sucesso e a Lama”, e mostra que seu cineasta está no auge.
É bom sublinhar o quanto Burlan é um cineasta prolífico. Suas imagens estão em produção constantemente, sua mente é inquieta (ainda bem, isso é um predicado dos melhores autores) e seus filmes não tem por hábito embarcar em um campo de repetição estético-narrativa. São mais de 20 filmes, e eles têm algo de especial em relação ao seguinte ou anterior, além dessa busca por constante reformulação. Mas raras foram as vezes onde, na carreira, algo como “Entre o Sucesso e a Lama” foi conseguido. Porque o equilíbrio entre a crueza do que veremos – e também do que somente está nas entrelinhas – precisa ser contrabalançada com um grau de poesia que não está na ordem de qualquer dia, ou que seja descortinada naturalmente no ambiente em questão.
Dessa vez, Burlan invade um lugar chamado Teatro Contêiner no centro de São Paulo. O lugar é um espaço de aulas livres ligadas à arte – música, teatro, cinema – para a população em situação de rua, na maior das vezes oriunda da Cracolândia. O que se inicia como um projeto social simplesmente, acaba tornando-se em uma mola propulsora para todos os envolvidos, incluindo o próprio diretor. “Entre o Sucesso e a Lama” acompanha a rotina de entendimento dos talentos escondidos (algumas vezes quase soterrados) entre os próprios e seus professores, com um tanto de aula, outro tanto de vida, com uma espécie de monitoramento policial pelo meio. Esse monitoramento não passa de um método de repressão e intimidação dessas pessoas por uma polícia que age de maneira insidiosa, pairando pelas frestas do que o filme mostra.
Com um trabalho brilhante de edição a cargo de Burlan, Henrique Zanoni e Ana Carolina Marinho, parceiros habituais do diretor, “Entre o Sucesso e a Lama” não incorre nas tradicionais armadilhas de um documentário. Não é um título de “cabeças falantes”, não é um filme de foco único, é um filme de inventividade estética profunda, para logo depois criar os dispositivos necessários. Ouvir as histórias e as vozes, e circundar tais personagens sem invadir nenhum espaço. E nesse caminho, Burlan vai encontrando vazios existenciais em discursos que revelam nada disso; um ator precisa fingir que é amor a dor que deveras sentes, não?
Esse trabalho de montagem ajuda também ao espectador conseguir ir da emoção a tensão, com todas as belas cenas de seus protagonistas (incluindo o depoimento de Laurah sobre sua vivência trans, ou a evolução de uma voz alcançando os vetores certos para a afinação), intercaladas à constante observação da força policial. Está na conta desse paralelismo uma das versões de sucesso e lama presentes no título, um universo cheio de armadilhas mas que seus personagens reencontram sempre motivos para renascer. De elenco majoritariamente negro, periférico e em situação de extrema vulnerabilidade, “Entre o Sucesso e a Lama” ultrapassa palavras clichês surradas para entregar uma peça de cinema rara, emocionante e que constantemente nos soca a cara.




