London
Dois diretores e um ator
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026
Victor Di Marco e Márcio Picoli construíram uma carreira como curtas-metragistas antes de rodar seu primeiro longa, mas a notícia de que esse “London”, esse projeto que estreou no Festival de Veneza ganhando a Queer Lion, é o projeto inicial deles, que apenas foi sendo adiado e enquanto isso os curtas foram sendo produzidos, parece comunicar com o que seus autores já declararam alguma vezes. Ambos estão atrás de uma vertente que não se vê representada nas telas de cinema (e mesmo em outras áreas da arte, essa representatividade é irrisória), e em busca de radiografar uma vida queer que também é filtrada pela deficiência, eles decidiram que suas vozes reverberaria muito mais o prazer, a inserção e a alegria do que a dor, as dificuldades que oprimem e a exclusão.
Por isso entender que “London”, exibido no Festival do Rio 2026 e agora na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo neste mesmo ano, é uma espécie de título de apresentação para quem não os conhecia do circuito de festivais, e encontrará a força de seu cinema agora através desse título. E que, em nome de uma construção que busque alguma identificação coletiva, eles precisem ceder a algo parecido com uma lógica de mercado, ainda que dentro da anti-lógica. Muito prazer, esse é o ator, roteirista e diretor Di Marco (ou London) e a vida desse personagem é marcada sim por liberdade sexual, escolhas próprias e união entre semelhantes em clima de comunidade, mas que não tinha como fugir de uma apresentação formal. E isso inclui mapear um lugar estigmatizado onde tais personagens são relegados, “escolhendo” entre o que é e o que não é marginal.
Antes de mais nada, o que fica impresso na tela é como a experiência adquirida afinou Picoli e Di Marco enquanto realizadores. Se em obras como “O Que Pode um Corpo?” e “Zagêro” eles já mostravam um campo de complexidade estética e de vontade de comunicar através da forma, em “London” essa sofisticação não se transforma em palco para exibicionismo vazio. As várias decisões de decupagem e o relevo escolhido para contar cada paisagem imagética, é pensado de maneira coletiva a privilegiar uma história que poderia prescindir de sua narração/diálogos, criando um universo audiovisual cuja representação não é continuada. A presença dos diretores na sessão de “Não Estamos Sonhando”, no entanto, mostra como personagens diversos se encontram em determinado momento narrativo.
London é um rapaz que mora sozinho em um apartamento repleto de problemas de estrutura, e esse é um aspecto presente em sua vida desde a abertura. Ok, reside uma denúncia aí a respeito da precariedade para pessoas deficientes, mas a vida em sua casa é retratada como escura e precária; ou seja, as horas vagas do nosso protagonista são vivendo em uma espelunca. O equilíbrio delicado que o filme tenta demarcar entre um olhar de luzes e cores frenéticas e uma vida paralela onde o personagem-título refaz exames para encontrar um diagnóstico acertado que nunca vem enquanto vive escondido em uma caverna sai de cena aos poucos, restando a “London” uma realidade pesada, que parece atentar contra o protagonista a cada nova cena.
Como já dito, Di Marco e Picoli filmam esse roteiro como um mergulho sem freios em sua realidade. Se “London” aposta em uma vertente voyeur, a direção banca tais ideias; se o filme liberta seu protagonista de “obrigações” queer para um encontro fortuito com uma mulher mais velha, seus diretores transformam o filme em uma síntese do flerte; se a ideia é mostrar o círculo de amizades dele com veracidade. saímos do filme querendo estar entre eles. O problema é que essa descida ao fundo do poço de London é filmada com igual qualidade, a ponto de lançar a produção em uma jornada rumo à melancolia e a tristeza profunda, mais uma vez retratando personagens queer como alvo de sofrimento.
Qual é então o trunfo de “London”? Os diretores Márcio Picoli e Vitor Di Marco têm, à sua disposição, o ator Victor Di Marco, e isso vai além do lucro. Se o diretor que ele é está apenas nos mostrando seus primeiros sinais de potência, o ator já é uma realidade que o filme confirma. A estante de Di Marco não para de suportar prêmios de melhor, e sua estreia em longas também como ator mostra que estamos diante de um dos melhores e mais intensos intérpretes da atualidade. E se tem algo que a via-crúcis do personagem ajuda, é o seu desempenho, que nunca sai de cena sem nos marcar intensamente. Isso até chegar aos minutos finais, e ao longo close de seu rosto no encerramento – tal plano nos provoca de muitas maneiras, mas é olhando para Di Marco ali que entendemos que precisamos de mais do que suas habilidades de diretor; o ator é igualmente essencial.




