Chicas Tristes

Risco calculado

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026

Chicas Tristes

O coming of age é quase um gênero que nunca sai de moda no cinema mundial, em qualquer que seja a língua. O Brasil esse ano em específico lançou alguns, os EUA tem tradição no tema, e grandes filmes da História mostraram “o mundo pelos olhos de uma criança”, ou coisa que o valha, como o crescimento de adolescentes em fase tensa e a explosão de situações conflitantes que acarretam isso. “Chicas Tristes” é uma versão mexicana do tema, e não uma qualquer: o filme tenta abarcar alguns de seus olhares tradicionais nessa direção, mas utilizando linhas próprias de 2026, como a violência contra a mulher e em como situações-limite (e criminosas) podem colocar à prova vidas comuns.

Paula e La Maestra nutrem aquela amizade adolescente inquebrantável, e ao mesmo tempo cúmplice em absolutamente tudo. Após uma festa onde Paula avançou na tentativa de conseguir um espaço na imaginação do menino por quem é apaixonada, ela parece afundar cada vez mais em um poço sem fundo. Nada do que é mostrado em “Chicas Tristes” é exatamente inesperado, e ainda assim a composição do todo é suficientemente acertada para que o todo faça a diferença. A começar pela intimidade entre as duas protagonistas e suas capacidades de nos convencer de cada um dos (maus) passos dados por ambas em cena. Quando demos por mim, o que poderia ter sido de solução imediata transformou-se em uma rede de desafetos e mágoas ininterruptas.

A sensibilidade utilizada na direção e na escrita do roteiro vem da mesma pessoa, Fernanda Tovar, que estreia em longas com muita bagagem do que provavelmente assistiu, para colocar na tela situações que já vimos ou vivemos, amparadas por um senso de veracidade quase o aproximando de um documentário. Assim como outros títulos, aqui as protagonistas também são ligadas a um esporte (no caso, a mesma natação de “Medley”) e o protagonismo dividido nos permite acompanhar o filme por dois ângulos distintos, que se encontram em determinado ponto. “Chicas Tristes” é uma obra que fala sobre estupro, perda da inocência e processos ligados à depressão da maneira menos embicada na dor possível; o resultado é alcançado com algum louvor.

Na pele das meninas, Rocio Guzman e Darana Alvarez mostram maturidade para passear em uma gama infinita de sensações e sentimentos, como o reencontro uma com a outra no banheiro do clube, e como elas relacionam os próprios corpos na cena. A maneira como a gangorra de ambas também desequilibra o que vemos em cena, indo de uma euforia profunda a uma ideia de abandono e inércia diante do horror, que é visível no crescimento dessas interpretações. Principalmente Guzman impressiona porque sua personagem é apresentada quase de maneira histérica no início, em uma linha muito incômoda para qualquer ator, mas que se transforma em uma gradativo manancial de culpa e arrependimento; uma performance completa.

Em cena, o Brasil é agraciado com a presença de Alceu Valença (“Anunciação”) e Arlindo Cruz (“O Meu Lugar”) na trilha, mas isso é uma nota de rodapé para nós. Da parte de Tovar, está entregue uma história pungente sobre uma cumplicidade cuja violência vitimou. Existe o histrionismo do início, entre conquistas e uma força juvenil que é assolada por bebidas, drogas e sexo para nortear os campos, e existe posteriormente essa sombra maligna que transforma meninos em monstros e meninas em vítimas. O brilho dos eventos é substituído por uma incapacidade de ação e uma vontade de retroceder no tempo, para que possamos alcançar a perda da inocência que não deveria ter sido ceifada desse jeito.

Mesmo com tanta motivação negativa, “Chicas Tristes” nunca deixa o peso dos eventos afetar a força de sua história, ou mesmo de costurar suas personagens em um manancial de abismo sem fim. Tovar alcança um equilíbrio que é raro de muitas formas, não apenas por tratar-se de um primeiro movimento em longas. A beleza da maneira com que suas cenas transcorrem, o fato de termos inúmeros espelhos na produção nos mostrando os reflexos de um crime que muitas vezes é soterrado no passado, e a fluidez de como a edição consegue contrabalançar dois tons por 1h e meia, é uma prova de que sim, às vezes as mesmas histórias já foram contadas. O que vai mudar nossa percepção é o olhar terno e apaixonado para o que está na berlinda.

4Nota do Crítico51

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