Medley
Mergulho raso
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026
Lola é uma adolescente campeã de natação com um futuro expressivo pela frente. Apesar da estrutura profissional começar a se mostrar como uma possibilidade concreta de futuro, o emocional da jovem não anda nada bem. Atualmente, ela e sua mãe batem de frente por qualquer assunto, e o fato dele pedir informações a respeito do pai e não tê-las promove um distanciamento crescente entre elas. Após uma briga durante as férias, Lola resolve viajar sozinha pela primeira vez, indo passar um tempo junto ao tio que mora no interior. Quando lá, as camadas sobre seu pai começam a surgir sem que ela sequer procure, inicialmente. Esse é o ponto de partida de “Medley”, novo filme da talentosa gaúcha Ana Luiza Azevedo.
Diretora de um grande filme acerca da adolescência, “Antes que o Mundo Acabe“, justamente sua estreia em longas, Azevedo anda para trás e para frente ao mesmo tempo. Passado nos anos 90, “Medley” é uma produção capitaneada por uma diretora experiente, que tem uma síntese de sua filmografia, que busca essa tal de comunicação direta com o espectador, cujas escolhas estão cada vez mais duras de serem analisadas. Mas o ímpeto é tão forte, que essa adaptação de um livro de Keka Reis assinado pela própria, é uma conversa franca a respeito da filmografia da diretora, que volta a falar sobre juventude, a partir de questões emocionais e particulares.
Azevedo tem passagens por essa faixa etária em sua obra de maneira regular. Mesmo o recente “Aos Olhos de Ernesto”, a principal personagem feminina era uma jovem mulher. Em “Medley”, Lola é introspectiva, costuma se refugiar no esporte e nessa busca incessante de um rosto que se perdeu no passado. A leitura que autora e diretora têm do lugar de fala em cena é verdadeiro. Tematicamente, o filme é engajado positivamente com o que está sendo dito, e conta com simpatia coletiva para os embates internos dessa protagonista. O problema aqui não é a aparência, e sim quando conseguimos passar ao largo do prato principal, para olhar a quantidade de coisas que não deram certo, ou não foram bem conduzidas.
A construção dos personagens que não são Lola, dá pra dizer que todos eles, de alguma maneira, tiveram pouco desenvolvimento, prejudicando o material imagético e igualmente o trabalho dos atores. O exemplo mais evidente é o de Mariana Lima, que vive Catarina, a mãe de Lola, e que precisa lidar com um tipo de construção raso. Catarina é uma mãe relapsa, e suas ações não compreendem no registro que elas acontecem; que mãe deixaria a filha desaparecida por três dias? E não existe curva dramática que justifique as atitudes da personagem, essa especificamente. As outras personagens ficam pelo caminho, como a prefeita vivida por Leona Cavalli, sequer se justificam, ainda que suas presenças sejam essenciais para definir as ações da protagonista.
Nesse jogo, a sensibilidade tradicional de Azevedo continua presente. A trama romântica do filme, por exemplo, é desenvolvida com cuidado e as definições que poderiam causar fagulhas inclusivas, estão em cena com naturalidade exemplar. Ou seja, tudo o que um material de teledramaturgia usaria como fonte de discurso, “Medley” nos apresenta de maneira que desarma nosso conhecimento narrativo oriundo da TV, para se consumar cinema. Em contrapartida, um filme dito de outra época precisa de um cuidado redobrado em seu visual, e na sua escalação. Por exemplo, Mel Maia é uma mulher adulta hoje, longe da criança que vimos crescer; já fez personagens sexies e fatais nas telas. Não falta talento à atriz, mas talvez hoje lhe careça da ingenuidade que uma adolescente dos anos 90 teria, e também disso isso dos aspectos estéticos que já afastaram a atriz de uma ideia ‘teen’ de 30 anos atrás.
Com valores de produção que mostram que o filme tem interesse real no público maior, “Medley” é uma obra dramática que entende que existe uma outra via no mercado que não permite somente a estreia de filmes consagrados em festivais no circuito. Com leveza e até bom humor, a história de uma jovem que sonha em descobrir detalhes sobre o pai que desapareceu na sua infância é acessível. E isso não tem a ver com as construções do roteiro, que não suplantam o que está sendo construído para a narrativa.




