Antes Que O Mundo Acabe

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Ficha Técnica

Direção: Ana Luiza Azevedo
Roteiro: Paulo Halm, Ana Luiza Azevedo, Jorge Furtado e Giba Assis Brasil
Elenco: Pedro Tergolina (Daniel), Bianca Menti (Mim), Eduardo Cardoso (Lucas), Caroline Guedes (Maria Clara), Eduardo Moreira (Daniel-pai), Janaína Kremer (Elaine), Murilo Grossi (Antônio)
Fotografia: Jacob Solitrenick
Direção de Arte: Fiapo Barth
Direção Musical: Leo Henkin
Direção de Produção: Nora Goulart
Montagem: Giba Assis Brasil
Produção Executiva: Nora Goulart e Luciana Tomasi
Produção: Casa de Cinema de Porto Alegre
Duração: 100 minutos
País: Brasil
Ano: 2009
COTAÇÃO: EXCELENTE

A opinião

O cinema gaúcho, que a cada dia torna-se mais notório e importante para a cinematografia nacional, possui a característica do resgaste da simplicidade. As ações são geralmente interioranas, com personagens que desejam a mudança. O diferencial é a forma com que o roteiro é trabalhado, abolindo o clichê e o recheando de naturalidade. O tom realista fornece convencimento e credibilidade, principalmente quando se utiliza a ironia ingênua, complementando-se com um sentimentalismo existencial puro, direto, perspicaz e normal. Não se pretende ser, é. Deixa-se acontecer com a leveza do próprio não querer.

Daniel é um adolescente crescendo em seu pequeno mundo com problemas que lhe parecem insolúveis: como lidar com uma namorada que não sabe o que quer, como ajudar um amigo que está sendo acusado de roubo e como sair da pequena cidade onde vive. Tudo começa a mudar quando ele recebe uma carta do pai que ele nunca conheceu. Em meio a todas essas questões, ele será chamado a realizar suas primeiras escolhas adultas e descobrir que o mundo é muito maior do que ele pensa.

A vida típica de um adolescente que vive no extremo do Rio Grande do Sul, em Santa Maria, é parecida com todas as outras do mesmo lugar. Os mesmos problemas, angústias, quereres, frustrações, fugas e desapontamentos. Só que neste lugar, retrata-se a busca de personagens pelo o que sentem. Há a transposição de emoções passionais comuns à idade. Há a exaltação da felicidade, há a vingança infantil, há a revolta ingênua e pueril. Há sinestesia quando interage fotos com imagens, ou vice-versa. Sentimos cheiros, sofremos juntos e ate ficamos bêbados também. Vemos as artimanhas de padres burlando seguradoras, vemos a condescendência de outros para a liberdade e do não julgamento. Julgamos sem condenar. Condenamos por conceitos prévios. Quando se entende o porquê, a confiança volta a pulular nossa pureza cruel e desconfiada da vida.

Há poesia naturalista quando busca a nostalgia e a apresenta como moderna. Passeia-se pelas zonas limítrofes entre o hoje, o ontem, o agora, o futuro, o nada, o ser, o existir, o fazer e ou não fazer. A narração inicial, de uma pré adolescente, extremamente avaliadora – definindo o que se encontra em sua volta de forma humanizada – direciona o espectador a uma regressão pessoal. Porque observando, pode-se olhar mais atentamente para a própria vida.

As referências são estruturadas para que informações não didáticas possam embasar a metáfora apresentada. A figura de linguagem da vida real aborda a Tailândia, entre outras, com uma fotografia saturada em contraste, como a de um fim de tarde no verão. “Toda família tem que ter um padre e um viado”, diz-se. “Morar em Porto Alegre com cinema e shows sem ninguém para encher o saco”, sobre a liberdade desejada, sendo o querer básico e não complexo. Mudar de cidade, morar sozinho e não ter ninguém cobrando são sonhos dez entre dez adolescentes. O longa conserva a atmosfera desta pureza juvenil, sem errar a mão e sem desandar para a falsa vivência dos jovens. Posso antecipar que a linha narrativa não se quebra, permanece fiel e competente até o final. “Tá me dando fora?”, “Tô, quer dizer,acho que tô”, conversam-se. “A gente tá dando um tempo? Eu só queria saber quanto tempo é um tempo?”, complementa-se.

Na família protagonista em questão, a menina Maria Clara, interpretada por Carolina Guedes, toma conta da vida de todos da família e assim conta as suas percepções. Interessa-se por cinema, inventando televisões que passam historias contadas por ela. É um ambiente lúdico. O irmão “que não dá descarga”, Daniel, o protagonista, vivido pelo ator Pedro Targolina, segue fazendo as mesmas ações de seus amigos: festinhas com a música “Ele é o senhor da dança”. Mas ele não está totalmente inserido neste universo. A introspecção é maior, usando a certeza como mote para as decisões, instantâneas ou programadas. Nesta idade tudo é muito confuso. Há a necessidade de formação de caráter, há a modificação física do ser, há a indecisão do estar sendo ou ser estando, com ou sem bebedeira.

É um longa autoral, alternativo, baseado no livro homônimo de Marcelo Carneiro da Cunha, lançado em 2000, principalmente pelos roteiristas: Paulo Halm, Ana Luiza Azevedo (também a diretora), Jorge Furtado e Giba Assis Brasil (também o montador), embasados pela Casa de Cultura de Porto Alegre. O roteiro trata o complexo com a simplicidade natural de uma existência que busca os princípios e valores em detrimento do afastamento da família e dos amigos, que são os que escolhemos para conviver nossas verdades demonstradas. “Se mulher não fosse complicada, que graça teria”, diz-se.

“Quando os periquitos comem vento, eles cantam melhor”, diz-se com a poesia ingênua de não saber que se está fazendo filosofia cotidiana. As fotos tornam-se quebra-cabeças. Montam-se pessoas para conhece-las. Controem-se relações pessoais. A malária transforma-se em elemento de tempo para o pensar, questionando o tudo e escolhendo a novidade e a aventura. A cultura e a paixão pela fotografia aproximam um pai e filho que nunca se viram. O interessante é a fragmentação e interposição elipsada de diálogos. A resposta da primeira pergunta contrapõe-se a da segunda, que se torna uma possível validação para qualquer uma das duas. O máximo da simplicidade: comer jabuticabas sentados em uma ponte vendo o rio. Acrescentando o elemento técnico da trilha sonora, fantástica por sinal, equilibra-se o tom exato do que foi objetivado.

O olhar, sem palavras, transpassa com sutileza a sensação do momento. Neste ponto, não podemos deixar de enaltecer a direção de atores que introduzem entropia (universo; confusão) nos diálogos, que não se apresentam pretensiosos. O grande segredo do filme é a despretensão, tratando o complexo como simples, como já disse antes. O período final explicita o experimentalismo cinematográfico. Fotos são fotografadas da tela, a luz do computador que cria a imagem. Inventam-se enquadramentos que também buscam a arte simples pela arte. “Você deixaria ser fotografada chorando?”, “Fotografar coisas inesquecíveis é que você não consegue esquecer”, busca-se o efeito vocábulo.

Vale muito a pena ser visto. É excelente a maneira de se contar a trama. Prende a atenção por ações banais e típicas dos jovens, que já vimos à exaustão, mas neste longa tem o sabor de quero mais, de querer ver mais, de não querer que o filme acabe. Recomendo muitíssimo. 2º Festival de Paulínia, 2009: Melhor filme (prêmio da crítica), Melhor direção, Melhor fotografia, Melhor direção de arte, Melhor música, Melhor figurino. 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, 2009: Prêmio Itamaraty (melhor filme brasileiro da mostra).

A Diretora

Diretora e roteirista, Ana Luiza Azevedo dirigiu os curtas de ficção “Dona Cristina Perdeu a Memória” (2002), “Três Minutos”(1999) e “Barbosa” (1988) e os documentários “Ventre Livre”(1994), “Olho da Rua” (2002) e “O Grão da Imagem” (2007). Dirigiu programas de televisão para campanhas eleitorais de 1992 a 2000 do Partido dos Trabalhadores. Dirigiu vários especiais e séries para televisão, como “Dia de Visita” (2001) e “Decamerão”(2009) para a Globo e “Fantasias de uma Dona de Casa” (2008-2009) para a RBS.

Trabalha em cinema desde 1984. Foi assistente de direção de diversos filmes, entre eles os curtas “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado, um dos roteiristas do filme em questão (1989), a série “Luna Caliente” (2000) e os longas “Tolerância” (2000), “O Homem que Copiava” (2003), “Bens Confiscados” (2004), “Meu Tio Matou um Cara” (2005) e “Sal de Prata” (2005). É programadora do Cine Santander Cultural desde 2001. Atualmente prepara a produção de uma série para HBO e lançamento de seu primeiro longa-metragem, “Antes que o mundo acabe”.

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