A Extraordinária Vida de Vera Valdez
Brilhante sabor transgressão
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026
Fábio Meira, um dos realizadores mais férteis da atualidade, nos apresenta a um universo para muitos desconhecido. Vera Valdez foi uma modelo importante nos anos 50 e 60, que representou o Brasil em casas imensas, como Dior e Chanel. Ainda nos 60, Valdez acaba sendo cooptada pelo cinema, indo parar em títulos como “As Cariocas” e “Anchieta, José do Brasil”, e mergulhando profundamente no Teatro Oficina, sendo uma das principais intérpretes da companhia de José Celso Martinez Corrêa. Se fosse ainda assim você não tiver sido apresentado a ela, “A Extraordinária Vida de Vera Valdez” sanará essa lacuna com alguma verve, ainda deixando espaço para que o próprio espectador exija mais e corra atrás de preencher tais espaços.
Não é sempre que o Cinema nos promete a apresentação de alguém que não seja uma estrela de primeira grandeza das lembranças, dos corações e mentes. É muito mais fácil termos apoio a projetos sobre Chico Buarque, Rita Lee, Jorge Amado e Xuxa do que uma atriz e modelo que enveredou pelo teatro de vanguarda e de lá tornou-se referência entre seus pares. Vera Valdez é um desses perfis que não é demais de nos tornarmos próximos, e o agradecimento a Meira é imprescindível. Valdez esteve no elenco de “Tia Virgínia“, o mais premiado filme do diretor, e esse fascínio nasceu lá, paralelo ao desejo de documentar essa vida verdadeiramente extraordinária.
A já premiada montagem (à cargo de Meira, Juliano Castro e a lendária Cristina Amaral) não tenta decifrar os enigmas que o autor – e a protagonista – propõem, apenas se jogam no caleidoscópio de imagens do presente, fotos do passado e relatos desconcertantes de uma mulher inigualável. Tudo está misturado, mas nada está desordenado, ou confuso; temos uma persona (in)completa se desnudando para as câmeras, e muitas vezes isso é feito literalmente. Essa edição consegue nos fazer encontrar Vera tanto através de seus relatos, quanto dessas imagens poderosas de seus desfiles clássicos. É Vera olhando para a própria História e criando uma mitificação fácil de alcançar por conta de sua presença e deboche.
Após lançar “Mambembe“, um dos documentários mais inventivos dos últimos tempos, Meira escolhe uma leitura menos bifurcada para contar tal trajetória. Isso não transforma “A Extraordinária Vida de Vera Valdez” em uma produção acanhada, pelo contrário, com sua figura central, isso jamais aconteceria. A abertura que remete diretamente ao “Di” de Glauber Rocha é, a um só tempo, despudorado e ousado, exatamente como foi sua homenageada, já tira o filme de qualquer possível crítica que o apontasse como sossegado. A coragem de mostrar Vera quase de uma maneira onde a desconstrução física vá se mostrando do avesso, com a despedida antecedendo a fase já final à base de respiradores, e ganhando impacto com uma versão cada vez mais viva de Vera, é um acerto sem dúvida.
O resultado não reconhece acomodação, mas é uma tratativa biográfica, do qual alguns dados precisam ser expostos, em situação mais tradicional (embora, em tese, o filme não se encerre nesta característica). As histórias de amor de Vera, sua relação forte com suas duas filhas, os relatos de seu afeto para com Coco Chanel, montam um mosaico de uma mulher que foi além das capacidades sempre movendo o jogo para a sua direção. Uma existência que exalou paixão por todos os 90 anos vividos não é disfarçada pelo filme, e com isso, “A Extraordinária Vida de Vera Valdez” vai além da homenagem para encontrar um polo de resistência dentro de uma fatia da cultura, que seguiu resistindo e criando voz dissonante enquanto esteve por aqui.




