Pequenas Tragédias
É cedo ou tarde demais pra dizer adeus?
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra CineBH 2026
Antes de ser Daniel Nolasco, ele foi só Daniel. Francisco. Fabrício. Vitor. Lucas. Guilherme. Todos nós, indivíduos queer, já fomos uma criança, um adolescente, refém do que nosso entorno nos causou. Nos transformou. Nos marcou. “Pequenas Tragédias”, novo filme do diretor de “Vento Seco” e “Apenas Coisas Boas”, é uma das obras mais pessoais e universais ao mesmo tempo, do cinema LGBTQIAPN+ recente. Não tem a ver com 1 interior, 1 subúrbio, 1 passado, mas todos, de muitos países, de muitas ordens. Nolasco compreende essa universalidade em ser minoria oprimida, em estar na berlinda por ser quem é 24h por dia, em sofrer (e morrer, eventualmente) sendo verdadeiro consigo mesmo. De dentro de sua existência, sai a história de muitos.
Para contar essa história de identificação imediata por qualquer um que seja empático o suficiente ou que simplesmente tenha ouvido um xingamento aos gritos na rua, Nolasco contou com orçamento ínfimo e inspiração mastodôntica. Na força de uma criatividade que já conhecíamos, o cineasta se arma das melhores possibilidades em seu poder: trata-se de um roteiro que joga para muitos lados, onde todos se revelam acertos. A construção de universo apresentado, que passeia pela metalinguagem, pela auto análise e pela transformação de um compêndio de dor em uma descrição detalhada de personagens e causos que revelam um microcosmo comum a tantas cercanias do país, repletas de assumida intolerância – e, surpreendentemente, tão interessado em quem sofre quanto e em quem causa.
Como ele mesmo apresenta, embora seja o protagonista do filme, “Pequenas Tragédias” não é uma biografia de alguém, mas de uma geografia específica: Catalão, município de Goiás. A leitura, no entanto, é idêntica à que poderíamos fazer a respeito de qualquer regionalidade longe de um grande centro urbano. Se o foco está nessa região especificamente, é porque desse lugar Nolasco tem o que falar. Sua vivência, o talento de observador e a sensibilidade de identificação da padronagem comum que atravessa preconceitos e suga para seu núcleo todas as possibilidades de horror também fazem do cineasta a voz de um tempo, ou de uma especificidade.
Independente do recorte detalhado assumido por um homem em uma faixa etária transitória (não suficientemente longe, tampouco próximo), o sinal de que Nolasco absorve não é apenas lido pelos multiplos acertos de roteiro, mas pela direção que não se furta em empilhar predicados. Como é comum em cineastas que primam pelo esforço lúdico, o diretor de “O Cavalo de Pedro” constrói um universo cheio de texturas passando por uma espécie de “Dogville” próprio, onde uma casa e um supermercado são travestidos de um jogo cênico de imaginação. O filme encara seus desafios com humor explícito e sexo quase (a piada que ele faz com o tanto de preocupação que já deve ter tido com a distribuição no Brasil, graças ao que promove de conteúdo estético, é inspirada), para amadurecer um cineasta cuja evolução não somente é evidente.
A fotografia de Felipe Quintelas é um dos pontos altos de “Pequenas Tragédias”. Responsável pelos balés de “Fantasma Neon” e “Sem Seu Sangue”, aqui existe uma base de investigação formal que não se sustentaria pela já citada criatividade. Quintelas promove um espetáculo de luzes naturalistas, cores berrantes artificiais e um acerto coletivo do material gráfico-estético. Na combinação entre Nolasco e Quintelas, nasce um filme que se propõe a ir além do discurso e também encontrar reflexão através do plano. Nesse sentido, o filme parte da absorção de que aquelas colocações visuais fazem sentido dentro da obra, e também no diálogo que o filme estabelece com quem o assiste. Como Nolasco diz, a preferência é por títulos que gerem sedução causado pelas suas imagens, e não abdicar da beleza.
Com um elenco muito bem costurado, compreendendo as linhas do que foi escrito e sendo coeso em todas as suas colocações, “Pequenas Tragédias” ainda é um filme de Daniel Nolasco. Hoje, se esse significado é traduzido pela coragem com quem não se dobra ao sistema igualmente preconceituoso (embora velado, na arte), o filme também se organiza por essa evolução que ele demonstra das qualidades de Nolasco. Não é apenas um pano de fundo para mostrar uma série de relatos de passado e presente envolvendo muitos casos de homofobia e em como tais fatos ainda são capazes de mostrar-se fatais, como principalmente da admiração que o cinema brasileiro precisa compreender para com esse cinema cuja inventividade está apenas em ponto de partida.




