A Professora de Francês
O rompimento das cercas
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de São Paulo 2026
Roman Polanski e Stephen King se encontram quando Ricardo Alves Jr., um dos cineastas mais promissores do nosso cinema, aponta suas tintas para o horror. Ainda que suas referências sejam uma camada de interesse para “A Professora de Francês”, o que seus códigos pessoais mostram é que Alves passa por um processo de evolução muito peculiar, indo em um sem número de gêneros sem perder o toque e a personalidade. Em seu 15o. trabalho (e sexto longa), a carreira de 20 anos se mostra na plenitude. O mais interessante é acompanhar esse trajeto inteiro, e sentir que para alguns cineastas, o trabalho não significa estagnação; olhar para seu novo filme é descobrir que sua filmografia floresce da maneira mais natural possível.
As descobertas anteriores de Alves revelaram um país com sede de liberdade, estética e narrativa, do qual o diretor de “Elon Não Acredita na Morte” soube valorizar em ângulos e texturas. Seu novo filme não foge do que propõe, mas parece consolidar uma fragrância nova no ar: as liberdades individuais foram conquistadas, e agora é chegado o momento de luta – e sim, o mundo (e o Brasil) estão dizendo isso a plenos pulmões. Então, a cidade não vai encarcerar o amor, ainda que ela seja onipresente e opressiva; os prédios evidentes nos convidam a revisitar certo “Bebê de Rosemary”, também um conto onde o Mal se esconde entre os pilares urbanos de aparente conforto. Mas Alves nos convoca desde sempre a experimentar a desconfiança: em quem confiar em uma noite escura, deserta, chuvosa, possivelmente violenta?
No país em que vivemos hoje, um filme como “A Professora de Francês” se faz ainda mais pertinente, corrosivo e contestador. Se tudo o que é possível ser extraído dele em sua narrativa comunica-se com o estado das coisas, com o horror social que é viver em um Estado que não tolera a ascensão preta, a mulher como ser autônomo e pensante, a sexualidade diversa não ser reconhecida para além de suas conquistas, esteticamente Alves está em lugar ainda mais propositivo. Existe um grande cinema produzido no país hoje que se vale dos códigos de gênero para explorar todas essas saídas de experimentação. Então se o seu diretor busca algo dessa conexão em referências explícitas, também não podemos deixar que tais expressões signifiquem as zonas de descoberta do filme.
Essa busca incessante por significância nos coloca ao lado desse desejo do realizador de explorar o desconhecido, com texturas múltiplas. De muitas formas, “A Professora de Francês” acaba por se tornar uma jornada de autoconhecimento de uma personagem com o lugar de onde ela veio (e não se identifica mais), com um presente que ela igualmente não se vê reconhecida. Essa espécie de retorno da filha pródiga não é feita de maneira natural, mas com um acréscimo incessante de violência de muitas ordens inseridas entre os ingredientes. As coisas vão de uma sutileza encapsulada nos olhares e na aprovação aparente da protagonista e sua namorada, de sua sexualidade mais que aberta, até mostrar um caminho cada vez menos óbvio no tratamento entre pessoas esclarecidas e outro grupo movido por um fanatismo ensurdecedor – mas que se apresenta de maneira dócil, no corpo de uma juventude possível.
De muitas maneiras, apesar do belo elenco (que inclui participações formidáveis de Barbara Colen e Rômulo Braga, até chegar na linda composição de Rodger Rogério e de Elisa Lucinda), “A Professora de Francês” é sobre um embate entre a força de Grace Passô e a suposta fragilidade de Pedro Goifman. Ela, a maior artista do Brasil já há alguns anos; ele, um jovem ator em seu primeiro grande momento. Na tela, revemos um furacão no auge de sua força destruidora e um rapaz de 23 anos que sabe do tamanho de sua responsabilidade. Com um trabalho conjunto que pedem novos encontros entre eles a cada 5 minutos, quase, esse é um dos grandes motivos para assistir a esse filme que não se intimida por parecer barroco na estética mas quase didático aqui e ali nas representações de classe, religiosas ou sexuais.
E como dito anteriormente, é também um grau de evolução do trabalho que vem realizando juntos Ricardo Alves Jr. e Germano Melo, seu roteirista. O cineasta pega o azeitado material desenvolvido pelo escritor e transforma essa tragédia gradual em um espetáculo repleto dos mais primitivos valores possíveis, disponíveis a granel pelos seres em cena. Alves filma tais situações criadas por Melo com algo além de inventividade; ele compreende e traduz o horror para dentro dos aspectos sociais que nos constituem, para determinar uma nova forma das coisas para o cinema brasileiro, que ainda patina no gênero quando não é apresentado pelos especialistas. Com “A Professora de Francês”, eu já sei quem quero ver na frente da batalha junto com Gabriela Amaral Almeida, Dennison Ramalho, Rodrigo Aragão, Marco Dutra, Anita Rocha da Silveira e Juliana Rojas. Alves não deve nada a ninguém.




