4×100 – Correndo por um Sonho

A reprodução das superações

Por Vitor Velloso

Tomas Portella é um cineasta que entrou no radar de parte da crítica cinematográfica brasileira por conta de “Isolados” (2014) e “Operações Especiais” (2015), dois filmes de gênero que procuravam algum tom pragmático nessa relação com o terror e a ação, respectivamente. Em ambos os casos, havia uma forte polarização das opiniões em torno das obras. O primeiro tentava sustentar um terror/suspense cru com uma construção mais lenta, falhava em muitos momentos e dava sono. Já o segundo, sofreu com um relativo boicote misógino, e com as cicatrizes (já visíveis) de “Tropa de Elite” (2007), tanto no campo político-moral, quanto no formal (através da forma publicitária de Padilha), mas conseguiu criar uma unidade interna que funcionava na maior parte do tempo. “4×100 – Correndo por um Sonho”, seu novo projeto, vêm recebendo uma atenção maior dos críticos e uma onda de elogios, de maneira mais uniforme que os anteriores. 

É curioso ver que há uma movimentação maior para escrever sobre o longa que agora abraça o esporte, mostra como o brasileiro é apegado à Olimpíadas e Copa do Mundo (Copa América não é uma grande paixão geral, aliás não há como provar sua grandiosidade diante dos europeus, já que enfrentamos latinos). Nesse tom da grandiosidade de uma superação, fica claro que o projeto vai conseguir uma aprovação imediata, afinal a fórmula é mais que conhecida. O que “4×100 – Correndo por um Sonho” faz é: pegar a receita de bolo de Hollywood, dos subprodutos industriais de superação pelo sofrimento (um barato bem cristão mesmo) como “McFarland, USA” (2015) ou “O Caminho de Volta” (2020). É realmente uma cópia descarada, em todos os sentidos, tanto na linguagem que procura a dramatização profunda em cada plano, com luzes duras e uma música mimética constante, planos em câmera lenta que demonstra o esforço extenuante de cada um dos movimentos etc. 

Não obstante, em São Paulo eles procuram uma tentativa de emular o que vemos dos estadunidenses, agasalhos, luz direta de uma passarela vazada, um diálogo dramático que tenta trazer de volta alguém para o esporte, mas traumas e intrigas impedem, uma toca é retirada para mostrar que há um desarme nesse conflito, alguém fala algo impactante dá as costas e vai embora. É o cúmulo de nosso caráter dependente. Não trata-se de um clichê corriqueiro, estereótipos fajutos ou articulações nesse sentido, é uma explícita entrega à padronização. Essa tentativa de reprodução de um subproduto da maior indústria do planeta apenas confirma que há um projeto de equalização estética que vêm sendo abordado massivamente. Exemplos recentes que exploram essa característica moralista dos EUA, “O Caso Evandro”, que ainda surfou na onda do caso Lázaro, e agora “4×100 – Correndo por um Sonho”. O mais frustrante é notar que Portella se esforça em enquadrar as paisagens que rotulam nossa nacionalidade: é a favela de pano de fundo, é o imaginário dessa superação e toda a construção de um brio que pavimenta o discurso dos piores coaching imagináveis. 

Assim como Hollywood representa suas cidades em três ou quatro características que são projetadas sem piedade na tela: uma ponte cartão-postal, uma estação de metrô cartão-postal, um prédio cartão-postal, uma esquina e por aí vai, o diretor se esforça para fazer a mesma coisa com a realidade nacional. Pelo menos teve a decência de dizer em que cidade estávamos.

Esse espírito que “4×100 – Correndo por um Sonho” tenta resgatar (há muito perdido) nos brasileiros, de enxergarmos a superação acima das próprias vitórias, foi desmoronado pela corrupção moral do país, por um 7×1 que virou piada, que já estampa slogan de produtora de cinema. É de uma profunda decadência ver esse espírito saudosista ser representado como realidade, não resgate. Um verdadeiro subproduto industrial “from USA” com assinatura tupiniquim. É um desastre. 

Mas para não terminar esse texto apenas em notas negativas, duas coisas devem ser notadas aqui. 1) a capacidade da montagem de trabalhar uma grande quantidade de personagens sem perder a mão nesse processo. 2) As investidas que o mercado brasileiro vem fazendo em filmes sobre esporte, uma paixão, sem o nacionalismo de outrora, que precisa ser resgatada através de uma proposta crítica da nossa realidade. Demonstrar que há dificuldades financeiras de parte das atletas e dos técnicos, é de uma superficialidade programática. As instituições desportivas brasileiras não possuem nenhuma moral, pelo contrário, a CBF é uma das recordistas de ex-presidentes que já passaram um tempo na cadeia (apenas um exemplo) e nosso atletismo, apesar de bastante vitorioso, passa por dificuldades inimagináveis. E lá estão os militares para acolherem esses atletas e venderem patentes. Ao menos o filme não se inclina a esse reacionarismo. 

Um adendo, sou a favor da produção de cinema brasileiro comercial em massa, mas não nesses moldes.

Trailer

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