Monstro: A História de Lizzie Borden

O Privilégio da Mulher Branca

Por João Lanari Bo

Monstro: A História de Lizzie Borden

Lançada como a quarta temporada da antologia de true crime de Ryan Murphy e Ian Brennan – intitulada de forma, digamos, apropriada, “Monstros” – foca dessa vez na história de Lizzie Borden, uma pioneira dos serial killers modernos. Num belo dia da primavera de 1892 em Fall River, pequena cidade perto de Boston, Lizzie aplicou uma bateria de machadadas na sua madrasta, Abby Borden, e, em seguida, no próprio pai, Andrew Borden. Foi sangue para todos os lados, nos cômodos e na tela. O título da temporada é mais do que apropriado – “Monstro: A História de Lizzie Borden”.

Lizzie Borden, entretanto, escapou. Sua absolvição em 1893 é considerada por historiadores do direito como um dos primeiros grandes espetáculos jurídicos dos Estados Unidos. A defesa utilizou uma combinação esperta de preconceitos sociais da época, falhas cruciais da investigação policial e uma equipe de advogados de elite para garantir o veredito de “inocente”. A principal estratégia não foi provar quem cometeu o crime, mas sim convencer o júri — composto exclusivamente por 12 homens brancos, mais velhos e religiosos — de que era biológica e moralmente impossível para uma mulher branca daquela classe social cometer tamanha atrocidade.

Os advogados pintaram Lizzie como uma “frágil e piedosa solteirona de domingo”, envolvida com igreja e caridade. O argumento era o de que uma mulher criada com refinamento vitoriano não teria a força física, a frieza psicológica ou a capacidade de desferir dezenas de golpes de machado no próprio pai. Lizzie usou a fortuna da família para contratar os melhores advogados do estado. O chefe da defesa foi George D. Robinson, que havia sido governador do estado de Massachusetts anos antes. A influência política de Robinson pesou imensamente no tribunal, garantindo que o clima fosse muito mais favorável à ré do que à promotoria.

Os críticos em geral não se empolgaram com “Monstro: A História de Lizzie Borden”, mas a audiência sim – alcançou o topo das paradas globais da Netflix. Os produtores agregaram camadas de histórias ao que se passou na realidade – pelo menos do que se sabe dessa realidade, já que o crime continua sendo um mistério não resolvido. O curioso é que dentre essas camadas estão igualmente fatos de true crime. O roteiro cria uma espécie de “multiverso” ou conexão espiritual de assassinas, incluindo aparições da condessa húngara Elizabeth Báthory (século XVI) e um encontro final/alucinação de Lizzie com a serial killer de estradas Aileen Wuornos (Sarah Paulson), sugerindo que Lizzie serviu de inspiração espiritual para ela. Não nenhum nexo real ou registro de que Wuornos tenha moldado seus crimes com base em Lizzie Borden, mas na série da Netflix elas se comunicam o tempo todo em um transe espiritual.

Outras “liberdades poéticas” incluem:

  • Na Série: Lizzie (Ella Beatty) e a empregada doméstica irlandesa Bridget “Maggie” Sullivan (Vicky Krieps) vivem um romance lésbico explícito e planejam os assassinatos juntas como uma forma de libertação mútua.
  • Na Realidade: Não existe nenhuma evidência histórica de que elas fossem amantes ou aliadas. Na manhã dos crimes, Bridget estava doente, limpando as janelas do lado de fora e depois tirando uma soneca no sótão. Elas mantinham uma relação estritamente profissional.
  • Na Série: A famosa atriz de teatro Nance O’Neil (Jessica Barden) aparece antes e durante o julgamento, ajudando ativamente na estratégia de defesa e na manipulação da opinião pública.
  • Na Realidade: Lizzie e Nance O’Neil só se conheceram em 1904, mais de dez anos após a absolvição. Elas de fato se tornaram amigas íntimas e passaram férias juntas na vida pós-tribunal, mas Nance não teve papel algum no processo judicial.

“Monstro: A História de Lizzie Borden” tentou com tudo isso discutir o conceito de “fúria feminina” e as opressões da sociedade patriarcal, ilustrando esse esforço com um festival de decapitações, mutilações e sangue explícito. Muitos se deixaram convencer pelo espetáculo.

As vítimas dessa “fúria” foram o pai de Lizzie, Andrew Borden (Charlie Hunnam), um dos homens mais ricos de Fall River, com uma fortuna estimada em quase meio milhão de dólares na época (equivalente a dezenas de milhões hoje) – e Abby (Rebecca Hall), a madrasta, retratada como uma pessoa amarga, de língua afiada e extremamente difícil de agradar. Ela exige perfeição absoluta na manutenção da casa e sente prazer em maltratar e torturar psicologicamente os funcionários domésticos, além, é claro, de Lizzie. A sugestão é que esta seria a principal motivação do crime.

Na verdade, porém, não há evidência ou registro de que Abby tenha sido uma mulher má, sádica ou fisicamente abusiva com os funcionários ou com as enteadas. Mais uma “licença poética” que dribla o mistério de Lizzie Borden.

True Crime, portanto, mas conforme a credulidade do espectador.

3Nota do Crítico51

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