Pukem Swa
A infância e a História
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra CineBH 2026
Pukem Swa é um menino de 10 anos que passa por um processo de resgate sócio-cultural promovido pelos próprios pais. De alfabetização espanhola, o menino está em vias de comunicação sobre uma nova língua, o “chibcha”, que é a expressão que suas origens andinas nas montanhas da Colômbia sofre tentativa de apagamento. “Pukem Swa”, o filme, é a tentativa de absorver um novo olhar sobre si mesmo, e com isso enxergar também as alternativas primordiais de um povo que luta para ter as próprias convicções respeitadas. Que isso seja observado a partir de uma narrativa de recorte tradicional, “um novo mundo descoberto pelos olhos de uma criança”, ajuda o público a comprar suas interseções. Mas nada é assim tão pouco complexo como a minha escrita inicial poderia fazer parecer.
Samuel Moreno Alvarez está por trás de grande parte da equipe técnica de seu filme: diretor, produtor, roteirista, diretor de fotografia e montador, e em cada um desses lugares, ele está sozinho na função. Dentro desse campo, é ainda mais impressionante que observemos “Pukem Swa” como um filme que não está nos grandes circuitos, porque mesmo em seu local de origem, o filme deve ser trocado por um Blockbuster de fácil assimilação. Mas esse é um filme que gera debate de olhar estético-narrativo que abre uma nova percepção acerca do que é feito o tempo todo. O resultado não provoca indiferença, e sim uma análise aprofundada de seu protagonista, sendo criança mas também podendo servir de uma manobra de análise.
“Pukem Swa” segue seu personagem-título interessado nos seus afazeres e mundanices; se ele tem aulas da língua nativa dos seus ancestrais, estamos lá, mas também estamos se ele está brincando no parque com sua irmã menor. É da combinação entre essas duas personalidades que nasce o que o filme tem de mais rico, que é a tentativa de colocar seu protagonista em conflito com uma ambição puramente política e pouco avessa à sua idade, sem esquecer que se trata de uma criança em cena, com suas demandas específicas. Somos envolvidos pelo que Alvarez sugere, que é acompanhar esses dois modelos de criação, que não se chocam e apresentam um quadro amplo sobre uma cultura singular.
A partir de determinado ponto narrativo, o filme agrega outro personagem ao seu panteão, o pai de Pukem. Esse homem é o responsável por desconstruir o pequeno dos laços que o tornam cosmopolita; ou talvez seja melhor dizer que a ideia de “Pukem Swa” não seja alijar o personagem de uma tentativa de globalização, mas de tornar seus hábitos históricos ainda vivos no indivíduo das próximas gerações. As rodas de conversa entre pai e filho ao redor da fogueira, no entanto, são a um só tempo bem-vindas e também didáticas em um olhar nada circunscrito. É uma maneira de apresentar o espectador menos afeito a esse universo de uma maneira que outras perguntas não sejam feitas a seguir, tentando tirar qualquer dúvida do ar.
Existe também, como em grande parte dos filmes selecionados para a CineBH 2026, uma preocupação etnográfica excessiva que vez por outra ameaça torcer demais as possibilidades de discussão de seus temas. “Pukem Swa” obtém ainda uma saída sem a força desse enforcamento, mas suas estratégias imagéticas propiciam um olhar que costura coisas aparentemente terciárias, provocando uma sensação de desarranjo de sua proposta. Quando o filme retorna para as origens desse olhar infanto-juvenil, ao montar os tempos disparatados para seus personagens, no presente e no futuro, se livra desse didatismo para conversar de igual com obras de reconhecimento mundial, como “Boyhood – Da Infância à Juventude“.
É um tempo que passamos como se estivéssemos em dois estados temporais distintos – conectados a uma infância comum, a rotina e seus pequenos encantos, mas igualmente unidos a uma ideia de História que precisa ser resgatada, e mais uma vez reinterpretada. Através de um jogo de observação diante do que está em cena de maneira concreta e o que se espera para o futuro, ter a consciência de que o futuro só será possível com o conhecimento do nosso arco maior é um clichê real e forte. Que, ainda que soe como uma ação reencenada para os adultos, é um item de primeira necessidade à cada futuro cidadão.




