A Testemunha

True Crime, de verdade

Por João Lanari Bo

A Testemunha

Uma das perversidades colaterais do nosso tempo é a popularidade do subgênero true crime – a expressão tornou-se uma espécie de chancela para o espetáculo, que invade as telas do streaming. Não é uma novidade absoluta, desde o início do cinema narrativas de crimes reais foram exploradas, mais ou menos carregadas de ficção. “História de um crime”, feito em 1901 por Ferdinand Zecca, inspirou-se nos fait divers dos tabloides e jornais sensacionalistas franceses da virada do século, que documentavam o comportamento e a trajetória dos criminosos violentos.

Em 1992, Alex Hanscombe, a testemunha ocular do crime, presenciou o assassinato brutal de sua mãe, Rachel Nickell, em Wimbledon Common, no sudoeste de Londres. Ela, uma loura radiante, foi morta com 49 facadas, deixando o filho órfão e o marido, André Hanscombe, professor de tênis e motoboy de entregas, à deriva. Seu pai era imigrante do Zimbábue, onde trabalhava como professor. A mãe, inglesa, era secretária. André passa a viver o luto pela perda da sua parceira enquanto tenta, desesperadamente, proteger o filho, da imprensa ávida e inescrupulosa, do sistema policial atônito e ineficiente, mas também, e sobretudo, das dificuldades que advêm da hercúlea tarefa de sobreviver a um trauma dessa magnitude.

A Testemunha”, minissérie criada pelo britânico Rob Williams e difundida pela Netflix em 2026, inscreve-se na tradição de crimes reais explorados pelo sensacionalismo. Consultada sobre o papel da imprensa no drama de Alex e André, a IA respondeu da seguinte forma:

A imprensa sensacionalista atua como uma força invasiva e destrutiva que corrompe o processo de luto. Em vez de apenas cobrir os fatos, os tabloides britânicos transformam o brutal assassinato de Rachel Nickell e a vulnerabilidade da criança sobrevivente em um espetáculo público de exploração moral.

Ou seja, os tabloides funcionam como mediadores do drama, não apenas explorando mas criando um índice de veracidade para o espetáculo, ajudando a convencer a audiência sobre o true crime que se passa diante dos seus olhos. A diferença com boa parte das séries que se utilizam da chancela, entretanto, é que na produção de Rob Williams o crime não é objeto de uma dramatização explícita – às vezes, a verdade não segue a estrutura dramática que esperamos da ficção. “A Testemunha” respeita isso, mesmo que tal respeito, ocasionalmente, torne a série menos envolvente – mas não menos interessante.

Para começar, são apenas três episódios – poderiam ser dez, caso cada detalhe desse drama horroroso fosse esmiuçado e esticado, com material adicional inserido para efeito dramático, fazendo o tempo passar bem mais devagar e capturando a ansiedade do espectador através de roteiros ardilosos, associados ou não a algoritmos e outras parafernálias. O que guiou os produtores foi um rigor quase sociológico na reconstituição dos eventos, acrescida das tonalidades psicológicas indispensáveis. Um rigor que exclui de cara, por exemplo, a ficcionalização do momento do próprio crime, que ninguém, exceto uma criança de quase três anos, viu. A cena do crime é quase um não-lugar, um produto do imaginário.

A vida de pai e filho virou de cabeça para baixo, da noite para o dia, literalmente. Como não se trata de uma trama policial convencional, “A Testemunha” concentra-se nas enormes consequências para Alex e André. Não é, como se pode imaginar, algo simples, não existem soluções fáceis que os roteiristas possam imaginar. É algo de uma complexidade indescritível, desde o plano jurídico – como uma criança tão pequena poderia identificar o responsável por um ato tão hediondo? – até o doloroso percurso psicológico que ambos, pai e filho, são obrigados a atravessar. Para piorar, os abutres da imprensa, sempre à caça de novos escândalos, terminam motivando a partida da família para a França, e depois para a Catalunha, em busca de um recomeço possível.

O assunto, desnecessário enfatizar, dominou a imprensa inglesa de maneira avassaladora. A tensão entre o instinto paterno e a necessidade da investigação se instala, inevitavelmente, na relação entre pai e filho. A minissérie acompanha os dois até começo dos anos 2000. Mas para a audiência contemporânea, igualmente ávida por sensações, trata-se, em princípio, de um fait divers, como dizia Roland Barthes:

O fait divers é uma “informação total” e autossuficiente. Trata-se de um relato do inusitado que funciona como uma estrutura fechada: ele não exige nenhum contexto histórico ou social prévio para ser compreendido por quem o consome

Consumimos o drama de Alex e André para, em última análise, diria Barthes, tentar preservar a ambiguidade entre o racional e o irracional, diante dos sinais e das respostas incertas sobre os fatos absurdos que ocorrem à nossa volta.

4Nota do Crítico51

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