Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
Medo e delírio
Por Francisco Carbone
Festival de Cannes 2026
Tantos textos (meus e de colegas) repetem nos últimos anos uma máxima, bem verdadeira mas que já não cabe mais repeti-la, então espero tocar nesse lugar comum já pela última vez em um bom tempo: o terror atualmente vive um dos seus melhores momentos, na História. Não que tenhamos poucos exemplares de brilho ao longo do século da arte, mas têm se concentrado nos últimos anos uma quantidade enorme não apenas de grandes filmes, mas de propostas absolutamente diversas dentro de um diapasão que não para de se expandir. “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” é um exemplar que vem se juntar a enorme fauna de possibilidades que o gênero vem apresentando para comunicar-se de maneira diversa junto aos seu público comum, sem deixar de explorar as possibilidades infinitas de comunicação com o próprio cinema.
Independente do campo expandido para materiais autorais, de ousadia estética evidente, ou da predominância da assinatura mesmo em projetos da grande indústria, algo como “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” surge com sua costura expressiva. Existe consciência no que é feito em cena, e isso não é traduzido de uma maneira mecânica pelo diretore Jane Schoenbrun; leia-se, não há um mecanismo inorgânico ao filme para essa proposta. Tudo o que é pensado e realizado para a produção se desenha de maneira naturalizada em cena, mesmo o que é profundamente artificial vida a cena de abertura. E taí, talvez esse jorro longínquo de sangue de CGI aos céus demarque um território estético que permita a suas relações emocionais uma estrutura aproximada.
Porque na espinha dorsal de seu conteúdo, temos apenas duas personagens: a diretora Kris Williams e uma quase-estrela do passado, Billy Presley. A primeira acaba de ser contratada de uma longeva série de filmes de terror iniciada nos anos 80, “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte”; como tantos “Sexta-Feira 13” e “A Hora do Pesadelo” reais, na ficção mais de 10 filmes foram criados, indo do mais básico até o literal espaço sideral. A segunda foi a protagonista do capítulo inicial, e desde então, não mais estrelou coisa alguma no cinema, transformando-se em uma figura reclusa. A ideia de que isso já foi visto anteriormente é saborosa o suficiente para que o roteiro de Schoenbrun possa capitalizar em cima do que já conhecemos, e passe a gravitar em torno da humanização e naturalismo daquelas relações, desenvolvidas a partir do histrionismo gráfico já citado, mas que igualmente criam algo especial.
Porque o filme não se apequena diante dos excessos, ele os incorpora ao pequeno e traduz essas características, unindo-as a uma mesma essência. Temos então um título que é a um só tempo essa homenagem não apenas ao cinema de horror de 40 anos atrás, mas além disso, é uma crítica feroz a esse modelo de indústria que escraviza e expele o que não é industrial. O autore faz isso exatamente dentro do modelo personalizado do cinema indie, mas sendo um filme estadunidense de alcance universal, com duas estrelas protagonistas e uma aceitação dentro de uma das maiores vitrines cinematográficas do mundo, o Festival de Cannes – inclusive vencendo a Queer Palm por lá. O resultado é híbrido cena a cena, que encanta justamente por apontar os dois lados possíveis como lados que podem integrar-se em benefício da expressão fílmica.
Em paralelo a todas as colocações que o filme coloca acerca de Hollywood, da ridicularização do poder, da decadência da nostalgia mercadológica, também há espaço para uma exaltação da visão de autor, e da diferença que essa voz traz. Dessa forma, temos um filme que avança sobre discussões atemporais, mas não ousa diminuir o poder imaginativo do próprio cinema, sem deixar de cercar-se das certezas do mesmo. Como encerrar suas protagonistas em uma atmosfera que nunca tenta não ser absolutamente cinematográfica, da sequência de abertura, indo até os créditos brilhantes até chegar no parque que Kris visita, e onde hoje mora Billy. Um lugar que não tenta fingir para o espectador que é outra coisa se não o microcosmo do que tenta brincar; seus imensos painéis são hipnotizantes, e nos remetem a um recorte barraco, que é quebrado pelo colorido deles mesmos.
Sem atropelar a si mesmo, “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” ainda é uma celebração das verdades e escolhas do feminino. Das descobertas do prazer e do trocadilho sagaz entre as trajetórias das personagens, uma jovem desmotivada emocionalmente e uma mulher madura no auge de suas possibilidades. Além disso, ainda temos a flagrante metáfora da alcunha do vilão da cinessérie fictícia, Pequena Morte, um batismo que deixa explícita sua referência a expressão francesa petite mort, uma classificação livre para o orgasmo. Além de referenciar a obra de Schoenbrun, isso ainda metaforiza a situação juvenil de filmes slasher, que geralmente condena os personagens que buscam o sexo em meio ao banho de sangue. Uma sacada tão simples quanto inspiradíssima, é bom dizer.
É em busca desse sintoma máximo do desejo que parecem estar suas Kris e Billy, duas mulheres em tempos opostos vividas com intensidade por Hannah Einbinder e Gillian Anderson; em um mundo normal, estariam cotadas a todos os prêmios da indústria. Como não vivemos a realidade onde algo tão sofisticado consegue se fazer notar em meio às obviedades, nos resta celebrar cineaste tão feroz em suas ideias e em sua realização. Com tanto a dizer e que efetivamente diz, com um raro poder de sedução imagética que o cinema comercial geralmente delega aos flashes de grandiosidade. Em “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte”, parte-se dessa ideia micro para chegar no macro das relações humanas.




