Jankee
O amor e o poder
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra CineBH 2026
Quais são as responsabilidades cinematográficas e emocionais de um realizador na confecção de um filme? Precisamos conversar sobre o que Yamel Thompson faz em “Jankee”, mexicana estreante como diretora, que transforma parte de uma história vivida por ela mesma em material de reflexão e apreciação coletiva. O mais curioso é perceber que, como dizem por aí, talvez ela estivesse produzindo provas contra si mesma, e o filme talvez seja a principal evidência de seus crimes; ou, brincadeiras (ou não) à parte, suas irresponsabilidades, que acabam saindo da esfera da direção e indo parar em um campo de exploração de outro indivíduo. Suas soluções, ainda que no intuito de se proteger também, resultam em um filme complexo e de camadas que podem conversar com elementos de exploração que a História nos apresentou.
Yamel é uma estudante de Cinema em Cuba quando conhece Jans, um pescador local, jovem como ela. Ao filmar sua realidade, ela percebe muito rapidamente que existe um interesse mútuo entre eles e que vai além de uma aventura etnográfica. Conforme essa proximidade se transforma em paixão correspondida, Yamel passa a dedicar tempo considerável a filmar sua história, colocando em Jans uma espécie de responsabilidade, como protagonista de seu filme. Protegida pela lente, Yamel é a pessoa que filma os acontecimentos, e “Jankee” passa a concentrar boa parte de sua narrativa na perseguição dessa relação, que tem prazo de validade. Mas o filme não é exatamente uma espécie de “Antes do Amanhecer” latino, porque algumas camadas sociais os separam, entre outras coisas. E isso cria também uma atmosfera sócio-política indelével, e que acaba por transformar o que vemos.
A relação entre os personagens não é exatamente de costura única, ainda que seus sentimentos sejam verdadeiros – e o filme nunca os questiona. Mas sim, “Jankee” parte do princípio de que existe sim algum beneficiado, ou melhor dizendo, uma gangorra que fique muito mais tempo com um indivíduo no andar de cima. E que seus personagens não estejam alheios a essa situação, como quando Jans decide que não quer mais servir de modelo para a cineasta, e a conclama a viver o que eles estão sentindo; que a filmagem seja complemento, e não razão. Essa cena não somente empodera o protagonista, como o coloca como agente ativo da ação, depois de tanto depender de uma outra validação para existir.
Como outros filmes que retratam a realidade cubana, “Jankee” carrega um fascínio em seu delinear. Esse espírito de sedução, que é inerente às imagens da ilha, ao seu espaço político e aos personagens que vazam da sua geografia, é o que pode também fazer acender uma hipótese exploratória em sua criação. Mais uma vez, não é necessário que essa ação seja voluntária e/ou agressiva; muitas violências nascem de intenções sublimes. Não é uma condição maléfica a que observa seus objetos como matéria de pesquisa, mas sim muitas vezes isso é algo meramente compulsório. Cabe à análise de uma obra como essa se ater não apenas às linhas de compreensão, mas principalmente às entrelinhas.
Por isso é tão bom quando seu protagonista exija também promover imagens que o contemplem enquanto realizador, já que o material que é servido no filme pertence também aos seus atos e sua entrega. Yamel não cede na primeira viagem, mas na segunda percebe que precisam ambos tomar partido para que o equilíbrio não os faça mal enquanto amantes, e enquanto provedores de imagens e reflexões. Cabe ainda mais a ela que tal material não suscite caráter exotizante, e que demonstre seu interesse ao que ele pode fornecer enquanto pensador de si mesmo e de seu lugar no mundo. Quando “Jankee” consegue saltar da tela e mostrar porque tais protagonistas são encerrados em problematização, mas que suas relações (micro e macro) os revela e também ao seu tempo, o filme ganha liberdade e altivez.
Tratando seus personagens como senhores de suas falas, com voz particular a debater seus sentimentos e sua individualidade, “Jankee” é um filme de ideias jovens mas absolutamente atento à sua lógica geopolítica. Inclusive, é corajoso que Yamel se mantenha no lugar que apresenta enquanto realizadora, porque seu filme é um risco ambulante que tende a desagradar tantos por sua postura cuja ambiguidade é ponto pacífico. A maneira como olhar para a realidade do cara pelo qual está apaixonada, a maneira como luta para tê-lo (de volta, inclusive), e o fato de entender que quem precisa ceder é ela mesma, coloca as configurações do filme nos lugares exatos.




