Telúrica, a Íntima Utopia
Extraordinárias banalidades
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra CineBH 2026
Mariana Lacerda constitui em “Telúrica, A Íntima Utopia” uma ideia de trabalho coletivo que abraça os personagens que filma e a organizadora/diretora dos mesmos, Elisa Band. Ao lado desse grupo, não é possível organizar uma autoralidade que não seja coletiva para esse filme, que é colaborativo em sua gênese. Estamos literalmente ao lado de uma companhia de teatro, sua diretora e a autora do projeto cinematográfico, que elabora visualmente (e narrativamente também), a construção de ideias em torno desse grupo sui generis de atores. Ao longo de 100 minutos, conhecemos um pouco – e de alguns personagens, ainda mais – dessas vivências que, como diz a sinopse, “indivíduos cujas almas sentem vacilar o mundo”.
A Companhia de Teatro Ueinzz vai além das atribuições naturais de similares em suas ocupações. Os processos pelo qual estão unidos profissionais de ensino e atores, também acabam se ampliando para práticas de ajuda terapêutica, e muitas vezes até psicológica, o que nos leva a inúmeras perguntas, sendo a principal delas “e até que ponto um ator não-neuro divergente se comporta de maneira tão mais tradicional que essa?”. As respostas variam de acordo com o que é percebido em cena; a cena de “Telúrica, A Íntima Utopia”, e não a cena teatral. Em certo ponto, investigar tais personalidades tão ricas e cheias de idiossincrasias revelam um tanto da arte cênica, e um tanto ainda maior da personalidade humana.
No palco, a ideia é encenar a criação do universo, a existência dos seres e nossa percepção coletiva entre os seres vivos de todas as ordens. A partir da liberdade que a coordenadora, diretora e autora Band empresta para seu ofício, nasce uma apresentação ainda mais única do que expressões teatrais são, em sua teoria. Dos ensaios e diálogos individuais, surgem histórias particulares de superação sempre tratadas de maneira singela, sem grandes arroubos de representação. O que temos na telas são pessoas reais retratando suas dificuldades emocionais, que “Telúrica, A Íntima Utopia” traduz de maneira igualitária para o espectador. São tipos que poderíamos encontrar em suas vivências tradicionais, e que aqui estão em sua persona artística, e com isso essa sensibilidade é ainda mais aflorada.
O que acaba contando, para Elisa e para Mariana, é a escuta delas em relação a esse grupo de pessoas. Está em Elisa esse dom, de conseguir comunicar-se com cada um dos atores de sua montagem, de igual para igual, sem infantilizar seu olhar ou paternalizar seus interlocutores. Pelo contrário, muitas das coisas ditas inclusive são tratadas de maneira coloquial, justamente para que tais indivíduos conte com compreensão coletiva. “Telúrica, A Íntima Utopia” é uma demonstração de entendimento coletivo, e da descoberta de corpos empáticos, que se preocupam uns com os outros, e ainda se prostram da maneira adequada com quem não está em seu aspecto.
Em sua detalhada descrição de cada um dos movimentos em cena, nos parece que o filme negligencia algum personagem em nome de outros (como o cinema exatamente costuma repetir isso). Mas, ainda que em formatos menos amplos, cada um dos sujeitos em tela, consegue espaço para a expressão em determinado momento. Como a moça oriental cuja presença chama muita atenção desde o início, e o rapaz que faz mapa astral para outros de seus colegas – e só ficamos sabendo disso com o filme bastante avançado. Isso não se classifica como um problema justamente porque o filme avança para esse lugar sem deixar de disparar novas considerações acerca de seus atores.
Quando finalmente Lacerda acompanha a apresentação, os saltos do espetáculo deixam claro que a ideia era assistir ao seu elenco, e não exatamente ao seu ofício (embora isso seja intencionalmente intrínseco a ambos). “Telúrica, A Íntima Utopia”” não exatamente estaria tentando introduzir o ponto final dessa trajetória, porque entende que não há costura possível a eles que não a da continuidade e do efetivo trabalho braçal, com a catarse colocada em lugar distinto, porém no entendimento de que se trata de mais um elemento efêmero. Um trabalho de observação dessa realidade de cada momento, no que isso tem de mais raro e ao mesmo tempo de mais passageiro.




