Dawson City: Tempo Congelado
Arqueologia das Mídias
Por João Lanari Bo
Festival de Veneza 2016; É Tudo Verdade 2017
O crítico e ensaísta alemão Thomas Elsaesser escreveu um belo livro, “Cinema como Arqueologia das Mídias”, publicado no Brasil em 2018, com o objetivo de repensar a história do primeiro cinema e o impacto das tecnologias digitais. O conceito de “primeiro cinema” (ou early cinema, que abrange aproximadamente o período de 1895 a 1915) é um dos pilares mais importantes para a arqueologia das mídias, pois ele serve como um espelho histórico para a nossa era digital. O cinema dos primeiros tempos não era apenas uma versão “primitiva” ou incompleta do cinema clássico de Hollywood, mas sim um campo aberto de experimentações tecnológicas e narrativas.
O documentário de Bill Morrison, “Dawson City: Tempo Congelado”, finalizado em 2016, pode ser visto como a materialização cinematográfica da arqueologia das mídias defendida por Elsaesser. O filme narra a descoberta, ocorrida em 1978, de 533 rolos de nitrato de cinema mudo (anos 1910 e 1920) que haviam sido enterrados em Dawson, localizada no extremo norte gelado do Canadá e perto do Alaska, sob uma pista de hóquei. Morrison reconstrói a história da cidade – catapultada por uma frenética corrida do ouro que começou em fins do século 19 – e do próprio cinema usando esses fragmentos recuperados, trechos de inúmeras produções da época, além de fotos e pequenos adendos, como o inesquecível “Em busca do ouro”, que Chaplin realizou em 1925.
Os rolos de filme achados na escavação foram descartados porque Dawson City era o fim da linha da distribuição cinematográfica naqueles tempos de aventuras e conquistas. Custava caro demais devolvê-los aos estúdios, então eles foram jogados em uma piscina desativada e soterrados. O filme de Morris mostra, em última análise, que a história do cinema pode ser feita de descarte, esquecimento e acidentes geológicos, em lugar de uma evolução lógica e preservada.
“Dawson City: Tempo Congelado” foi baseado numa coincidência histórica: a última metade da década de 1890 testemunhou tanto a invenção do cinema quanto o surto migratório deflagrado na região de Dawson, anteriormente habitada por povos nativos. Em pouquíssimo tempo, hordas de garimpeiros chegaram em massa, fundando Dawson City — uma cidade de mineração típica do Velho Oeste que, em poucos meses, atingiu uma população de 40 mil habitantes. Estima-se que 100 mil pessoas tenham se arriscado na empreitada, atraídas pelo sonho do enriquecimento rápido. O filme de Chaplin é ambientado na conhecida “Corrida do Ouro de Klondike”, no território de Yukon, cujo epicentro era Dawson City. A icônica foto de uma interminável fila de garimpeiros subindo a montanha em meio a neve, conhecida como “The Golden Staircase”, foi a inspiração de Chaplin. A foto é de autoria do sueco Eric Hegg, que logo montou um comércio de fotos.
Muitos oportunistas e “empreendedores” foram também atraídos pelo surto. O avô de Donald Trump, Fred Trump, foi um deles: abriu um bar-restaurante que funcionava também como bordel, segundo algumas versões. Outros investiram em exibição de filmes, evoluindo das sessões improvisadas nos bares para salas de cinema. Quando a nova mídia se consolidou no início do novo século, os filmes estreavam nas grandes cidades e demoravam pelo menos dois anos para chegar à distante Dawson City.
O centro de “Dawson City: Tempo Congelado”, se é que é possível definir dessa forma, são fragmentos de 372 filmes nos 533 rolos. A grande maioria é de produções hollywoodianas – apenas 2 % estrangeiros, ingleses e francesas – estrelando personalidades famosas à época, como Pearl White, Harold Lloyd, Douglas Fairbanks, Lon Chaney, Helen Holmes, e Grace Cunard. Um destaque é curta de Griffith, “Brutality”, de 1912. Um inestimável material de cinejornal completa o lote, hoje depositados no Arquivo Nacional do Canadá. Bill Morrison optou por incluir muitos trechos sem recuperação digital da imagem, evidenciando a incontornável passagem do tempo (Elsaesser aprovaria).
A epopeia do ouro em Klondike foi objeto também de registros literários, em particular de escritor Jack London, que andou pela região e não achou nada. Deixou, entretanto, belos textos, um deles adaptado para cinema por Lev Kulechov em 1926, conhecido pelo título em inglês, “By the Law”. Ambientada em um local remoto, gelado e muitas vezes claustrofóbico em Yukon, a história acompanha uma equipe de cinco garimpeiros — originários da Europa Ocidental — que descobre uma grande jazida. London era popular na nascente União Soviética, lido inclusive pelo líder Lênin.
O ímpeto dos garimpeiros em torno de Dawson City esvaiu-se em poucos anos. A extração do ouro acabou nas mãos da família Guggenheim, que comprou terras e instalou um complexo industrial de mineração.
Não durou muito, faliu. Hoje a principal atividade em Dawson é o turismo.




