Irmã
Liberdade para as borboletas
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival de Cinema de Vitória 2026
Anderson Bardot parece um cineasta pronto desde sua estreia. Um daqueles casos onde a experiência ajuda a apurar o talento que já estava ali, germinado. O mais incrível em seu caso: “Inabitáveis” e “Procuro Teu Auxílio para Enterrar um Homem” não são seu ápice, ainda. Nem “Irmã”, seu novo filme, o é – está claro que seu talento já deu todos os sinais da existência, mas que ele ainda se prepara para o seu grande momento, que o futuro com certeza trará. Mas o material a que temos sido apresentados é esse aperitivo de um futuro que irá chegar, e que vem sendo gestado de maneira cuidadosa, quase como um ourives. É puro o que nasce de sua lente, um sinal de evolução contínua, tanto de linguagem quanto de depuração temática e estética.
“Irmã” ainda conversa com elementos abstratos incomuns ao que o cinema narrativo mais tradicional ainda persegue, e que é uma bela característica de Bardot; ainda bem. Pra quê cineastas e tratativas de filmografia que convergem umas nas outras? O que esse autor busca não precisa ser entendido na igual medida (e nas mesmas classificações) por todos, porque Bardot pede passagem a um cinema de sensorialidade mesmo dentro de um recorte assertivo. Então quando seu interesse narrativo for algo parecido com um tratamento de descoberta pessoal e emocional, um pedido de socorro frente à violência com que incorremos na primeira infância, isso não será desenhado da maneira esperada por ele; mais uma vez, ainda bem.
Na sensibilidade bastante aguçada de Bardot, esse menino assolado pelas marcas de uma homofobia que nasce dentro de casa, transforma-se em liberta borboleta cheia das mais lindas cores. O filme acompanha esses dois percursos, a criança sendo assolada diariamente por muitos tipos de violência (não apenas física), e a mulher adulta que ainda luta para vencer as marcas desses horror. “Irmã” não aposta em um olhar óbvio para encontrar tais caminhos; o faz pelo meio da sempre poética câmera de seu cineasta, que recusa-se a enxertar clichês dentro de suas narrativas. Desconstruindo o que se imaginava esperado para soluções de impacto visual e emocional, o filme trilha uma particular certeza em relação ao que o cinema pode propor.
Quando acessamos “Irmã”, entendemos que Bardot não quer nos envolver em imagens de dor, mas que seus dispositivos podem ainda assim encontrar saídas dentro de configurações do emocional. O link com nossas próprias passagens pode sera aberto, mas o autor tem a rota aberta para uma narrativa de experimentações estéticas. Desse lugar, nascem as imagens mais especiais que o Festival de Vitória produziu até agora, com a fotografia de Amanda Lima sendo responsável por um entendimento concreto do que está sendo aventado. Somos levados para essa atmosfera que conjura os dois lados, tanto é receptáculo da beleza imagética, quanto nos permite acessar lembranças de um passado de traumas, como a protagonista investiga.
No caminho dessa mitologia, Bardot adiciona o que costurava em seus filmes anteriores adicionando um pedaço de auto aceitação. Mais do que uma carta de amor endereçada a um bem querer maior, “Irmã” é, psicologicamente, como ouvir os conselhos que nós mesmos damos a outras pessoas, sendo que também precisamos deles. Tudo o que está sendo dito para aquela narração em off, a leitura de uma mensagem para o futuro, é também um acalanto para a alma ferida que se apresenta em cena. Não há controle sobre a dor que possamos sentir anos depois dela ter sido causada, mas o filme trata de mostrar tal mecanismo para tornar-se forte como sendo essencial para a cura.




