Pequenas Criaturas

Geração Coca-Cola de volta ao futuro do presente

Por Fabricio Duque

Pequenas Criaturas

No dicionário, “criatura”, substantivo feminino, é “pessoa ou coisa, resultante de uma criação”. No sentido figurado, a “cria” é “pessoa ideológica ou intelectualmente tributária de outra”. No meio popular, esse ser ganha o tom rotulado da estranheza, como alguém que sai da “ordem social” mais padronizada. Parece algo ininteligível, de entendimento inacessível, utópico até. Essa atribuição quando composta com a outra palavra “pequena” vira praticamente um composição pejorativa daqueles que são “esquisitos” e “reprováveis”, por apenas possuírem gostos e manias diferentes. Assim, desde crianças sofrem bullying dos valentões da escola e descaso da própria família. Ficam à deriva como “pobres criaturas”, que o realizador grego Yorgos Lanthimos definiu muito bem em sua fábula de realismo fantástico.

Aqui, na terra do samba, carnaval e futebol há também uma criatura ainda incompreendida (e “futurista”): Brasília (“não é tão ruim quanto parece” e “que é o lugar que mais tem disco voador”), a capital do país, cenário que serve como metáfora sócio-comportamental para que a cineasta Anne Pinheiro  Guimarães construa sua história coming of age de crianças numa família que recebe os impactos das transformações do próprio Brasil nos meados dos anos oitenta. “Pequenas Criaturas” foi exibido na mostra competitiva do Festival do Rio 2025, saindo com o Troféu Redentor de Melhor Filme. Mas o que faz deste filme uma das obras mais imperdíveis do cinema brasileiro, quiça mundial? A resposta mais evidente e direta está na construção de seu tempo narrativo, que acontece na suspensão metafísica do real, de forma naturalista, pragmática e espirituosa, entre a dosagem precisa da emoção empática e reação intimista. Mas não só essa. Podemos dizer que ainda há aqui um conjunto de técnica e de interpretação genuína de seus atores, que elevam (e evocam) a alma do método de Stanislavski.

“Pequenas Criaturas” é, acima de tudo, um poema fluído de representação direta da própria existência humana (com propósitos diretos e funcionais), em instantes fragmentados de vida acontecendo em fluxo (o timing realista, o tempo da piscina, o tempo do cigarro – nós também esperamos – e é isso a maestria de todo o filme), permitindo inclusive usar a máscara de gorila para se possa buscar força no reino animalesco. Há uma atmosfera nostálgica (quase etérea) de mundo abandonado. De uma época que não havia celulares, que crianças brincavam, que lidavam com roubos de bicicleta, entre a inocência perdida, a imaginação projetada e o tédio fantasioso de tempo e liberdade demais. Não havia filtros, politicamente incorretos e “gatilhos-traumas” nos anos oitenta. Fumava-se em restaurantes. Tinha briga de irmãos. Para ligar para alguém era precisa discar números num telefone físico. Com fio. Com pilhas no rádio e cheiro de gasolina. E uma mãe podia sim viver com histeria entre o limite da raiva, quase a explodir, e a dar tarefas ao filho. Sim, tudo ali existia na vida prática, sem pesar demais na racionalidade teórica.

Quando disse da técnica, uma delas é a fotografia, que se apropria com pertencimento dessa nostalgia saturada ao real evocado à luz de uma Brasília meio envelhecida, como se importasse esse período distante. Outro desdobramento metafísico de “Pequenas Criaturas” vem da vida da natureza, nos remetendo por exemplo a insetos (os pontos de conexão), seres minúsculos, indefesos e vulneráveis. Sim, todo e qualquer humano também pode ser incluído nesta lista. Ninguém escapa, sem exceção, visto que a qualquer momento também podemos morrer (e deixar de existir), mesmo a resistência do filho “adulto”. Tudo aqui busca a percepção analógica.

Outro ponto de extrema importância, e que faz de “Pequenas Criaturas” uma obra-prima é o cuidado com a interpretação de seus atores. Como disse, cada um do elenco, não só os protagonistas, entregam-se completamente, neutralizando e normalizando a sensação coloquial de cotidiano. Carolina Dickmmann não está sozinha em cena. Está muito bem representada ao lado de Caco Ciocler, Letícia Sabatella (núcleo adulto), Théo Medon e Lorenzo Mello (núcleo infanto-juvenil – que preciso reforçar que suas atuações foram irretocáveis). Todos juntos funcionam como qualificação do conjunto, o que Sergei Eisenstein define em “O Sentido do Filme”, por “autenticidade da esfera da técnica interior”. “É o estado, a sensação, a experiência sentida, em consequência direta em grau máximo de expressividade”. Sim, aqui cada ator naturaliza seu personagem a ponto dissociá-lo da própria construção.

Anne quer em “Pequenas Criaturas” a observação, à moda autoral da diretora Carla Simon.  Aqui também não se quer problematizar “caras esquisitos que dão balas para crianças”. Tampouco criticar “moscas no salgado” e a qualidade “horrível” do cachorro-quente. Muito menos julgar revistas de “mulher pelada”. Os pais aqui deixavam os filhos soltos demais, porque não havia “perigos” instagramáveis, e sim o “Olhar 43” do grupo RPM de Paulo Ricardo com “seu corpo é um fruto proibido”. Tudo tinha bom senso, auto-defesa (nunca vitimismo), uma melancolia intrínseca, ora pessimista e desistente, e muito Legião Urbana e suas “festas estranhas com gente esquisita”. “Tudo que é bonito, é triste também”, diz-se os “filhos da revolução; da geração Coca-Cola”. Havia conversas e tipos de gente. Isso tudo está na sensação de assistir a este filme. Toda a reconstrução orgânica de uma época, de The Clash e Ramones.

“Pequenas Criaturas” usa o tempo a seu favor. E é exatamente por isso que o filme nos oferta uma experiência-cápsula sensorial de volta a um tempo perdido, em que ainda entendíamos o mundo. Que ainda nos sentíamos pertencentes ao cotidiano que vivíamos.

5Nota do Crítico51

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