O Véu

Cinema de gente grande 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Cine-PE 2026

O Véu

Na metade de um festival, os espectadores começam a se perguntar algo como: “o que nos trouxe até aqui, esse ano?”, na ânsia de encontrar a experiência definitiva do evento. Dentro do Cine PE 2026 ou fora dele, um filme vai ficar – “O Véu”, de Gabriel Motta. Ainda que os próximos três dias nos apresente obras tão ou mais vibrantes que essa, temos nesse curta-metragem todos os motivos para agradecer a visita. Ao longo de seus quase 20 minutos, somos literalmente assombrados não apenas pela narrativa que se desenrola na direção de um horror de tintas contemporâneas, mas pelas imagens incandescentes que Motta imprime em tela. É muito mais do que poderíamos imaginar ao adentrar a sessão, mas fica a certeza de quem alguém (ou melhor, ele) entendeu bem como manejar um ofício milenar do estrangeiro – filmar o gênero – como agregar brasilidade a ele. Essa combinação é sim a mais complexa.

O filme nos apresenta uma religião particular, desenhada por uma configuração familiar não tão incomum. O pai é o líder e o casal de filhos é o elo de ligação desse trato religioso com os fiéis, ao permitirem o mergulho gradativo em um ambiente de perversidade, charlatanismo e repressão sexual. A figura materna é ausente, e esse é um dos muitos elementos que carregam riqueza para o roteiro. Na falta do afeto representado pela figura feminina, entra em cena a força maior; o que funciona em cena é uma forma muda de controle, domínio e repressão, de gênero e sexual. “O Véu” se mostra feliz em conseguir condensar o maior grupo de apontamentos possível, em espaço de tempo quase inexistente, e isso se mostrar tão completo.

“O Véu” é um filme que poderia ser resumido de maneira reducionista a um filme de horror social, mas isso esconderia todas as muitas camadas que o filme comporta. Motta é um cineasta em controle do que cria, tenham essas escolhas inspirações coletivas do envolvimento natural com o horror, ou seja esse teor uma captura original. Tudo o que vemos em cena parece inspirar a imaginação e o debate, a começar pelo cenário do templo onde os encontros/cultos acontecem. Existe um contraste entre o que é absolutamente sedutor ali, e a casa dos protagonistas; de um lado, temos uma visão espetaculosa do Paraíso, com um excesso de beleza, quase de maneira arrogante, com seu verde, sua cachoeira, sua árvore ao centro. Mas os interiores particulares mostram uma vida ocre, onde não há qualquer olhar de libertação, e sim a opressão em cores mortas.

O simbolismo do objeto-título do filme também é uma válvula de escape para mais de um lado. O tecido opaco abriga o ritual, que não é detalhado pelo lado de fora, mas ao mesmo tempo revela o exposto. Por baixo daquele pano branco, encontra-se a vontade de apresentar-se de maneira pura, sem precisar convencer quem está do lado de fora do que acontece ali. Se os rituais permitem um contato direto abaixo do véu, eles também revelam seus desejos mais recônditos, inconfessáveis e genuínos. Por isso o filho se vê em situação desconfortável ao desejar um fiel, e fora claramente correspondido abaixo de um tecido. É a positiva contradição de esconder ações por trás de uma parede invisível.

Enquanto exercício de gênero, “O Véu” é um daqueles casos onde precisamos parar e prestar atenção no acontecimento. Não há sutileza no cinema de gênero mais tradicional, e o que seu autor faz é equilibrar o que mostrar. Não precisa ir muito longe para descobrir sua predileção pelo cinema de gênero antes daqui, e isso fortalece a cena do audiovisual como um todo. E o requinte de Motta nem se resume à mise-en-scene; seu trabalho como autor, abarcando todos os lados da realização, é contagiante. Porque trata-se de uma obra que conversa com aspectos de debate social hoje, desenvolvidos dentro do processo de gênero, onde não há fórmulas pré-concebidas.

As imagens que brotam aqui são devidamente perturbadoras, o discurso que é sua fundação igualmente provoca incômodo, mesmo quando a aparência não carrega tensão. Porque a correlação criada é montada com o cuidado de um ourives; nada é abrupto no roteiro, a não que o plano peça por isso. E o universo criado para o filme, sua lógica interna, seu capricho narrativo, é a prova de que a execução de excelência transcende classificação. “O Véu”, em sua complexidade, alcança discurso político e amplitude social que muitos filmes puramente dramáticos não arranham. A consciência disso é a utilização que ele faz de Victor Di Marco (“Zagêro”), um ator com completos recursos, e aqui em um momento crucial de revelação, que avança o roteiro sem criar uma camada representativa. Estamos diante de um Ator, e definitivamente de um Autor – que o futuro já começou.

5Nota do Crítico51