Mapas

Espaços vazios

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o Festival Cine-PE 2026

Mapas

Nem sempre o desaparecimento dos povos indígenas, a vilipendiação do corpo preto ou a xenofobia reinante dentro da exploração do nordestino ganhou voz nos cinemas, mas o audiovisual contemporâneo quer refazer os passos da nossa história de sangue; às vezes ao mesmo tempo. “Mapas”, de Rafael Lobo, é mais um filme na disputa do Cine PE 2026, e com uma linguagem de cinema de fluxo, a produção nos abre discussão relacionada ao que fica de memória quando uma minoria é extinta. Com profundidade, o filme resgata o espírito dos desaparecidos de toda ordem, mas especialmente as pessoas que ajudaram na construção de Brasília, e que nunca tiveram justiça aos seus sumiços. E tais eventos não só reverberam até hoje, como ainda refletem em novas pequenas tragédias.

Lobo é exímio para o registro em questão, ainda que não se furte em realizar uma experimentação na sua elaboração. Na abertura, um atropelamento – um carro e uma bicicleta. Daqui a pouco, novo atropelamento – um carro e uma bicicleta. O que estamos vendo aqui são signos dobrados, que se comunicam pela óbvia repetição, e servem para provocar a apresentação ao espectador da dupla de protagonistas. Júlia e Sérgio se encontram após o acidente, e descobrem em comum uma vontade crucial de deixarem ocupados os vazios que os consomem. São ausências familiares, que produziram seres existenciais por si só, que buscam um propósito em meio às certezas que eles abandonam gradativamente.

Se o ritmo produz uma escala diferente do que estamos acostumados a presenciar dentro do audiovisual (ou, ao menos no campo mais tradicional, com circuito e tal), “Mapas” ainda assim não é um bicho arredio. Lobo produz uma obra tensa dentro de sua capacidade de extrair da edição um mote observacional, dentro do seu particular contexto. Habitantes do Distrito Federal, Júlia viu seu entorno ganhar enredo gradual, e Sérgio é um baiano que se vê provocado pela tessitura local, que expele mais que aproxima. Esse encontro de ambos ainda resulta numa amizade improvável que se traduz de maneira atabalhoada, com fricções entre eles, e assim movendo a narrativa para um possível choque, construindo uma atmosfera onde o mistério nunca deixa de estar à espreita.

São os espaços vazios que compõem o cenário urbano da capital do país, e a gradativa ascensão de um corpo estranho que avança rumo ao desconhecido, que move “Mapas” para o campo da disrupção. A jornada por Rebeca, a jovem cujo desaparecimento lhes une, é também um movimento próprio que ambos jogam. Ele está em busca de alguém cujo retorno é impossível; ela, em busca de um encontro final com alguém que já não pode lhe responder. Ou seja, apesar da comunicação ininterrupta entre eles, a quimera em questão é encerrar uma incomunicabilidade que lhes assombra. É sublimar uma dor que não é notada, mas que não deixa de incomodar em seu modelo.

E o que era método de cinema e arranjo metafórico, torna-se fantasmagórico de fato. É quando Júlia percebe que sua parcela de culpa, causada ou impingida, é uma questão que terá de ser revolvida particularmente. Já Sérgio, apesar da dor se mostrar natural dentro do seu estado de espírito, se deixa levar cada vez mais profundamente pelo conto e pela fábula. A partir de então, suas trajetórias cruzadas tornam-se paralelas, seguindo a um desfecho que remete ao encontro, mas que esse não necessariamente precisa ser concreto. O horror e a matéria, que parecem formar a história de Brasília, se conectam nesse desfecho.

Com o trabalho de som mais impressionante da competição do Cine PE desse ano, “Mapas” também é uma produção cuja montagem e fotografia são destaques. Porque a atmosfera adequada precisa ser desencadeada pela realização de Lobo, que constrói um jogo de sobreposições e arranjo de planos dos mais intrigantes. É um filme árduo, do ponto de vista do que ele exige emocionalmente e até do físico do espectador, e que devolve uma reflexão sobre memória, perda de identidade e resgate histórico. Não é uma jornada simples, às vezes nem agradável é, mas ao longo dos dias, tende a ser uma narrativa que se completa por uma sedução sutil no arranjo coletivo.

4Nota do Crítico51

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