Buenosaires
Além do tempo
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o Festival Cine-PE 2026
A duração de “Buenosaires” é bastante curta (menos de 70 minutos), mas saímos da sessão com a impressão de extensão do que está sendo contado. Não entendam mal, toda a história do filme, a maneira como ela é contada, é acertada, no que configura seu acerto de escolha do perfil para o documentário. A diretora Tuca Siqueira nos faz viajar até a cidade-título, que não é a capital da Argentina, e sim um município a 2 horas de Recife. As curiosidades provenientes dessa região quase homônima à sua ‘co-irmã’ mais famosa é a base de um filme que se acompanha sempre com interesse e a certeza de que nada ali poderia ter sido desenvolvido de outra maneira.
A inspirada fotografia de Roberto Iuri e Felipe Lima nos livra dos malfadados drones e entrega uma bela luz que se abate sobre a região, revelando as texturas de cada cena e simulando o naturalismo com que a localidade está registrada, mesmo diante de tantas curiosidades com algum exotismo. A imagem, no entanto, filtra tais interesses para adentrar em um objeto documental que se interessa pelas pessoas e suas ações, muito mais do que pela localidade – ou melhor, tal localidade tem sua base em pessoas, são elas que povoam o plano e carregam o interesse por onde vivem. Que o filme encare essa investigação suave de maneira límpida em sua construção estética, só eleva o resultado final.
O que não soa positivo é esse esgarçamento do seu campo narrativo, como se a cidade estivesse perdida no tempo e no espaço e precisasse ser dissecada de maneira observacional, onde isso não teria tempo certo para cessar. “Buenosaires” é um filme que desafia os limites do pré-estabelecido enquanto obra de cinema, já que finca suas raízes em uma proposta que tem um alongamento na dedicação que o filme propõe. Cada detalhe é dissecado sobre cada um dos personagens-eventos em tela, e isso não significa detalhar suas dinâmicas, mas reproduzir os mesmos códigos em cena por uma saída dilatada, sem hora para encerrar sua vigilância.
Com isso, o filme passa ao largo de um caráter de concisão, sem provocar uma reflexão mais aprofundada ou alguma tensão escondida por trás do tempo. O que é visto pela obra, poderia servir à mesma assertividade caso cada cena não sentisse uma vontade de ir além do que necessitaria. Mas todos os elementos deveriam sim estar em cena, como a professora de espanhol gratuito, o desfile de maracatu e a inacreditável seriedade como uma “copa do mundo” local é tratada. “Buenosaires” encanta pelas maneiras mais dedicadas para expressar seu senso de descoberta, e em como acabamos por mergulhar naquele recorte em medo, a partir de certo momento.
O universo e a abordagem escolhidas para a produção, parecem não esconder que o espectador, junto a direção, está descobrindo um causo curioso, com momentos divertidos e uma maneira singular de encontrar tais situações. Por isso mesmo, “Buenosaires” sugere em suas entrelinhas que um curta-metragem talvez fosse o caminho mais indicado para encontrar e envelopar esse projeto. Como um longa, o filme vende uma repetição que acaba esbarrando na redundância, aqui e ali. Ainda assim, Siqueira entende a obsessão pelo qual os moradores encaram para manter as tradições que eles mesmo desenvolveram, como na torcida da real Copa do Mundo, em jogo em que o Brasil enfrentava a Argentina.
Siqueira é uma diretora com potencial inegável, que não percebeu que sua obra cabia em outro registro. Caso fosse um curta, “Buenosaires” provavelmente seria uma das opções mais criativas do ano, com uma graciosidade no que tange seus moradores. Como um longa, o filme perde seu caráter investigativo a partir do momento onde não há o que desvendar depois determinado momento, quando observamos a maneira circular com que o roteiro é desenvolvido, andando sempre pelas mesmas alternativas. No meio disso tudo, ainda existe um filme ali em seu desenvolvimento, na qual é apresentado saídas cheias de afeto para quem está na frente das câmeras.




