A Odisseia
Desafio assumido
Por Francisco Carbone
Vamos às atribuições: “A Odisseia”, poema épico cuja autoria é atribuída a Homero por volta do século VIII antes de Cristo é considerada a segunda obra da literatura ocidental na História – a primeira, também de Homero, é sua precursora, “Ilíada”. Assim sendo, como atribuir algo basilar para a contação de histórias, como obter a coragem necessária para tal e como conseguir o tamanho da engrenagem para colocar tal projeto de pé? Acredito que somente Christopher Nolan mesmo seria capaz de agrupar todas as ferramentas citadas na frase anterior, e ainda sagrar-se vencedor de empreitada literalmente hercúlea. Chega aos cinemas hoje então seu maior empreendimento, “A Odisseia”, que apenas nas ideias iniciais, escalação e movimentações extra fílmicas trouxe para si um arsenal de provocações; após “Oppenheimer”, tudo isso era mesmo preciso.
O resultado ultrapassa as linha habituais da exuberância para pintar Nolan de um aspecto que parece se tornar uma característica que é complexa para admitir-se vinda de alguém (eu) que não o considera um semideus em Hollywood: existe hoje outra pessoa na indústria com maior poderio, capacidade argumentativa e mais corajoso que ele? Desconheço. “A Odisseia” é um desafio do qual qualquer autor teria prazer em fugir, e Nolan abraça as possibilidades de encontrar um risco ainda insondável com a segurança de quem parece ter sido predestinado. Atualmente, ele é o único nome em que as chances de retorno de bilheteria são de 100%, e para essa máxima, Nolan não resolveu estar confortável; faz o oposto disso, na verdade e se desafia com sarrafos cada vez mais altos.
Na teoria, toda a empreitada epopeica do autor é recompensada em cada detalhe por um artesão disposto a ir sempre além do que já apresentou anteriormente. Na prática, Nolan ainda está no caminho da afinação que o livre de apontamentos já recorrentes em sua obra, mas que aqui terceiriza novos ecos. Por um lado, temos a essência primal de uma narrativa que fundamentou “a jornada do herói”; se o cinema trata esse conceito com uma base estrutural de modelo comum, isso se dá por conta da criação de Homero, que coloca tais arcabouços no campo da ação propriamente dita e também na conjugação reflexiva e criacional de tais mitos. Nolan só aproveita o que já estava pronto com maestria e desenvolve tal adaptação com um detalhamento não imaginado, em aproveitamento inimaginável. Sob outro ponto de vista, no entanto, o “calcanhar de Aquiles” do roteirista Nolan ainda não está calibrado a contento: seus diálogos ainda mostram-se auto explicativos e pior, auto laudatórios das próprias ações.
Particularmente, os encontros entre Penélope e Telêmaco, mãe e filho vividos por Anne Hathaway e Tom Holland, tiram do campo das imagens seus valores épicos, enxertando frases de efeito oriundas de enciclopédias para engrandecer o caráter do que é contado. A opção pelo realismo decepa do plano o que poderia adequar a esses diálogos expositivos sua dispensa; Nolan quer escrever o épico com cores de uma tragédia crua, sem tempo para poesia estética. Se a escolha oxigena os resultados de alguma maneira, tira do filme a procura por uma grandiosidade que se faria através do plano das imagens. E daí surge a outra curva acentuada do filme, que dispensa as peculiaridades oníricas que uma proposta fabular traria de maneira básica em algo como “A Odisseia”. Há sujeira, há desespero crescente e palpável, há um contorno de sacrifício, e há Jennifer Lame na mesa de edição que agiliza o desenvolvimento e encontra costura imponente na ideia de replicar no filme a saga memorialista de Odisseu.
Mas também parte dessa agilidade é notado um sentido de rapidez excessiva que não permite principalmente que seu protagonista (e o espectador) sintam o peso do tempo; isso precisa acontecer para além da caracterização, além da mudança de seu elenco em escalação. “A Odisseia” é uma obra fundamentada na narração de histórias que é difundida para além das eras, mas cujo peso dramático do sacrifício provocado pelo tempo precisa ser sentido, e não apenas visto. Então a bem-vinda crueza adotada por Nolan é mais um aspecto que contribui para uma acertada desmistificação de uma obra, mas que também retira dela um componente central para a conexão com quem recebe tal história. Com as lendas e mitos visitados em colocação naturalista, e seu diretor abrir mão de algum tempo distendido por suas imagens, seu resultado soa inusitado dentro do cenário de acertos.
A ideia de imersão no espetáculo, no entanto, é conseguida com sobras. O que tem de mecânico e preocupado com detalhes, Nolan também devolve em sedução com tudo que resolve representar. Sua versão de “A Odisseia” mistura elementos das passagens de Babel na Bíblia, um lugar povoado por diversas línguas e povos; após o embranquecimento de seu filme anterior, o diretor vencedor de 2 Oscars carrega uma diversidade para sua obra que engrandece sua representação. Isso coroa seu filme não de um aceno forçado junto à cultura ‘woke’, mas de outra camada de ambiguidade estética ao projeto. Com um elenco que não somente é estelar como igualmente se encontra em muitos grandes momentos de várias carreiras, é difícil sair do filme esquecendo das performances de Hathaway, da força de Matt Damon e do espetacular encontro entre Robert Pattinson e John Leguizamo, dois atores em estado de graça cena a cena. O conjunto de atuações é tão poderoso quanto suas performances individuais, em um esforço coletivo para a excelência presente em cada quadro.
Na gangorra que poderia desequilibrar para um lado ou outro entre o que Nolan apresenta, “A Odisseia” marca pontos extras quando quase sem querer reflete o presente das reflexões e das ações de seu protagonista para nossa sociedade. O clímax emocional do filme mostra um Nolan maduro para manipular o tempo de outrora através de uma discussão muito atual, e também definindo muito bem seus pontos de predicados enquanto esteta. Tanto nos encontros com a Calipso de Charlize Theron, quanto na interação com Holland e Hathaway, Odisseu desdobra as movimentações tradicionais da memória, da imaginação e do conhecimento passado adiante, em uma teia que o diretor mostra sua delicadeza. São provas de que a evolução como roteirista ainda está por vir, mas já se encontra em rota de acontecer para elevar ainda mais o que ele já consegue enquanto realizador.




