Os Irmãos Segreto
Um passeio técnico, histórico e emocional
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra CineOP 2026
O que está em questão imagética de uma obra documental – a imagem capturada, o arquivo direto ou o arquivo indireto? “Os Irmãos Segreto” trabalham essa tríade sem diminuir a importância de qualquer uma delas, embora entenda os espaços que cada uma ocupam, e suas necessidades particulares. Estando em uma mostra como a CineOP 2026, inclusive é surpreendente que o filme absorva tanto material original filmado em específico. É com ele que abrimos essa saga, de maneira provocativa: o filme fala sobre um outro tempo, de quando os irmãos saíram da Itália para o Brasil. O que vemos impresso, no entanto, é o bucólico conseguido hoje, sem qualquer textura de passado – e aos poucos, outras formas de fábula vão sendo acrescidas ao contexto do filme, sempre com novas aberturas de universo.
Os diretores Michele Manzolini e Federico Ferrone desbravam muitas formas de contar uma história através dessa por si só extraordinária jornada de três homens em busca de um propósito, e um destino: o Cinema. Da juventude regada à excessos até as descobertas do que poderia ser visto como missão, os irmãos driblaram suas próprias armadilhas para alcançar esse objetivo fantástico. Nessa empreitada coletiva, os seus conterrâneos contemporâneos mostram a essência do que eles já tentaram há mais de 100 anos, que é uma espécie de resgate a uma fantasia artesanal, em um modo muito peculiar de apresentar um roteiro e partir para seu desenvolvimento. Dessa maneira, constroem a 10 mãos um filme que poderia ser também uma ficção, e que não deixa de sê-lo.
Une-se a todo o arsenal já descrito no primeiro parágrafo, também diferentes técnicas de animação, diferentes jogos imagéticos entre luz e sombra que trazem exatamente o espírito do Primeiro Cinema à “Os Irmãos Segreto”, que acabam por tornar-se não apenas uma mecânica da obra de Manzolini e Ferrone, mas também uma ferramenta para nos carregar para o seu período. São ideias que, sozinhas, já rememoram as primeiras técnicas cinematográficas para criar truques e pequenas magias, que os próprios Lumière e Georges Méliès difundiram. É delicado e ao mesmo tempo, de um profundo senso estético, que engrandece o que estamos assistindo, e enche de camadas as aventuras de Pasquale, Gaetano e Alfonso.
Quanto ao cerne da questão que levou a obra para um festival como a CineOP, ou seja, os materiais de arquivo, o filme usa e abusa tanto de obras do período para mapear tempo e espaço, além da geografia, quanto dos originais dos Segreto, para ilustrar seus protagonistas e sua obra. É um trabalho de pesquisa meticuloso, que acaba por unir-se ao todo do que pretendem seus diretores, ampliando a percepção a respeito do que está sendo contado e também de “Os Irmãos Segreto”, sozinho. Um material acaba por aumentar a especificidade do outro, e isso cria muitas outras camadas de interpretação; não é um trabalho menos que muito rico de interpretação, de múltiplas leituras e de beleza formal inegável.
Em “Os Irmãos Segreto”, vemos que o lúdico é aproveitado para destrinchar um material documental sem abrir mão de outras possibilidades fílmicas, como por exemplo enxertar dados histórico-ficcionais ao que é tratado como factual. Ou seja, Manzolini e Ferrone ainda abrem uma das discussões mais polarizantes da área cinematográfica, que é a liberdade narrativa para documentários. Afinal, é tudo verdade em um filme do gênero? Ao manipular imagens e transformar o roteiro de seu filme em uma ponte de amplitude infinita, os artistas italianos não deturpam um gênero, e ainda ajudam a oxigenar seus ditos limites. O documentário, em sua formação, caracteriza-se por um compromisso de retratar a realidade, mas isso não significa que ele também não se aproprie da fabulação; a arte documental é parcial e tende a ser subjetivo, porque obedece a uma autoria.
O trabalho de montagem de Maria Fantastica Valmori é imprescindível porque é a partir de sua interseccionalidade que o filme deslancha. Precisa que faça sentido todas aquelas técnicas estarem não apenas dispostas, como parte fundadoras do seu pensamento estético. Parte também dessa organização nosso envolvimento emocional com o que está sendo contado, ou seja, com a própria História. “Os Irmãos Segreto”, que se abre como uma válida tentativa de mapear o surgimento da indústria cinematográfica no Brasil, acaba nos oferecendo um painel bem mais amplo – Cinema se faz com mais cinema.




