Balanço Geral e Vencedor da Mostra CineOP 2026

CineOP 2026

Balanço Geral e Vencedor da Mostra CineOP 2026

A 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto foi encerrada com a premiação de Melhor longa-metragem para “Irritante Prodígio”, de Luiza Lindner

Por Francisco Carbone

Competitiva – Arquivos em Questão, a única do evento da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto 2026. O favorito era “Apopcalipse Segundo Baby“, de Rafael Saar, o filme que mexeu com a semana no interior de Minas Gerais. Mas a narrativa da jovem cineasta que aos 22 anos lança seu primeiro longa após vencer uma batalha de mais de 10 anos contra a depressão e as doenças de fundo emocional, caiu de maneira certeira. A jovem catarinense Luiza Lindner abriu seu diário de afetos e deixou o espectador se tocar com sua história confessional em “Irritante Prodígio“.

O júri foi formado pela cineasta Anita Leandro (diretora do premiado “Anistia 79“), pela professora Gabriela Lima e pelo pesquisador João Luiz Vieira. Os três destacaram no discurso de premiação que o filme vencedor se destacou pela adequação da forma com o conteúdo, enriquecendo-se ao trazer o próprio corpo como arquivo. Emocionada, Lindner agradeceu a experiência nova de exibir um filme no festival, e voltou a pedir para que a ajudem a levar a obra para espaços mais amplos, em comunicação com outros festivais para que o debate que ela levanta seja ainda mais ousado. Lindner agradeceu aos pais, que também são artistas e que a ajudaram em tantas partes do processo.

Foram 6 dias de muito aprendizado. Tivemos inúmeras mesas relacionadas à pesquisa e a restauração, todas com repercussão dentro do evento, e que esperamos que façam o mesmo fora. A CineOP se estabelece como uma mostra que impulsiona não apenas esses debates, como também a realização de novos processos de restauro, possibilitando que tais obras sejam vistas (e revistas) com suas características originais preservadas. A fala de Renata Almeida Magalhães, presidente da Academia Brasileira de Cinema, sobre a restauração dos filmes de Cacá Diegues, é emblemática: “eu reencontrei a Xica da Silva que eu tinha visto pela primeira vez há 50 anos”. Além de obviamente o acesso aos novos públicos, que pode descobrir através do evento figuras como Helena Solberg e Ana Carolina.

CineOP 2026

O encontro com a própria cidade é um espetáculo à parte. Como costumo dizer, ninguém é melhor tratado do que quando estamos em um festival fora dos grandes centros urbanos. O afeto é palpável, a emoção flui com facilidade, a educação é predominante entre as relações, e os participantes se sentem igualmente acolhidos de maneira generalizada. A própria organização se dedica aos convidados, e a cidade também promove esses encontros cheios de carinho. Isso permite um trabalho de maior harmonia, e uma sensação contínua de que estamos fazendo o nosso melhor na área, e tendo a certeza que essa troca acontece.

Esse ano em especial, a CineOP aconteceu concomitante com a Copa do Mundo, e no dia do jogo do Brasil contra a Escócia, a cidade parecia estar em comunhão de euforia, e mesmo nós, que estávamos lá com outra finalidade, entramos na festa do futebol. Um momento raro onde a pausa era necessária, mas que não apagou o propósito geral: promover o cinema que pensa imagens pré-estabelecidas e se preocupa com a manutenção das mesmas. Ao fim do jogo, não houve pausa: à noite, a sessão de “As Dores do Mundo: Hyldon” trouxe de volta à cidade sua real motivação, que é promover o nosso encontro com arquivos e estabelecer um diálogo entre o que já foi feito, e o que pode ser ressignificado a partir de então.

A vitória de Lindner, que para muitos soou exagerada pela juventude da diretora, no fim das contas parece mandar um recado para o futuro: os materiais de arquivo não têm idade. Eles são importantes se datam de 100 anos atrás ou 10, e precisam ter a atenção comum porque no futuro ambos estarão necessitando de resgate. Esse é o espírito que escapa da CineOP, que realiza muito mais do que um festival, mas um encontro sem sentimentalismo acerca do nosso passado; ele só pode ser rememorado caso efetivamente exista. E a existência, para o Cinema, passa por todos os processos caros ao evento.