Apopcalipse Segundo Baby
A Menina Dança
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o É Tudo Verdade 2026
Bernadete. Baby Consuelo. Baby do Brasil. Todas são a mesma pessoa, mas será? A seara de biografias musicais não se encerra, e talvez alguns biografados sejam mais fáceis do que outros. Em se tratando de Baby, nada é pouco complexo e reside aí um dos muitos códigos fascinantes de “Apopcalipse Segundo Baby”, documentário que Rafael Saar prepara há quase duas décadas sobre uma das maiores cantoras/artistas do nosso tempo. Mais de 50 anos de carreira que não podem ser resumidos, porque sua natureza revela uma personalidade cheia de camadas e meandros. Ao estar de frente com a exuberância de uma personagem tão marcante, qualquer outro filme ou diretor estaria prestes ao melindre. Não é o caso de Saar, que conecta seu filme a ela.
Vindo de produções ainda mais desafiadoras, como “Yorimatã” e “Peixe Abissal“, Saar tem aproximação com o experimentalismo dentro do documentário. Isso faz dele uma das vozes mais interessantes do gênero no Brasil hoje, descobrindo texturas e criando elaborações a partir do que os próprios artistas dão para ele. Seja seguindo Luhli e Lucina, ou aproximando-se de Luís Capucho, o diretor não se furta em absorver para sua obra as características de quem filma. Sua atmosfera, seu habitat natural, sua persona encarnada em fotograma; Saar fez isso nos longas anteriores, e reproduz isso também em “Apopcalipse Segundo Baby”, com uma diferença crucial, que é a multiplicidade de DNAs que abrigam Baby, e sua enorme constelação interior.
Em “Apopcalipse Segundo Baby”, Saar segue sua protagonista de maneira bem acentuada durante a maior parte da projeção. Sua chegada na cena musical, seu contato com os personagens com quem formaria os Novos Baianos, os anos junto com os rapazes na chácara onde viviam em comunidade, o início da carreira solo, sua história com Pepeu Gomes, o nascimento dos filhos que já começaram durante o grupo. Até o período que setoriza seus primeiros 20 anos de carreira, o filme não se compacta; ao invés disso, a montagem do filme nos lembra sempre que Baby Consuelo em algum momento se transformará em Baby do Brasil, e isso tem ênfase na maneira como a direção escolhe observar sua personagem-título pelo viés do telúrico, para conjurar uma expressão popularizada pela mesma.
O que vemos acaba se tornando, vejam só, uma obra híbrida, mas não entre Baby e Saar,e sim entre a disponibilidade de um artista em encontrar seu caminho e sua voz dentro do gênero, e a imposição de uma figura midiática enorme dentro de uma tradição de obra cinematográfica. Está em “Apopcalipse Segundo Baby” esse jogo de contradições inerentes às vontades disparatadas, e talvez até absorvidas pelo inconsciente, de que uma história precisa ser contada por imagens, por entrevistas e por shows, e assim segue sua tentativa. O resultado é um produto que encanta, porque o cineasta assim configura sua obra, e porque a biografada tem o seu brilho particular, mas que deixa escapar sua vontade de liberdade ainda maior.
A meia hora final do filme, onde Baby já está divorciada, e começa a assumir traços contemporâneos de sua persona, o filme parece enfim conseguir encaixar essa verdade da artista à sua. É como se “Apopcalipse Segundo Baby” estivesse esperando toda sua duração menos extravagante para esse momento, onde a intérprete de “Menino do Rio” alcança sua espiritualidade de muitas formas. Antes que isso a envolva sob um manto neopentecostal, Saar explora sua linha reflexiva e seu lugar de recolhimento dentro de segmentos da forma como ela passa a lidar com o astral, de maneira explícita. É a partir daí que o filme incorpora os trejeitos de seu autor para torná-lo uma obra menos dependente de vontades externas.
E no meio do combo, o mais importante é tornar Baby acessível sem mascarar suas excentricidades, porém abdicando do que a imprensa já faz regularmente, que é taxá-la como cidadã menor, ridicularizada. “Apopcalipse Segundo Baby” é uma prova de amor a uma artista com uma obra que atravessou gerações, e que ainda hoje conta com passagens menos exploradas, como sua participação no MPB80 com “O Mal é o que Sai da Boca do Homem”, em pleno cursa da ditadura. Sua maternidade, sua obra, a apresentação clássica de “A Menina Dança”, isso tudo está em cena, em uma artista cuja biografia está impressa na pele e na voz, acima do que a tacham hoje e ontem.




