Pompeia: Sob as Nuvens
Palimpsesto
Por João Lanari Bo
Festival de Veneza 2025
Como definir o gênero cinematográfico de um filme como “Pompeia: Sob as Nuvens”, finalizado em 2025 por Gianfranco Rosi? Documentário? Filme-ensaio? Nesse universo de classificações mais ou menos arbitrárias que se tornou o cinema, ou o consumo do cinema, como diria Godard, a obra de Rosi escapa aos arquivistas apressados, em particular aqueles que organizam listas dos streaming. Uma alternativa seria pensar o filme como um palimpsesto de imagens.
No sentido figurado, palimpsesto significa, de acordo com a IA:
Na literatura e na teoria cultural, um palimpsesto é qualquer obra, ideia ou memória que revela camadas de diferentes épocas. É muito usado como metáfora para obras que se baseiam, transformam ou dialogam com trabalhos anteriores, formando “camadas” de significados.
E que camadas é possível identificar em “Pompeia: Sob as Nuvens”? De cara, as óbvias, aquelas que o tempo linear nos oferece – a antiguidade, preservada por milagre em virtude da erupção do Vesúvio, em 79 DC, e os registros que se sucedem, desde as pérolas de cinemateca projetados em um cinema (quase) em ruínas até as pessoas que ligam para a central de emergência na Nápoles contemporânea para relatar tremores de terremoto, aterrorizadas diante da possibilidade de um novo cataclisma. O incansável Vesúvio, que paira sobre a população napolitana como uma assombração, entrou em erupção novamente em 1944, embora em escala menor, mas suficiente para galvanizar a memória coletiva.
Os filmes exibidos, na sala “condenada”, são trechos de documentários sobre Pompeia, juntamente com cenas do fabuloso “Viagem à Itália”, dirigido por Rossellini em 1954, e do não menos fabuloso “Os Últimos Dias de Pompeia”, realizado por Eleuterio Rodolfi em 1913, um longa-metragem pioneiro na história do cinema. No primeiro, Rosi escolheu cenas em que o casal (Ingrid Bergman e George Sanders) em vias de separação visita o sítio arqueológico de Pompeia e presencia o momento em que os arqueólogos retiram os moldes em gesso de outro casal soterrado há séculos. Emocionada, ela diz que a vida é muito curta e ele ironiza, tentando se esquivar da emoção que os dominou.
Se “Pompeia: Sob as Nuvens” é também um filme arqueológico, mais do que justo jogar com a arqueologia das imagens. No plano físico, arqueólogos e funcionários do museu em Nápoles caminham por depósitos intermináveis de estátuas e artefatos, amontoados e à espera de um chamado para retornar à superfície. O tempo destrói tudo, preserva tudo e depois retorna para nós de uma forma inesperada: assim diz um arqueólogo, enquanto trabalha para desenterrar as ruínas. Algumas das peças incluem moldes feitos das vítimas da erupção. O valor disso tudo é incomensurável no mercado de arte, e não é de hoje – tráfico ilegal de antiguidades tem valores astronômicos, ninguém sabe ao certo quanto se gasta, quem compra e quem vende, e que inclui, obviamente, lavagem de dinheiro.
Por conta dessa realidade policial, “Pompeia: Sob as Nuvens” adentra mais uma camada, desta feita no subsolo napolitano e adjacências de Pompeia: os túneis que ladrões e pilhadores construíram ao longo dos anos para saquear o que sobrou do milagre de preservação que são as ruínas e restos de Pompeia. Entra em cena um diligente procurador que visita uma sala soterrada, cujos afrescos foram surrupiados sem a menor cerimônia por gatunos anônimos, sabe-se lá como e quando. A metáfora do palimpsesto adquire aqui uma concretude inesperada, ou esperada, um diálogo de significados entre roubo moderno e arqueologia – claro está que o produto do roubo se destina a colecionadores privados, os verdadeiros responsáveis pela predação.
Um verso de Jean Cocteau, “O Vesúvio cria todas as nuvens do mundo”, serve como epígrafe do filme. A sensação que emana do mergulho de Rosi é que estamos em um espaço/tempo indefinido, onde a história existe ao lado do presente, e onde os resíduos sobrevivem, mas não nos ancoram ao passado – o presente é uma flutuação. Em termos cinematográficos, o filme pode ser visto como exploração das margens das temporalidades da narrativa como história. E mais: como questionamento das teleologias dos conhecimentos que sustentam e conformam essa narrativa. Ou seja, um filme-ensaio?
Gianfranco Rosi demorou quatro anos para completar seu projeto. Como de hábito – vide seu “Notturno”, de 2020 – foi só ele e a câmera, sem roteiro, “defrontando-se com a realidade”, como costuma afirmar em suas entrevistas.




